Num espaço quase místico, onde a saudade se cruza com a burocracia que nos arquiva o tempo e a paciência entre carimbos, as presidenciais reacendem-se como placas tectónicas da sociedade. Entre a apatia e a crença num futuro improvável, o país prepara-se para contratar um político em regime de exclusividade, ou alguém que saiba fingir que o tem.
Neste absolutismo do presente, o povo convence-se de que possui liberdade, esquecendo que ela é o mais mal-amado dos direitos naturais. E, por isso, insiste em entregar ao presidente da república a guarda da sua própria ilusão. Continuamos a precisar de alguém que nos tutele como pai, nos acarinhe como mãe e nos tranquilize como psiquiatra de divã.
Renova-se a ilusão de uma nova centralidade do Estado, com a velha retórica de sempre. Os candidatos ensaiam a coreografia habitual, embalados por slogans, palcos e palavras de ordem — promessas de progresso, justiça, liberdade e direitos sociais. Tudo para alimentar a verborreia nacional, destinada a percorrer os caminhos tortuosos da Lusitânia.
Neste cenário, o nosso combalido Estado Social, nascido para promover o bem-estar, definha entre promessas abortadas e orçamentos esventrados para fins bélicos. Enquanto isso, os partidos — versáteis como sempre — lançam militantes seus ao cargo de mais alto magistrado, disfarçando-os de independentes e plurais. Liberdade concedida, mas não sem o dedo acusador da heresia política de quem fuja do seu trilho.
No PS reina a confusão entre reflexão e inércia, estratégia e nostalgia. Sentado numa almofada de veludo, o partido assiste aos exorcismos dos seus barões, à procura de um candidato que una o útil ao nostálgico. Surge, então, António José Seguro, o mal menor, “seguro” por falta de melhor. Desconhece-se nele qualquer rasgo de interesse público desde 2014, mas agora, por conveniência, o PS redescobre-lhe um perfume do passado. É a política como reencontro amoroso com um ex — não por paixão, mas por falta de alternativas.
Entre fingimentos e reconciliações, o partido sonha com o enevoado Sampaio da Nóvoa, mas contenta-se com Seguro. No fundo, o PS de hoje é mais saudoso do que visionário, mais devoto da memória que do futuro. E quando, com solenidade clerical, declarar o apoio a Seguro, o país suspirará de alívio: a coerência, afinal, continua a ser um mito.
Marques Mendes, por seu turno, apresenta-se “rigorosamente independente”, equilibrando-se num guião de moderação e sobriedade. Alerta para os perigos do “almirante”, insinuando um risco de militarização da presidência, como se o fantasma de Eanes regressasse em uniforme. A sua retórica de medo pinta Gouveia e Melo como ameaça à democracia, esquecendo que o povo pode ver nele precisamente o contrário — o antídoto para a decadência kafkiana em que vivemos.
O almirante, que não nasceu numa tribuna partidária nem na intriga palaciana, é acusado de totalitarismo pelo simples facto de ser disciplinado. Contudo, o país ainda recorda que, durante a pandemia, marchou ao ritmo da sua “Ópera da Vacina”, e poucos poderão negar-lhe esse mérito.
Nesta contenda, ressurge o André, de alma nacionalista intacta e pura, que acredita poder redimir a pátria corrompida. A sua voz ecoa numa sociedade ferida: justiça lenta, saúde agonizante, habitação em colapso. O discurso encontra terreno fértil entre os que suspiram pela ordem e pela tribo fechada. Vende a nostalgia como bálsamo — um retorno ao passado mítico onde não havia mobilização social de diferenças nem dissonâncias entre os indivíduos.
Mas um presidente não pode ser o sacerdote de uma limpeza moral ou de uma democracia asséptica, livre dos que cheiram a povo, falam alto ou discordam de nós. O risco é transformar a nostalgia em dogma e a liberdade em conforto higienizado.O risco é abolir a convivência com aqueles de quem não gostamos e de quem discordamos, e sujeitá-los a uma cultura de cancelamento.
No fundo, o charme das presidenciais reside nessa sedução coletiva por salvadores, pais da pátria e tutores emocionais. Talvez, por isso, o país continue a oscilar entre o medo e a esperança, entre o voto e o desabafo. As presidenciais são o espelho perfeito da nossa melancolia política: um ritual onde a crença suplanta a convicção, e o futuro sempre acaba por ser uma polida reedição do passado.
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