Com o regresso às aulas, há um objeto que acompanha diariamente milhares de crianças e que merece mais atenção do que pode parecer: a mochila. Entre manuais, cadernos, estojos, computadores, tablets, lancheiras e garrafas de água, o peso transportado todos os dias pode aumentar rapidamente. O problema é que uma criança nem sempre se queixa quando a mochila começa a tornar-se desconfortável. Por isso, os pais devem estar atentos à forma como caminha, coloca a mochila às costas e se comporta enquanto a transporta.
A American Academy of Pediatrics (AAP) identifica vários sinais que podem indicar que a mochila está demasiado pesada ou mal ajustada. Um dos mais evidentes acontece quando a criança começa a inclinar o tronco para a frente para compensar o peso.
Inclinar-se para a frente é um dos sinais de alerta
A postura é uma das primeiras coisas a observar. Se a criança normalmente caminha direita, mas começa a inclinar-se para a frente quando coloca a mochila, a carga pode estar a obrigá-la a alterar a posição do corpo para conseguir manter o equilíbrio. A própria AAP considera que, se a criança precisa de se inclinar para a frente para suportar o peso, a mochila está demasiado pesada.
Outro sinal referido pelos especialistas é a dificuldade em caminhar normalmente. Passos diferentes do habitual, esforço visível para transportar a mochila ou alterações na postura podem justificar uma revisão imediata do que está lá dentro.
Alças a marcarem os ombros também devem chamar a atenção
Os ombros podem dar outro sinal importante. Se as alças ficam demasiado enterradas ou cravadas nos ombros, isso pode indicar que existe excesso de carga ou que a mochila não está corretamente ajustada. As mochilas devem ter duas alças largas, acolchoadas e reguláveis, de forma a distribuir o peso pelos dois ombros. Utilizar apenas uma alça concentra a carga num dos lados e pode provocar maior esforço muscular.
A mochila deve ainda permanecer próxima do corpo e aproximadamente a meio das costas, em vez de ficar demasiado baixa. Um cinto abdominal ou uma faixa peitoral também podem ajudar a manter a mochila junto ao corpo e distribuir melhor o peso.
Quanto deve pesar a mochila de uma criança?
É frequente utilizar-se como referência que a mochila não deve representar mais de 10% a 15% do peso da criança. A American Academy of Pediatrics recomenda atualmente que a mochila não ultrapasse aproximadamente 15% do peso corporal. Assim, uma criança com 30 quilos teria como referência uma mochila até cerca de 4,5 quilos.
Ainda assim, Sadika Kendi, especialista em prevenção de lesões citada pela Pplware através da Associated Press, alerta que não existe uma fórmula que funcione exatamente da mesma maneira para todas as crianças. A idade, a constituição física, a força, o percurso até à escola e o tempo durante o qual a mochila é transportada também devem ser considerados. A recomendação prática passa, por isso, por manter a carga tão leve quanto possível.
Uma mochila pesada provoca problemas permanentes nas costas?
O peso excessivo merece atenção, mas também não deve ser motivo para conclusões alarmistas. Segundo a American Academy of Pediatrics, mochilas utilizadas incorretamente podem contribuir para dores nas costas, pescoço e ombros em crianças e adolescentes. Contudo, não existem evidências de que uma mochila pesada, por si só, provoque escoliose ou problemas permanentes na coluna.
Há, contudo, outro risco. Uma mochila muito pesada pode aumentar as consequências de uma queda, uma vez que acrescenta peso e pode dificultar o equilíbrio da criança. É também por esse motivo que os especialistas defendem uma abordagem preventiva, em vez de esperar pelo aparecimento de dor.
Os objetos mais pesados devem ficar junto às costas
A forma como a mochila é organizada também faz diferença. Livros maiores, computadores e outros objetos pesados devem ser colocados na zona mais próxima das costas da criança. O restante material deve ser distribuído pelos diferentes compartimentos, evitando concentrar todo o peso num único lado.
Os compartimentos não servem apenas para organizar lápis e cadernos. Podem ajudar a distribuir a carga e impedir que objetos pesados se movimentem demasiado enquanto a criança caminha. Também é recomendável rever o conteúdo da mochila regularmente. Folhas antigas, livros de que a criança já não precisa naquele dia, garrafas vazias ou outros objetos acabam frequentemente esquecidos e podem acrescentar peso desnecessário. A AAP recomenda fazer esta limpeza semanalmente e transportar apenas aquilo que será realmente necessário na escola.
Uma mochila maior nem sempre é melhor
Na altura de comprar uma mochila nova, escolher o modelo maior pode parecer uma forma de garantir espaço suficiente para todo o material escolar. Mas os especialistas fazem precisamente o alerta contrário: quanto maior for a mochila, maior é a tendência para a encher. O tamanho deve ser proporcional à altura e ao corpo da criança. Além das duas alças largas e ajustáveis, é aconselhável procurar costas acolchoadas e vários compartimentos. A mochila deve ficar ajustada ao corpo e não pendurada muito abaixo da cintura.
Atenção à forma como a criança pega na mochila
O momento de levantar a mochila do chão também merece atenção. Em vez de dobrar apenas as costas para pegar numa carga pesada, a criança deve dobrar os joelhos e levantar-se utilizando as pernas, reduzindo o esforço exercido sobre as costas. Depois, deve colocar as duas alças nos ombros e ajustá-las para que a mochila fique suficientemente próxima do corpo. Pequenos hábitos como estes podem reduzir o esforço repetido ao longo de centenas de dias de escola.
Criança deve tirar a mochila quando entra no carro
Há ainda um cuidado menos óbvio para os pais que levam os filhos de carro para a escola. A recomendação é que a criança não viaje sentada com a mochila às costas. O volume criado entre as costas e o banco pode interferir com o posicionamento correto do cinto de segurança.
A mochila deve ser retirada antes de colocar o cinto e guardada num local seguro dentro do veículo. Assim, com o início de mais um ano letivo, não é necessário esperar que a criança diga que a mochila lhe está a fazer mal. Inclinar-se para a frente, alterar a forma de caminhar ou apresentar alças demasiado marcadas nos ombros são sinais simples que podem indicar que chegou a altura de retirar algum peso ou ajustar melhor a mochila.
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