Com o avanço das grandes infraestruturas de mobilidade na capital portuguesa, vêm ao de cima memórias dolorosas que provocam sofrimento a dezenas de pessoas. O drama das famílias que vão ver os seus lares destruídos pelo Metro de Lisboa ganha contornos de enorme desespero emocional e de uma profunda angústia financeira.
O foco de toda esta tragédia habitacional encontra-se num velho prédio outrora municipal localizado na zona ribeirinha de Alcântara que será alvo de demolição total. A revelação das histórias dramáticas é feita pelo Jornal SOL, que cita moradores, como Fátima Lopes, uma moradora de 73 anos, que resumiu a dor extrema de ter de abandonar a sua casa ao desabafar: “aqui tive o meu filho e aqui o vi morrer”.
Indica a mesma fonte que a idosa vive naquele espaço exato há 46 anos e carrega a memória da perda trágica do filho num desastre automóvel há 27 anos. O imóvel foi formalmente entregue à empresa pública de transportes no passado dia 19 de fevereiro para permitir o avanço das obras subterrâneas planeadas. Esta passagem de posse administrativa rasgou todos os contratos de arrendamento que mantinham os residentes protegidos sob a tutela da autarquia lisboeta ao longo de décadas.
As memórias apagadas e as propostas recusadas
As pessoas afetadas por este processo de expropriação forçada sentem que as suas vidas estão a ser apagadas sem qualquer tipo de empatia por parte das instituições estatais. Júlia Baptista partilhou a sua enorme tristeza ao recordar que tem quatro gerações da sua família ligadas àquele mesmo edifício onde o seu pai e os seus filhos nasceram. A moradora de 66 anos lamenta o silêncio mantido pela câmara municipal durante todo o processo de venda da propriedade à entidade de transportes subterrâneos.
A revolta subiu de tom quando os residentes receberam as propostas formais de indemnização para abandonarem as respetivas frações de forma pacífica e definitiva. Explica a referida fonte que a oferta financeira a rondar os 100 mil euros por agregado familiar foi considerada inaceitável face à dura realidade do mercado imobiliário. Os moradores questionam a utilidade deste montante na atual conjuntura, lembrando que a sua idade avançada já não lhes permite contrair qualquer crédito para comprar nova habitação.
O fim do comércio local e as rendas impossíveis
O impacto demolidor desta intervenção urbanística atinge igualmente o pequeno comércio estabelecido no piso inferior do edifício e que serve a comunidade há largas dezenas de anos. Gabriela Martins explora um café no local há 40 anos e perspetiva um cenário negro de encerramento forçado da sua única fonte de rendimento financeiro. A proprietária assegura que a verba compensatória apresentada não chega para montar um negócio semelhante noutra zona da cidade e lamenta as despesas acrescidas com honorários de advogados.
A alternativa do realojamento através de novas habitações geridas pela empresa de transportes gera um clima de enorme suspeição e medo entre as oito famílias com maiores carências. Os inquilinos temem que os valores exigidos inicialmente sofram aumentos drásticos e passem a acompanhar a especulação do mercado livre após um breve período de carência. A exigência principal dos moradores assenta na garantia escrita da manutenção de contratos com renovação automática idênticos aos que detinham com o município de Lisboa.
Uma nova infraestrutura para servir a cidade
A eliminação física deste quarteirão habitacional é uma peça fundamental para permitir a construção do novo interface de mobilidade urbana projetado para aquela zona da frente ribeirinha. O local será alvo de uma remodelação profunda que inclui a elevação da praça para impedir cheias e o reordenamento paisagístico de todo o espaço público circundante. O terreno exato onde as famílias residem atualmente dará lugar a um parque rodoviário para autocarros com ligação pedonal direta à estação de comboios existente.
A futura paragem de comboios subterrâneos ficará instalada nas imediações dos acessos à ponte suspensa sobre o rio Tejo e será desenvolvida em três pisos de profundidade distintos. O nível superior servirá de cais de embarque para o prolongamento da linha vermelha que fará a viagem ininterrupta até ao aeroporto internacional de Lisboa. O andar inferior ficará totalmente reservado para receber o futuro canal de transporte ferroviário ligeiro que fará a ligação de superfície ao concelho vizinho de Oeiras.
O jogo de empurra e o medo de ir para a rua
A angústia destas dezenas de pessoas agrava-se com a sensação de abandono institucional por parte dos responsáveis políticos que tutelam as entidades envolvidas no complexo processo de demolição. As famílias recusam categoricamente a possibilidade de serem enviadas para habitações situadas fora do perímetro da capital portuguesa e longe das suas atuais raízes comunitárias. Os residentes afetados sugerem a utilização imediata de casas camarárias que se encontram atualmente devolutas em bairros muito próximos para resolver este impasse social com humanidade.
Explica ainda o Jornal SOL que as reuniões de emergência mantidas com os serviços camarários não resultaram em garantias concretas ou na apresentação de soluções habitacionais imediatas. O presidente da autarquia esquivou-se a responsabilidades diretas perante o drama, lembrando publicamente que a tutela máxima do projeto de expansão pertence à empresa estatal e não ao executivo municipal. Os moradores enfrentam um quadro de incerteza asfixiante e temem de forma muito séria vir a engrossar as estatísticas da população sem abrigo nas ruas da cidade.
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