A corrida aos 10 cêntimos pela devolução de embalagens abrangidas pelo sistema Volta está a ter efeitos visíveis em Lisboa. Em vários pontos da cidade, há relatos de pessoas a remexerem papeleiras e contentores à procura de garrafas e latas elegíveis para reembolso, situação que já levantou preocupações de higiene urbana.
O sistema Volta prevê o pagamento de um depósito de 10 cêntimos na compra de determinadas embalagens, valor que pode ser recuperado quando estas são entregues num ponto de recolha. A possibilidade de reembolso está agora a levar algumas pessoas a procurar embalagens no lixo, nas ruas e até em zonas balneares.
“Tem uma embalagem Volta? Deixe-a aqui”
Na Avenida de Roma, em Lisboa, apareceu mesmo um letreiro colocado junto a uma papeleira com um apelo direto aos consumidores. “Tem uma embalagem Volta? Deixe-a aqui. Não na papeleira. Ajude quem recolhe”, pode ler-se no cartaz, colocado num suporte ao lado do equipamento urbano.
A imagem foi partilhada por um utilizador na rede social Facebook e surge num contexto em que se multiplicam relatos de pessoas a procurar embalagens elegíveis no lixo para depois as entregar nos pontos Volta e receber o respetivo depósito.
A situação não se limita a um caso isolado. Em Campo de Ourique, a junta de freguesia já informou ter contactado as autoridades depois de tomar conhecimento da presença de um indivíduo a remexer contentores de resíduos na freguesia.
“Assim que teve conhecimento da situação, contactou a PSP e deslocou-se para o terreno, acompanhando a ocorrência em articulação com as autoridades”, pode ler-se numa publicação partilhada pela Junta de Freguesia de Campo de Ourique no Facebook.
Câmara de Lisboa admite impacto na higiene urbana
A Câmara Municipal de Lisboa já reconheceu que o sistema de depósito de embalagens tem provocado impactos negativos na higiene urbana da cidade. Sem adiantar números concretos sobre a dimensão do fenómeno, a autarquia referiu que há casos em que contentores e papeleiras são remexidos ou mesmo despejados na via pública por pessoas que procuram embalagens abrangidas pelo sistema Volta.
O objetivo destas pessoas é recolher embalagens elegíveis e obter o reembolso de 10 cêntimos por unidade. Embora o valor seja reduzido, a quantidade de embalagens acumuladas pode representar uma pequena fonte de rendimento para quem se dedica a esta recolha informal.
Nas redes sociais, também têm surgido relatos de pessoas que recolhem garrafas e latas em diferentes pontos da cidade e até em praias portuguesas. O fenómeno mostra como a introdução de um valor associado à embalagem está a alterar comportamentos, incluindo fora dos canais formais de devolução.
SDR fala em “problemas pontuais”
A SDR Portugal, entidade responsável pela gestão do sistema Volta, admite que podem existir “problemas pontuais”, mas defende que estes devem ser resolvidos com rapidez e sem tirar conclusões definitivas sobre uma política pública que começou há pouco tempo.
A empresa diz estar disponível para trabalhar com municípios, autoridades e operadores económicos no reforço da rede e na adaptação das soluções de recolha. A SDR reconhece que são necessárias respostas eficazes, sobretudo nos locais onde a procura por embalagens esteja a criar problemas de higiene urbana.
Segundo a entidade, situações semelhantes foram registadas noutros países europeus no arranque de sistemas de depósito e reembolso. A SDR aponta exemplos como Alemanha, Países Baixos, Letónia, Malta e Irlanda, onde os problemas iniciais terão diminuído à medida que a infraestrutura se expandiu e a devolução de embalagens passou a fazer parte da rotina dos cidadãos.
Outros países também tiveram de adaptar soluções
Nos países onde sistemas semelhantes já estão em funcionamento há mais tempo, as respostas variaram consoante a cidade e o tipo de problema identificado. Houve casos em que se apostou em campanhas de sensibilização, noutros em adaptações da infraestrutura urbana e, em algumas situações, em medidas de fiscalização ou videovigilância.
Em Portugal, o sistema Volta ainda está numa fase inicial. A expansão da rede de recolha e a adaptação dos espaços públicos poderão ser decisivas para reduzir os efeitos indesejados, sobretudo em zonas com grande concentração de pessoas e muitos resíduos de consumo imediato.
Para já, a devolução das embalagens continua a permitir recuperar os 10 cêntimos pagos no momento da compra. Mas a forma como esse incentivo está a ser usado nas ruas de Lisboa mostra que a implementação do sistema também traz novos desafios para autarquias, operadores e consumidores.
Leia também: Pode perder os 10 cêntimos das embalagens? Há regras para receber o depósito de volta















