Há exatamente 100 anos, a ilha do Faial foi atingida por um dos sismos mais destrutivos da sua história. O abalo de 31 de agosto de 1926 provocou nove mortos, mais de 200 feridos e danos em 4.138 habitações, deixando marcas na paisagem urbana e no património da ilha que ainda hoje são recordadas.
O terramoto ocorreu às 8:42 h locais e teve epicentro no canal entre o Faial e o Pico. A magnitude é estimada entre 5,3 e 5,9 na escala de Richter e a intensidade máxima chegou ao grau X da escala de Mercalli. O episódio não surgiu de forma isolada, já que desde abril desse ano se registava uma crise sísmica na região.
Um século depois, a memória continua presente
De acordo com a agencia de notícias Lusa, a dimensão da destruição atingiu sobretudo várias freguesias do Faial, entre as quais Conceição, Flamengos, Ribeirinha e Praia do Almoxarife. Rita Dias, técnica superior do Museu da Horta, recorda que o primeiro evento sísmico, registado a 5 de abril, já tinha provocado danos significativos antes do grande terramoto de agosto.
O património religioso também não escapou ao abalo. O Convento e a Igreja do Carmo ficaram fortemente danificados, enquanto o Convento de Santo António e a Igreja da Conceição acabaram por ruir. O Colégio dos Jesuítas, onde atualmente está instalado o Museu da Horta, também sofreu danos, refere a mesma fonte.
Reconstrução marcou a ilha
A destruição atingiu uma população de cerca de 20.000 pessoas, numa altura em que a economia rural tinha um peso importante na vida da ilha. Ao mesmo tempo, a Horta tinha uma atividade portuária e tecnológica ligada às companhias de telecomunicações de cabos submarinos e ao movimento de navios no Atlântico.
Segundo a Lusa, os Serviços de Obras Públicas do Distrito da Horta contabilizaram 4.138 casas afetadas e estimaram em cerca de 91 mil contos o montante necessário para a reconstrução. O Governo acabou por assumir parte da resposta, com apoios financeiros destinados às vítimas e à construção de habitações para os desalojados.
Risco sísmico não desapareceu
A história sísmica do Faial não terminou em 1926. A ilha voltou a sofrer sismos com consequências relevantes em 1973 e 1998, além do episódio de 1926. Carlos Lobão, historiador que estudou os principais acontecimentos sísmicos do século XX no Faial, chamou a atenção para o facto de algumas das zonas afetadas terem voltado a registar danos em sismos posteriores.
“Em 1998, em toda aquela zona da ponte dos Flamengos, todas aquelas casas foram destruídas e tinham sido reconstruídas na sequência do sismo de 1973”, afirmou o historiador, citado pela agência noticiosa. A repetição dos danos levou-o a questionar se os processos de reconstrução terão tido o acompanhamento adequado.
Atividade recente é acompanhada
O risco continua a ser monitorizado. De acordo com o Diário de Notícias, em julho deste ano foram sentidos na ilha dois sismos de baixa magnitude num intervalo inferior a meia hora. O primeiro, de magnitude 2,8, teve o epicentro a cerca de 11 quilómetros a norte de Bandeiras, no Pico, e foi sentido na freguesia da Matriz, na Horta.
Minutos depois ocorreu um segundo abalo, de magnitude 2,7, com epicentro na mesma zona. Este foi sentido na freguesia da Ribeirinha. Os dois sismos foram classificados como de fraca intensidade, tendo atingido o grau III na escala de Mercalli Modificada.
Faial assinala os 100 anos
A atividade sísmica recente surge num contexto de vigilância reforçada. Em maio, o Centro de Informação e Vigilância Sismovulcânica dos Açores elevou de V0 para V1 o nível de alerta vulcânico no canal Faial-Pico, devido ao aumento da atividade sísmica de baixa magnitude naquela estrutura geológica, segundo o Diário de Notícias.
O centenário do sismo de 1926 é assinalado esta segunda-feira pelo Museu da Horta com uma ação de sensibilização e um simulacro, em colaboração com os Bombeiros Voluntários do Faial. A iniciativa reúne cerca de uma centena de crianças e pretende transmitir procedimentos sobre como agir perante um sismo. O museu tem também divulgado um acervo fotográfico que documenta a destruição provocada pelo terramoto de há um século.
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