Carta aberta a um líder que, de tão admirável, já não cabe no espelho.
Caro impoluto herdeiro das Metamorfoses de Ovídio, permite-me, antes de mais, que me curve diante da tua luminosa presença. Não sou psicólogo nem psiquiatra — apenas um humilde confrade da Canja de Galinha Morta e do Gaspacho Frio, um curioso obstinado que acompanha os teus gestos públicos com reiterada admiração.
Escrevo-te esta carta de amor à perfeição política, como modesta infusão de confirmação externa da tua incomensurável importância. O mundo precisa conhecer-te melhor, para além da tua nobre condição de defensor implacável dos direitos das mulheres. Afinal, quem melhor para narrar a tua história do que um simples ungido que reconhece a tua grandeza? É preciso um dom especial para ser tão brilhante quanto tu.
Desculpa a informalidade — fruto apenas da estuporada admiração que me inspiras. Imagino quão penoso deve ser carregares tamanha perfeição: ser o centro de todas as atenções em outdoors, aventais, lapiseiras, sacolas, calendários, enfim, o foco de todos os olhares, o sol em torno do qual gravitam astros menores. Um fardo, decerto, mas digno de um ser tão ilustrado e luminoso, que precisa — por justiça cósmica — de ser admirado a cada instante.
Quando leio as invetivas dos teus detratores — esses ingratos deputados desfiliados que ousam chamar-te “predador narcísico” e “autocrata de pulsão destrutiva” — não posso conter a minha augusta indignação. Tu, que fazes da política uma obra de arte e até mandaste pintar o chafariz da minha freguesia! E ainda ousam prever “pancadaria” na bancada do partido, como se os teus leais companheiros fossem desordeiros e não paladinos do verbo patriótico. Que ultraje. Pode lá a gente séria desta terra conceber uma coisa dessas, por parte de exemplaríssimos e imaculados representantes do povo e da moderna cidadania tiktokiana?
Confesso-me fervoroso adepto da política do espetáculo. Deliro — sim, deliro! — com o teu estilo coloquial, omnipresente em todos os canais, onde te estendem a passadeira vermelha da palavra. És o artista total da indignação: falas, gesticulas, interrompes, e todos te escutam como se Moisés acabasse de descer do Monte Sinai com o teleponto nas mãos.
Não entendo, pois, como certos profetas da “inversão demográfica” se atrevem a insinuar que possuis “um traço de personalidade incompatível com o governo responsável”. Como podem dizer tal coisa de alguém que treina, com devoção quase monástica, os pulmões na gritaria cívica com os seus militantes — os teus compagnons de route parlamentares — e os conduz, com fervor patriótico, a banhos de cidadania na festa dos hambúrgueres?
E há ainda quem desconsidere o teu nacionalismo de raiz, dizendo que não existe um gene português exclusivo. Que atrevimento! Como se a grandeza de uma nação pudesse medir-se por estudos genéticos. Ignoram que possuis um gene singular — o A25-B18-DR15 — prova cabal de que descendes diretamente de um puro-sangue cavalo de Alter, cruzado apenas com o mito da fundação da pátria. Não nasceste no corpo errado, nem no século errado: és o herdeiro biológico de Viriato e da epopeia.
A tua ciclópica capacidade de transformar qualquer adversidade num palco apenas teu é inspiradora. A forma como consegues ser vítima de todas as circunstâncias — mesmo quando estás a vencer — é uma arte rara. E a tua habilidade de encontrar um erro em cada pessoa e em cada coletivo, exceto em ti próprio, eleva-te à condição de espelho moral da nação.
Sabes… aqui a vergonha perdeu o rumo e esta gente embruteceu. No meu tempo, sob o sagrado lema de Deus, Pátria e Família, ninguém precisava de inteligência artificial para pedir moelas numa tasca, e beber vinho alimentava, de forma patriótica, um milhão de portugueses. Como os tempos mudaram! Que o partido continue, pois, a admirar a tua grandeza sem reservas — e que o Marcelo jamais te ataque com um balanceado e tenaz aperto de mão.
Faço votos para que nunca te confundam com as suas próprias carências e que estejas, em todos os palcos, apenas para seres aplaudido. Afinal, é preciso um esforço hercúleo para ser tão perfeito.
Pela minha parte, lamento não conseguir cumprir integralmente o papel de admirador constante que o mundo te deve. Espero apenas que, após a oportuna proibição das burcas, também possas anunciar um merecido desconto nos impostos para os jovens que pratiquem abstinência sexual — medida justa e moralizadora — e que me avises com antecedência, para que este teu humilde devoto também possa candidatar-se.
Com uma admiração que nunca se esvai,
Teu fidelíssimo admirador e devoto da tua própria imagem.
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