Um pescador contratado para recolher amostras de amêijoa no estuário do Tejo terá enganado durante anos o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), entregando bivalves de origem diferente da indicada. A atuação está agora no centro de um processo judicial e, segundo a investigação, poderá estar ligada ao internamento hospitalar de 348 pessoas em vários países europeus após o consumo de amêijoas contaminadas.
De acordo com o Jornal de Notícias, o pescador de Alcochete, de 63 anos, foi contratado entre 2022 e 2025 para recolher amostras de amêijoa-japonesa numa zona do estuário do Tejo localizada a jusante da Ponte Vasco da Gama. Estas amostras eram utilizadas para análises microbiológicas que determinavam se a apanha de bivalves naquela área podia ou não ser autorizada.
Segundo a mesma publicação, o homem não terá cumprido o procedimento acordado. Em vez de recolher as amêijoas no local indicado, entregava exemplares provenientes de outras zonas, comprometendo a fiabilidade das análises laboratoriais utilizadas para avaliar a qualidade da água.
Amostras recolhidas fora do local indicado
A investigação conduzida pela Polícia Marítima concluiu que o pescador forneceu várias vezes amêijoas de origem diferente da que declarava. Segundo relata o Jornal de Notícias, o Ministério Público solicitou a vigilância do pescador nos dias em que este realizava o serviço para perceber como eram recolhidas as amostras.
Durante o processo, tudo aparentava cumprir as exigências definidas pelo IPMA. O pescador informava a entidade sobre a hora da recolha, a temperatura da água e a profundidade no momento da suposta captura.
No entanto, essas informações acabaram por revelar-se falsas. As autoridades concluíram que os dados enviados não correspondiam à realidade das recolhas efetuadas.
Análises revelaram contaminação
A suspeita ganhou força quando o Ministério Público tentou perceber por que razão a apanha de amêijoa era proibida a montante da Ponte Vasco da Gama, mas autorizada na zona situada a jusante.
Segundo explica o Jornal de Notícias, a Polícia Marítima recolheu então novas amostras diretamente no estuário e enviou-as para análise no Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge.
Os resultados foram claros. As análises indicaram níveis de contaminação que tornavam os bivalves impróprios para consumo.
Segundo a mesma fonte, os técnicos concluíram que se tratava de géneros alimentícios não seguros e prejudiciais para a saúde pública.
Consumo associado a centenas de internamentos
De acordo com o Ministério Público, o consumo de amêijoas contaminadas provenientes do estuário do Tejo terá provocado o internamento hospitalar de 348 pessoas. Os casos foram registados não apenas em Portugal, mas também na Alemanha, Suécia, Irlanda e Grécia.
As análises identificaram a presença de bactérias como Salmonella e Escherichia coli nos bivalves. Estes microrganismos podem provocar infeções gastrointestinais e, em situações mais graves, exigir tratamento hospitalar.
Segundo o Jornal de Notícias, o pescador foi acusado de um crime continuado de falsificação de documentos. O Ministério Público considera que a atuação impediu que fosse feita uma avaliação correta da qualidade da água no estuário do Tejo.
Negócio paralelo de exportação
O processo revelou também que o pescador era responsável pela empresa Tagus Plus, Unipessoal Lda, que se dedicava à exportação de amêijoa para Espanha. De acordo com o Jornal de Notícias, existia ainda uma rede composta por sete homens do Montijo que participava no transporte dos bivalves para o país vizinho.
Segundo a investigação, as amêijoas eram compradas a apanhadores na zona do Samouco e armazenadas antes de serem enviadas para Espanha. Nos documentos de transporte, os mariscos surgiam identificados como sendo provenientes do estuário do Sado.
A informação, no entanto, era falsa. Uma vez em Espanha, os bivalves eram colocados no mercado como produto comercializável.
Negócio terá gerado lucros elevados
As autoridades acreditam que o esquema terá gerado lucros significativos. Segundo a mesma publicação, uma das empresas envolvidas no circuito de exportação terá obtido receitas superiores a meio milhão de euros com este negócio.
O caso surge também num contexto em que as autoridades têm reforçado o controlo sobre a apanha de amêijoa no estuário do Tejo.
Em janeiro, recorda o Jornal de Notícias, as licenças de mariscadores naquela zona foram canceladas pela Direção-Geral de Recursos Marítimos. A decisão foi tomada depois de a amêijoa-japonesa ser classificada como espécie invasora. O processo judicial continua agora a decorrer, com vários arguidos envolvidos na investigação relacionada com a falsificação de documentos e o comércio irregular de bivalves.
Leia também: Despiste de carro seguido de queda em ravina faz dois mortos no IC1 em Ourique
















