A aldeia do Pisão, no concelho do Crato, prepara-se para desaparecer de forma definitiva até 2029 devido à construção de uma barragem, estando já em curso o processo de realojamento dos habitantes numa nova povoação construída nas proximidades. O projeto prevê a criação de uma nova aldeia a menos de três quilómetros da atual localização. De acordo com o Correio da Manhã, a nova aldeia do Pisão está a ser desenvolvida de raiz para substituir o núcleo que ficará submerso com a conclusão da barragem com o mesmo nome.
O novo aglomerado urbano será construído numa área de cerca de oito hectares, com uma zona habitacional de aproximadamente 9600 metros quadrados. Está prevista a construção de 114 habitações, com tipologias que vão do T1 ao T4 e áreas entre os 80 e os 150 metros quadrados, de acordo com o plano apresentado pela Comunidade Intermunicipal do Alto Alentejo.
Continuidade com o território original
O desenho urbano da nova aldeia foi pensado para manter uma ligação ao território de origem, incluindo aspetos de orientação solar e organização do espaço. “A nova aldeia terá um enquadramento muito parecido. Houve a preocupação em respeitar, por exemplo, o posicionamento do sol perante a habitação que já existia”, explicou ao Correio da Manhã Joaquim Diogo, presidente da CIMAA.
Para além da configuração das habitações, o projeto procurou manter a lógica social existente na aldeia atual, nomeadamente no que diz respeito às relações de proximidade entre moradores. Houve também a intenção de preservar essas dinâmicas, respeitando a forma como as comunidades se organizavam no espaço original.
Serviços e novos equipamentos
A nova aldeia contará com um conjunto de infraestruturas e serviços destinados a garantir a continuidade da vida comunitária. O projeto inclui espaços multiusos, extensão de saúde, circuitos pedonais, um miradouro e um posto de Multibanco. O plano urbanístico prevê ainda zonas de expansão, permitindo a instalação de novos habitantes no futuro, para além dos atuais residentes realojados. Esta opção visa garantir que a nova aldeia possa evoluir demograficamente ao longo do tempo.
Apesar da transferência dos habitantes, o projeto contempla elementos de ligação simbólica à aldeia submersa, incluindo um espaço dedicado à memória coletiva. Está ainda prevista a preservação de alguns elementos da antiga aldeia, como a capela, permitindo manter referências ao passado do território.
Uma exceção no património submerso
A ausência de cemitério e de monumentos na aldeia do Pisão facilita o processo de relocalização e de construção da nova comunidade. Segundo Joaquim Diogo, esta particularidade simplifica a execução do projeto, reduzindo a complexidade da transferência patrimonial. A submersão da aldeia do Pisão não é um caso isolado no contexto nacional, existindo outros exemplos de localidades afetadas por barragens ao longo das últimas décadas. Eeste será apenas o segundo caso neste século em que uma aldeia portuguesa ficará submersa, após a situação registada na Luz, em 2002.
A construção da barragem do Alqueva levou ao desaparecimento da aldeia da Luz, no Alentejo, num processo de realojamento que marcou a região. Conforme o Correio da Manhã, esse episódio é frequentemente citado como referência quando se abordam casos de deslocação de comunidades devido a infraestruturas hidráulicas.
Outros casos históricos
Ao longo do século XX, outras localidades em Portugal foram igualmente afetadas pela construção de barragens, levando à submersão de património e habitações. Entre os exemplos encontram-se Vilarinho das Furnas, em 1971, e Vilar, em 1954, cujos antigos núcleos ainda são visíveis em períodos de seca severa.
Mais tarde, a construção da barragem da Aguieira, em 1981, originou a submersão de três localidades, alterando de forma significativa a geografia habitacional da região.
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