Os ventos na estratosfera sobre o Ártico começaram esta terça-feira, 3 de março, a inverter o sentido, num fenómeno técnico conhecido como reversão dos ventos a 10 hPa e 60ºN. A alteração marca a instalação de um novo regime atmosférico no Atlântico Norte e poderá condicionar o estado do tempo em Portugal nas próximas semanas, embora os efeitos concretos à superfície permaneçam incertos.
De acordo com o Luso Meteo, site especializado em meteorologia e análise atmosférica, a reversão em curso configura um episódio classificado como major, critério que implica a mudança efetiva da circulação de oeste para leste na estratosfera polar. Segundo a mesma fonte, esta alteração cria condições para uma reorganização do padrão atmosférico no Atlântico, já visível na forma de um bloqueio anticiclónico sobre a Escandinávia.
Bloqueio no Norte da Europa condiciona circulação
O novo regime traduz-se numa área de alta pressão persistente sobre o Norte da Europa, ao mesmo tempo que o Atlântico mantém um anticiclone robusto e baixas pressões junto à Gronelândia. Esta configuração força as depressões a descerem em latitude, aproximando-se da Península Ibérica, mas tende a enfraquecê-las.
O resultado é um período de maior variabilidade, com episódios de instabilidade ocasional, trovoadas e precipitação irregular, mas sem sinais de chuva persistente. A atual depressão Regina insere-se neste padrão. Até meados de março, o cenário mais provável aponta para esta alternância entre abertas e períodos instáveis, com descidas temporárias de ar mais frio, embora sem previsão de episódios de frio intenso.
A mudança invisível que começa a 50 quilómetros de altitude
O fenómeno agora observado é um aquecimento súbito da estratosfera, conhecido pela sigla inglesa SSW, Sudden Stratospheric Warming. Ocorre quando ondas atmosféricas geradas na troposfera sobem até cerca de 10 a 50 quilómetros de altitude, enfraquecendo os ventos de oeste que circundam o Ártico. O ar comprime-se e aquece rapidamente, alterando o equilíbrio do chamado vórtice polar.
Quando essa estrutura é perturbada, o ar frio que habitualmente permanece confinado às altas latitudes pode deslocar-se para sul, influenciando o tempo na América do Norte, Europa ou Ásia. Contudo, nem todos os episódios produzem impactos diretos nas mesmas regiões, e a resposta da atmosfera inferior varia de caso para caso.
No atual episódio, os modelos atmosféricos indicam que o núcleo frio do vórtice polar se deslocou para a Escandinávia. Ainda assim, a propagação dos efeitos da estratosfera para a troposfera não é, para já, evidente. Sem esse acoplamento, o impacto no regime de precipitação em Portugal tende a ser limitado.
Pode regressar um padrão mais chuvoso?
Uma das incógnitas é saber se poderá instalar-se um regime de NAO negativa, caracterizado por alta pressão nas latitudes mais elevadas e baixas pressões mais a sul, favorecendo precipitação persistente na Península Ibérica. Neste momento, os cenários dominantes apontam antes para uma NAO positiva ou neutra, com o jet polar mais zonal e ativo.
Os ensembles dos principais modelos não indicam, para já, uma divisão significativa do vórtice polar, cenário que aumentaria a probabilidade de mudanças mais marcadas. A presença continuada de baixas pressões na Gronelândia reduz a hipótese de bloqueios a oeste que canalizem frentes sucessivas para Portugal.
Segundo o Luso Meteo, a evolução permanece de difícil previsão para além de cinco a sete dias, dada a natureza disruptiva destes fenómenos estratosféricos. A mesma fonte sublinha que, apesar de ser menos provável neste momento, não pode ser excluída uma alteração do padrão atmosférico na segunda quinzena do mês.
Até lá, o cenário dominante aponta para variabilidade, com precipitação ocasional e risco reduzido de cheias pelo menos até meados de março. A monitorização dos próximos dias será determinante para perceber se a mudança iniciada a grande altitude terá, ou não, tradução mais expressiva à superfície.
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