Os principais centros internacionais de previsão climática voltaram a reforçar o cenário de um Super El Niño em 2026/2027. Segundo a Meteored, a consistência entre os modelos, o aumento do aquecimento previsto e as condições já observadas no Oceano Pacífico elevam a confiança de que este evento possa vir a estar entre os mais intensos desde o início dos registos.
Em causa está o aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial, fenómeno associado ao El Niño-Oscilação Sul, conhecido pela sigla ENOS. A atualização mais recente da pluma de previsão do Instituto Internacional de Investigação para Clima e Sociedade, da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, aponta para anomalias que podem superar os 3 ºC entre outubro e dezembro.
Modelos reforçam cenário de El Niño muito intenso
A nova atualização da pluma do IRI reúne previsões de 24 modelos climáticos iniciadas em julho. O momento da atualização é relevante porque surge depois de o Pacífico Equatorial ter atingido temperaturas recorde para esta época do ano, o que passou a estar incorporado nas condições iniciais das simulações.
De acordo com a Meteored, este novo conjunto de previsões reforça um cenário que já vinha a ser indicado há vários meses pelos principais centros meteorológicos. O El Niño 2026/2027 deverá continuar a intensificar-se nos próximos meses e poderá alcançar uma intensidade muito forte.
As anomalias previstas para a região Niño 3.4, uma das principais áreas usadas para monitorizar o fenómeno, podem ultrapassar os 3 ºC entre o final do inverno e o início da primavera no Hemisfério Sul. Os modelos dinâmicos, considerados mais fiáveis para este horizonte de previsão, também agravaram a projeção face à ronda anterior. Na atualização iniciada em junho, o valor máximo apontava para 2,6 ºC. Agora, a previsão sobe para cerca de 3,1 ºC.
Pacífico já registava aquecimento recorde
Os dados semanais do Centro de Previsão Climática da NOAA, relativos à semana terminada a 15 de julho, mostram que a região Niño 3.4 registou uma anomalia absoluta de +2,1 ºC face à climatologia. Foi a segunda semana consecutiva com valores iguais ou superiores a 2 ºC, nível normalmente associado a episódios de El Niño muito intensos.
Ainda assim, este valor isolado não basta para classificar oficialmente o fenómeno como El Niño muito forte, uma vez que essa avaliação é feita com base numa média trimestral das anomalias. Mesmo assim, os dados mostram que o oceano já atingiu temperaturas compatíveis com alguns dos grandes eventos históricos.
As anomalias relativas, que descontam o aquecimento médio dos oceanos tropicais e são atualmente a métrica oficial de monitorização, chegaram a 1,4 ºC na última semana, aproximando-se do limiar de evento forte, definido em 1,5 ºC. Também nas águas subsuperficiais, até cerca de 300 metros de profundidade, foi identificada uma área quente com anomalias superiores a 6 ºC próximas da superfície.
Temperaturas superam anos marcados por El Niños históricos
Além dos dados da NOAA, os registos diários do Climate Reanalyzer indicam que 2026 tem vindo a estabelecer recordes na temperatura da superfície do mar. A Meteored destaca que, desde junho, tanto a média dos oceanos globais como a média da região Niño 3.4 atingiram valores recorde, acima dos 29 ºC, ainda no início do inverno do Hemisfério Sul.
Estes valores superam registos de anos associados a El Niños históricos, como 1982, 1997 e 2015. Essa comparação ajuda a explicar a atenção crescente da comunidade científica e dos centros de previsão, embora a confirmação da intensidade final dependa da evolução do fenómeno ao longo dos próximos meses.
O El Niño pode alterar padrões de chuva, temperatura e circulação atmosférica em várias regiões do mundo. Os impactos variam consoante a zona do planeta e a época do ano, mas episódios muito intensos tendem a ter efeitos mais marcados nos sistemas meteorológicos globais.
ECMWF também aponta para anomalias superiores a 3 ºC
A Meteored refere ainda que, desde 2025, a pluma do IRI deixou de incluir um dos principais sistemas de previsão climática do mundo: o modelo do Centro Europeu de Previsões de Médio Prazo, conhecido pela sigla ECMWF.
Mesmo fora desse conjunto, as simulações iniciadas em julho pelo ECMWF apontam para anomalias superiores a 2,5 ºC a partir de agosto e acima de 3 ºC a partir de outubro. Segundo a Meteored, se estas previsões ainda integrassem a pluma do IRI, a média do ensemble seria ainda mais elevada.
O próprio ECMWF, através do Copernicus Climate Change Service, disponibiliza uma média de nove modelos de diferentes centros de previsão climática. Esse conjunto também reforça a possibilidade de um evento excecional, indicando anomalias de 3,5 ºC em dezembro.
Evento poderá ficar entre os mais fortes já registados
A consistência entre as sucessivas atualizações, o reforço do sinal de aquecimento nos modelos e as condições já observadas no Pacífico Equatorial aumentam a confiança num El Niño de grande intensidade em 2026/2027.
Ainda assim, como acontece em previsões climáticas de vários meses, há margem de incerteza. A intensidade final dependerá da evolução das temperaturas da superfície do mar, das condições atmosféricas associadas e da forma como o oceano e a atmosfera continuarem a interagir.
Para já, o cenário apontado pela Meteored é claro: o El Niño 2026/2027 poderá não só figurar entre os mais intensos já observados, como também disputar o lugar de evento mais forte desde o início dos registos.
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