Há restaurantes que se tornam, por si só, uma razão para viajar. Para Fortunato da Câmara, Cabanas de Tavira tem um desses lugares: o restaurante de Noélia Jerónimo, onde a cozinha continua a justificar o caminho até ao Sotavento algarvio.
Numa crítica intitulada Havemos de ir a Cabanas reencontrar o génio de Noélia, publicada online a 17 de junho pelo Expresso, o crítico gastronómico alude a Havemos de ir a Viana, canção com versos de Pedro Homem de Mello e música de Alain Oulman, celebrizada por Amália Rodrigues, e adapta-a à experiência que encontrou à mesa.
“Se o meu palato não me engana, havemos de ir a Cabanas!”, escreve, antes de apresentar Noélia Jerónimo como uma “cozinheira fundamental deste século em Portugal”.
O elogio não nasce de uma primeira visita. Na nova crítica, Fortunato da Câmara recorda que acompanha a evolução da casa há mais de uma década e que, 14 anos antes, dera a um dos seus textos o título Sabor e Masoquismo. Na altura, considerava que o serviço, o espaço e a carta de vinhos ainda não acompanhavam o talento que já se afirmava em cada prato.
Agora, num almoço de primavera, encontrou uma casa mais equilibrada. Segundo o relato publicado no Expresso, a carta continuava extensa para a dimensão da sala, mas o serviço do meio-dia encheu em poucos minutos e a experiência revelou melhorias para lá da cozinha.
Uma refeição que começa no mar
O almoço abriu com “A minha Sopa de Peixe”, de seis euros, descrita por Fortunato da Câmara como “uma lição de sabor”. O crítico destaca a limpeza do caldo, as lascas de peixe, as ovas de bacalhau e a presença contida das notas picantes e aromáticas.
Seguiram-se as tapas de biqueirão à espanhola, servidas sobre pão regional com salmorejo, numa combinação marcada, segundo a crítica, pela frescura do tomate, pelo azeite e pela cura delicada do peixe.
Nem tudo, contudo, recebeu o mesmo entusiasmo. As ovas de choco foram consideradas menos conseguidas, sobretudo devido à textura e a um molho que o crítico entendeu ser demasiado aguado. Ainda assim, reconheceu-lhes sabor.
A refeição voltou rapidamente aos pontos altos com o crudo de dourada e creme de maracujá. As fatias translúcidas de peixe e a acidez equilibrada do fruto antecederam um dos pratos que Fortunato da Câmara considera já um clássico da casa: as pataniscas de polvo com migas de tomate.
O crítico elogia a fritura, o polvo e a frescura das migas, numa combinação que, nas suas palavras, começava já a “chamar o verão”.
Arrozes que levam a cozinha a outro nível
Entre os pratos principais, o robalo grelhado com arroz de favas mereceu particular destaque. Fortunato da Câmara sublinha a qualidade do peixe, preparado num forno de brasas, e do arroz carolino enriquecido pelas favas tenras e pela hortelã.
O resultado impressionou-o ao ponto de escrever que Eça de Queiroz lhe dedicaria “uma nova página”.
Também o arroz de forno com Black Angus confirmou, na avaliação do crítico, um dos grandes talentos de Noélia Jerónimo. O prato juntava arroz tostado, legumes, notas de açafrão e carne grelhada, servida rosada e sumarenta.
Para Fortunato da Câmara, aquela visita revelou ainda progressos numa área que durante anos considerou uma fragilidade da casa. O serviço decorreu com disponibilidade e empatia, enquanto a carta de vinhos apresentou, segundo o crítico, maior critério, variedade e preços abrangentes.
A pastelaria abre um novo capítulo
As sobremesas surgem na crítica como outro sinal da evolução do restaurante. O bolo de figo seco com laranja, amêndoa do Algarve e gila foi descrito como húmido, rico e desconcertante, acompanhado por um creme de laranja que lhe acrescentava frescura.
Seguiram-se a tarte de queijo com doce de ovos e malagueta, a mousse merengada de lima-limão e as farófias da avó. Estas últimas receberam um dos elogios mais expressivos da refeição, pela textura, pelo brilho e pelo equilíbrio do creme de ovos. “Doces de cátedra!”, resume.
Por detrás desta nova dimensão está também Beatriz Jerónimo, filha de Noélia, cuja excelência na pastelaria é destacada por Fortunato da Câmara.
O atual projeto Noélia & Jerónimo completa 20 anos em 2027. A história da casa, porém, remonta a 1985, quando funcionava como pastelaria e pizzaria, tendo Noélia Jerónimo iniciado em 2007 a transformação no restaurante hoje conhecido. Fortunato da Câmara considera que o espaço começa já a ser pequeno para a criatividade e o potencial da cozinheira algarvia.
“Noélia é clareza de sabor, simplicidade vestida de irreverência, e magnetismo através dos pratos que fazem da ida a Cabanas um momento irrepetível”, escreve, antes de concluir: “É para reservar e tentar tocar o céu!”
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