Com a subida das temperaturas e o regresso dos mosquitos, volta também uma das ideias mais repetidas todos os anos: a de que algumas pessoas são mais picadas por terem “sangue doce”. Uma investigação recente aponta noutro sentido e sugere que a escolha das vítimas começa muito antes da picada, com sinais visuais e químicos que os insetos detetam no ambiente.
Um estudo publicado em março na revista Science Advances, conduzido por investigadores do MIT e do Georgia Institute of Technology, criou um modelo tridimensional para prever a forma como os mosquitos voam quando procuram um alvo humano. O trabalho centrou-se em fêmeas da espécie Aedes aegypti e foi desenvolvido com base em experiências controladas e em dezenas de milhões de registos sobre as suas trajetórias de voo.
O que atrai afinal os mosquitos?
A principal conclusão do estudo é que os mosquitos não escolhem as pessoas por alguma característica do sangue que só descobririam depois de picar. Segundo os investigadores, o que orienta a aproximação é a combinação entre pistas visuais, como o contraste de um alvo escuro, e pistas químicas, como o dióxido de carbono libertado pela respiração. Além disso, os insetos não parecem seguir-se uns aos outros: reagem de forma individual aos mesmos estímulos e acabam por convergir no mesmo ponto.
O modelo identificou três padrões principais. Quando existe apenas um alvo visual, os mosquitos fazem uma passagem rápida e afastam-se se não encontrarem mais sinais. Quando detetam dióxido de carbono, mas sem um alvo visual claro, abrandam e permanecem na zona à procura da origem. Já quando os dois sinais aparecem em simultâneo, adotam um voo de órbita à volta do alvo, mantendo-se próximos e preparando a aterragem.
Nos ensaios com um voluntário humano, os investigadores testaram também o efeito da cor da roupa. O participante entrou numa câmara de observação com vestuário de cores diferentes, incluindo combinações de preto e branco, enquanto câmaras infravermelhas registavam os movimentos dos insetos.
Os resultados, citados pela mesma fonte, mostraram uma concentração muito superior das trajetórias junto das zonas escuras, reforçando a ideia de que o contraste visual ajuda a transformar uma pessoa num alvo mais apelativo.
Roupa pode pesar mais do que o mito
O estudo não diz que basta trocar de camisola para deixar de ser picado, mas mostra que a roupa escura pode aumentar a atração visual, sobretudo quando é acompanhada pela libertação de dióxido de carbono. No caso observado pelos investigadores, os maiores ajuntamentos formaram-se em redor da cabeça e dos ombros, zonas associadas à respiração e onde esta espécie costuma concentrar a aproximação.
Isto ajuda a perceber porque é que duas pessoas no mesmo local podem não ser abordadas da mesma forma. A diferença não estará, pelo menos à partida, num suposto “sangue doce”, mas antes na forma como cada corpo se torna mais ou menos visível e detetável para o mosquito, através da respiração e do contraste criado pela roupa.
O que este trabalho permite concluir
Os próprios investigadores sublinham que o modelo poderá ser alargado a outros fatores, como calor, humidade e odores, para melhorar armadilhas e estratégias de controlo. Ou seja, a cor da roupa e o dióxido de carbono não explicam sozinhos todo o comportamento destes insetos, mas surgem neste estudo como dois dos sinais mais importantes para a fase inicial de aproximação ao ser humano.
Há também uma nota importante: o trabalho incide sobre Aedes aegypti, uma espécie associada à transmissão de doenças como dengue, febre amarela e zika, e não permite concluir automaticamente que todos os mosquitos se comportam de forma idêntica.
Ainda assim, a investigação publicada na Science Advances oferece uma explicação mais sólida e quantitativa para um fenómeno do quotidiano que há muito era explicado com base em mitos.
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