Daniela Pereira deixou a área do Serviço Social para trabalhar na Padaria Regional, em Arcozelo da Serra, e evitar que o negócio construído pelos pais desaparecesse. Aos 39 anos, participa na produção durante a noite e percorre depois vários bairros numa carrinha carregada de pão, bolos e outras especialidades.
De acordo com o portal da rádio Renascença, a mudança aconteceu há mais de um ano, depois de uma intervenção cirúrgica do pai ter exposto a dependência do negócio em relação a poucas pessoas. “Não queria que o negócio dos meus pais morresse”, explica Daniela, que já assumiu a nova identidade profissional: “Chamam-me padeira e eu já me identifico como padeira. Nasci nisto”.
Das horas junto ao forno à volta de distribuição
O trabalho começa muito antes de Daniela ligar o motor da carrinha. A família prepara os produtos durante a noite e a madrugada para que possam ser vendidos na manhã seguinte. A mãe permanece na produção, o pai faz a distribuição em Nespereira e Daniela segue para Gouveia a partir das 9 h, depois de abastecer também um supermercado.
O irmão colabora quando regressa a casa, mas são Daniela e os pais que asseguram regularmente o funcionamento da padaria. A sucessão entre produção e distribuição deixa pouco espaço para rotinas fixas. “Não há horários de jantar nem de almoçar”, admite. Em dias com mais encomendas, uma noite junto ao forno pode ligar-se diretamente à manhã passada na estrada.
Alergia obriga a distribuir tarefas
Apesar de trabalhar numa padaria, Daniela é alérgica à farinha. Por isso, tem de usar máscara e evita as tarefas em que a exposição é mais intensa, nomeadamente parte da confeção do pão. “Tenho de trabalhar de máscara e é sempre um bocadinho complicado”, reconhece.
A padeira dedica-se sobretudo às pizzas, aos bolos de aniversário e à doçaria seca. Também prepara, juntamente com a mãe, os folhados vendidos durante as voltas. Nas caixas transportadas pela carrinha seguem ainda pão de centeio, papos secos, bolos de coco, esquecidos e folares de azeite, todos confecionados durante a noite, alguns num forno a lenha.
Carrinha leva mais do que pão
A distribuição começa a ser anunciada pelo som do motor e por uma buzina prolongada. Contudo, quando sabe que determinado morador pode não ter ouvido, Daniela chama-o pelo nome ou bate-lhe à porta. Entre cada venda, recebe encomendas, pergunta pela saúde dos clientes e fica a conhecer notícias das respetivas famílias.
Segundo a mesma fonte, parte dos fregueses vive sozinha ou tem dificuldade em deslocar-se até estabelecimentos mais afastados. “Sinto que também sou companhia para as pessoas mais isoladas, ligam-me, falam-me da vida delas”, conta. Não existem fichas digitais para registar preferências, uma vez que Daniela recorda quem procura pão mais claro, quem escolhe centeio e quem prefere doces.
Clientes que esperam pela buzina
José Salvador, de 92 anos, é um dos moradores visitados durante o percurso. “Eu não compro pão, compro bolos, para adoçar o bico”, afirma. Daniela apresenta-lhe bolos de coco feitos durante a noite, vendidos por dois euros, e a entrega à porta permite ao cliente evitar uma deslocação que considera distante.
Augusta Carvalho, de 82 anos, costuma comprar folar de azeite, esquecidos, pão de centeio e papos secos. Alda Brito, de 71, também recebe a carrinha no bairro onde sempre viveu, enquanto Aurora Rodrigues, de 80, prefere centeio e folhados. Durante uma das visitas, esta última resume a relação estabelecida com a padeira: “Isto é uma família”.
O Serviço Social aplicado noutro lugar
Daniela esclarece que não abandonou a antiga profissão por motivos económicos. “Não foi por uma questão financeira”, garante. Embora o pai mantenha sentimentos divididos sobre a mudança, a filha encontrou no contacto com os clientes uma ligação às competências adquiridas durante a formação e o trabalho em Serviço Social.
Na estrada, escuta preocupações, identifica situações de isolamento e adapta a abordagem a cada pessoa. O reconhecimento dos clientes é uma das razões que a mantém ligada ao novo ofício, embora aceite também as dificuldades e as opiniões menos favoráveis. “É preciso saber ouvir as críticas e os elogios”, conclui.
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