A extrema-esquerda acordou. Ou, pelo menos, parece ter-se lembrado de onde veio.
Durante décadas, a esquerda ajudou a libertar Portugal da moral obrigatória do «Deus, Pátria e Família». Combateu o flagelo do aborto clandestino, a discriminação pela orientação sexual e a ideia de que só existia uma maneira legítima de viver. Não fez esse caminho sozinha, mas teve nele um papel que seria desonesto apagar.
Portugal ganhou liberdade.
Ganhou direitos.
Ganhou espaço para respirar.
Só que, algures pelo caminho, uma parte dessa esquerda parece ter confundido conquistas com missão cumprida.
E não foi só cá em Portugal. Foi em todo o lado. Uma tendência mundial.
Continuou a discutir como se devia viver, enquanto perdia força a pergunta mais elementar: com que dinheiro se vive?
Entretanto, o país transformava-se numa montra imobiliária.
A casa passou de lugar para morar a oportunidade de investimento. Os fundos de investimento compravam casas ao desbarato e deixavam-nas vazias ou com AL. Enfim, o património residencial deixou de ser residências. Tornou-se produto.
O sucesso nacional começou a medir-se pelo preço a que conseguíamos vender Portugal a quem tinha mais dinheiro para o comprar.
Uma fábrica de anúncios, comissões e promessas de rentabilidade. E quem cá trabalhava ia fazendo contas.
Durante os governos de António Costa, a esquerda à esquerda do PS enfrentou uma contradição: apoiar a governação e continuar a contestá-la.
Houve só desgaste a reboque dos emigrantes ilegais vindos de sítios que não estamos habitudados.
A proximidade ao poder foi retirando nitidez à oposição.
E havia sempre uma urgência maior: travar a extrema-direita.
Quanto mais se falava dela, mais ela ocupava a conversa. Até o debate público parecer organizado à sua volta.
O Chega percebeu a oportunidade.
Pegou na frustração, deu-lhe um inimigo identificável e apresentou respostas simples para problemas difíceis.
A imigração ilegal, descontrolada, mafiosa, dando residências e nacionalidade a quem alegadamente paga mais por isso, tornou-se explicação para quase tudo: salários baixos, serviços sobrecarregados, insegurança, falta de habitação.
Discutir exploração laboral, redes de imigração ilegal e capacidade dos serviços públicos exige seriedade. Transformar todos os imigrantes num culpado coletivo exige apenas um megafone.
A esquerda, entretanto, desligou-se da classe média baixa, que é quase todo Portugal, e parecia muitas vezes mais preparada para censurar a linguagem do descontentamento do que para compreender as condições que o produziam.
Depois chegou o abalo da Operação Influencer. A descoberta de alegados 75.800 euros no gabinete de Vítor Escária, então chefe de gabinete de António Costa, ofereceu uma imagem devastadora do poder. A responsabilidade criminal exige prova; o estrago político instala-se muito antes de uma sentença.
Veio a direita, com a sua promessa de arrumar a casa.
Mas, para quem procura uma casa onde viver, a alternância política vale pouco se a renda continuar incomportável.
O discurso muda.
A conta chega na mesma.
E é aqui que a esquerda tem uma oportunidade de regressar ao lugar que deixou demasiado vazio.
A habitação devolve materialidade à política. Obriga a falar de salários, propriedade, impostos, construção, transportes e distribuição de riqueza. Obriga a escolher interesses e a assumir conflitos.
Uma bandeira pode emocionar.
Não paga a entrada de um apartamento.
Um vídeo pode viralizar.
Não permite sair de casa dos pais.
É possível que parte dos jovens seduzidos pela irreverência da extrema-direita comece a fazer essa conta.
A provocação tem prazo de validade quando não oferece perspetivas de vida. Ser contra tudo pode parecer cool.
Continuar sem conseguir pagar um quarto tem muito pouca graça.
A manifestação pode então recuperar aquilo que o ecrã lhe roubou: presença, pertença e a sensação de poder fazer alguma coisa em conjunto.
Mas seria um erro trocar apenas uma moda digital por outra.
A esquerda não regressa por conseguir mais visualizações de uma marcha. Regressa se transformar mobilização em organização, propostas e resultados.
Voltar à luta de classes exige mais do que recuperar o vocabulário.
Exige estar onde os salários falham, onde as rendas expulsam e onde trabalhar deixou de garantir autonomia.
Foi hoje [27 de outubro] nesta manifestação que o Ministro da Administração Interna incentivou, mais que o Presidente da República, que a extrema-esquerda acordou.
A extrema-esquerda acordou. Voltou onde nunca devia ter saído. Defender as classes mais pobres.
Agora terá aprendido a lição de não apoiar o centro? A ver.
Terá entendido, independentemente da sua etnia, que quem mais beneficiou das residências das cooperativas, bairros sociais, etc. não puseram lá ainda os pés na manifestação? A ver.
Mas acordou e vamos ver. O despertador foi a renda e ela vence todos os meses.
RIP Livre nas próximas eleições legislativas e Chega comecará a cair, mesmo sendo primeiro partido mais virado
Hoje ficou escrito que Passos Coelho pode mesmo ser o próximo primeiro-ministro.
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