Os sinais das doenças da tiroide confundem-se muitas vezes com queixas do dia a dia, como falta de energia, alterações de humor ou desconforto com o frio, e é precisamente por isso que este tema continua a passar despercebido a tanta gente. A tiroide é uma pequena glândula no pescoço, mas influencia o uso de energia pelo organismo e interfere com funções importantes em vários órgãos do corpo.
Em Portugal, o problema está longe de ser raro. A orientação clínica da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM) indica que a disfunção tiroideia pode atingir 7,4% da população adulta e que mais de 5% poderá ter alterações ainda sem diagnóstico; no estudo PORMETS, publicado na biblioteca PubMed, a percentagem de disfunção tiroideia por diagnosticar foi de 72,2%. De acordo com a Médis, é um distúrbio que afeta cerca de 1 milhão de portugueses.
As mulheres continuam a ser o grupo mais afetado, e a American Thyroid Association refere que têm um risco entre cinco e oito vezes superior ao dos homens.
Sinais que podem parecer banais
Cansaço persistente, maior sensibilidade ao frio, obstipação, dores musculares, depressão, alterações menstruais e cabelo mais fino ou fragilizado podem estar associados ao hipotiroidismo. O problema é que estes sintomas surgem de forma lenta e, muitas vezes, são confundidos com envelhecimento, stress ou noites mal dormidas.
As próprias fontes clínicas sublinham que estes sinais, por si só, não provam doença da tiroide, mas justificam atenção quando persistem ou aparecem em conjunto.
Quando a tiroide funciona mal, o organismo abranda ou acelera em vários sistemas ao mesmo tempo, o que pode traduzir-se em sintomas vagos e dispersos, sem um “aviso” óbvio. A leitura isolada de um sintoma raramente chega para suspeitar do problema, mas o conjunto do quadro clínico já pode merecer avaliação.
Hipotiroidismo de um lado, hipertiroidismo do outro
O hipotiroidismo acontece quando a tiroide produz hormonas a menos. Entre as causas, a mais frequente é a doença de Hashimoto, uma doença autoimune em que o sistema imunitário agride a glândula e reduz a sua capacidade de produzir hormona tiroideia. Já no hipertiroidismo, a tiroide produz hormona em excesso e a causa mais comum é a doença de Graves, também de origem autoimune.
No hipertiroidismo, os sinais tendem a ser diferentes: perda de peso sem explicação, palpitações, nervosismo, suores, intolerância ao calor, mãos trémulas, fadiga e alterações do sono. Em pessoas mais velhas, estas manifestações podem até ser confundidas com depressão ou outras doenças, o que volta a atrasar o diagnóstico, de acordo com as fontes anteriormente citadas.
Quem deve estar mais atento
Há grupos em que a suspeita deve ser mais baixa. O risco aumenta nas mulheres, em pessoas com mais de 60 anos, em quem já teve bócio ou outro problema da tiroide, foi operado, fez radioterapia à região do pescoço, tem familiares com doença tiroideia, esteve grávida ou teve um bebé nos últimos meses, ou vive com doenças autoimunes como diabetes tipo 1, artrite reumatoide ou lúpus. A síndrome de Turner também surge entre os fatores de risco descritos em fontes oficiais.
Isto ajuda a perceber porque tantas pessoas passam anos a sentir-se mal sem relacionar as queixas com a tiroide. Em contexto clínico, a recomendação não é fazer rastreio universal a toda a população assintomática, mas sim manter um limiar baixo de suspeita quando há sintomas compatíveis ou fatores de risco reconhecidos.
Diagnóstico faz-se com análises simples
A boa notícia é que a avaliação inicial é simples. As recomendações da SPEDM referem que o diagnóstico é feito através do doseamento de TSH e T4 livre, e é explicado que os médicos começam, regra geral, por análises ao sangue e podem acrescentar outros testes conforme os resultados. Quando há suspeita de causa autoimune, a pesquisa de anticorpos da tiroide ajuda a esclarecer o quadro.
Gravidez, iodo e nódulos: dois pontos que não devem ser ignorados
Na gravidez e na amamentação, a Direção-Geral da Saúde recomenda suplementação diária de iodo, sob a forma de iodeto de potássio, entre 150 e 200 microgramas por dia, desde a fase de preconceção até ao aleitamento materno exclusivo, sempre com decisão médica ajustada a cada caso.
A mesma orientação lembra que uma ingestão adequada de iodo é necessária para a maturação do sistema nervoso central do feto e que a carência pode comprometer o desenvolvimento cognitivo e comportamental da criança.
Probabilidade de cancro
Quanto aos nódulos da tiroide, a maioria não é cancro. A SPEDM estima que apenas cerca de 5% das pessoas com um ou mais nódulos tenham um tumor maligno.
Ainda assim, o tema não deve ser desvalorizado, de acordo com os especialistas: segundo a fonte estatística internacional sobre cancro GLOBOCAN 2022, da IARC, o cancro da tiroide foi o quarto cancro mais frequente nas mulheres em Portugal, com 1.794 novos casos femininos nesse ano, um padrão também destacado no perfil oncológico da OCDE para Portugal.
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