Portugal tem reservas físicas de gasóleo para cerca de um mês, numa altura em que se multiplicam os avisos sobre riscos de escassez de combustíveis se a guerra no Médio Oriente continuar. A situação está a preocupar sobretudo no gasóleo e no combustível para aviões, dois produtos em que a Europa continua fortemente dependente de fornecedores ligados ao Golfo Pérsico.
De acordo com o Jornal Económico, o alerta surge num momento em que o foco deixou de estar apenas no preço do petróleo e passou a centrar-se na disponibilidade efetiva dos combustíveis refinados. A pressão no mercado internacional está a expor fragilidades antigas da Europa, nomeadamente a perda de capacidade de refinação e a maior dependência externa.
No caso português, os dados apontam para reservas físicas de gasóleo abaixo das 300 mil toneladas no final de 2025. Tendo em conta o consumo médio mensal registado em 2024 e 2025, isso corresponde a menos de um mês de cobertura.
Gasóleo dá sinais de maior vulnerabilidade
Apesar de Portugal não comprar diretamente grandes quantidades de gasóleo ao Golfo Pérsico, o problema pode surgir por outra via. Se começarem a faltar produtos noutros mercados, a pressão sobre a oferta disponível poderá afetar também o abastecimento nacional.
Em 2024, a quase totalidade do gasóleo importado por Portugal veio de Espanha, responsável por 85% das importações, seguindo-se os Países Baixos com 14%.
Ainda assim, as importações representam apenas uma parte do total consumido no país. Cerca de 75% do gasóleo usado em Portugal é produzido internamente na refinaria de Sines, da Galp, restando 25% dependentes do exterior.
Europa perdeu capacidade e ficou mais exposta
O problema não é apenas português. Segundo o BNP Paribas, os stocks europeus de diesel asseguram apenas uma solução temporária, equivalendo a cerca de 71 dias de consumo.
No caso do combustível para aviões, a margem é ainda mais curta, com reservas equivalentes a cerca de 50 dias de consumo na Europa.
O banco francês sublinha que a redução da capacidade de refinação europeia ao longo das últimas décadas agravou a vulnerabilidade do continente, que hoje depende mais de importações vindas da Ásia e do Médio Oriente, sobretudo no diesel e no jet fuel.
Combustível para aviões está sob maior pressão
No caso português, a dependência externa é especialmente sensível no combustível para aviões. Mais de 60% das importações deste produto têm origem no Golfo Pérsico.
Os preços do jet fuel mais do que duplicaram desde o início da guerra no Médio Oriente, após o Irão ter fechado o Estreito de Ormuz, uma das principais rotas energéticas do mundo.
Portugal compra no exterior cerca de 25% do combustível para aviões que consome, sendo os restantes 75% assegurados pela refinaria nacional de Sines.
Em 2024, o Kuwait foi o maior fornecedor estrangeiro de jet fuel a Portugal, com 241 mil toneladas. Seguiram-se a Coreia do Sul, com 112 mil toneladas, a China, com 62 mil, e a Arábia Saudita, com 47 mil toneladas.
Escassez pode surgir já em maio
Segundo a análise citada, até agora ainda não foram registados constrangimentos físicos generalizados no abastecimento na Europa. No entanto, o mercado deverá continuar sob pressão nas próximas semanas.
No setor da aviação, já existe a indicação de que a visibilidade sobre a disponibilidade de combustível vai pouco além de um horizonte de cinco a seis semanas.
A Ryanair já alertou para o risco de escassez de combustível para aviões. Se a guerra terminar ainda este mês e o Estreito de Ormuz reabrir, o risco de rutura poderá ser evitado. Caso contrário, a falta de combustível poderá começar a sentir-se em maio.
Pressão já não é só no preço
O cenário atual mostra que a principal ameaça deixou de ser apenas a subida de preços. A questão central passa agora pela capacidade de garantir produto disponível num mercado sujeito a forte instabilidade geopolítica.
Para Portugal, o facto de dispor de produção interna relevante atenua parte do risco, mas não elimina a exposição ao mercado externo, sobretudo no caso do combustível de aviação.
Num contexto em que a Europa enfrenta as consequências de anos de perda industrial e maior dependência energética, a guerra no Médio Oriente está a mostrar como uma crise regional pode rapidamente transformar-se numa ameaça concreta ao abastecimento diário de combustíveis.
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