Todos procuram um rendimento líquido superior no final do mês, mas os métodos utilizados por várias empresas escondem uma dura realidade no mundo laboral. Milhares de trabalhadores aceitam esquemas alternativos para aumentar os seus salários limpos, contornando o pagamento de impostos devidos ao Estado. A prática de receber por fora tornou se uma epidemia silenciosa que prejudica gravemente o futuro financeiro de quem alinha nesta estratégia.
O método envolve o pagamento de parte da remuneração em dinheiro vivo ou através de falsas ajudas de custo e quilómetros não realizados. A investigação é avançada pelo jornal Expresso, que expôs a dimensão alarmante da economia paralela nacional. Uma fatia substancial da classe trabalhadora está registada com o ordenado mínimo, mas leva para casa valores muito superiores que escapam aos radares da Autoridade Tributária.
Os relatos recolhidos demonstram que esta fuga à tributação abrange vários setores de atividade e diferentes níveis de instrução escolar. Existem instrutores desportivos a faturar quase três mil euros líquidos mensais, onde dois terços do valor escapam a qualquer registo oficial. O mesmo cenário repete se em áreas altamente qualificadas como as tecnologias de informação ou em setores tradicionais como a restauração.
A fatura pesada da informalidade
O dinheiro extra na carteira no final do mês cria uma falsa sensação de segurança financeira durante os primeiros anos de juventude. Indica a mesma fonte que o cenário inverte se de forma dramática quando ocorrem situações de doença longa ou necessidade de assistência à família. Os apoios estatais, como o subsídio parental ou o fundo de desemprego, são calculados apenas sobre o valor oficial declarado contratualmente.
As consequências tornam se ainda mais severas quando chega o momento da passagem à idade da reforma, após uma vida inteira de labor. As pensões finais ficam drasticamente abaixo das expectativas de vida de quem nunca cotizou sobre a totalidade dos rendimentos recebidos na empresa. O país inteiro sai lesado porque quem cumpre a lei na totalidade acaba a compensar a fuga milionária de quem contorna a tributação correta.
A vista grossa das autoridades
Apesar de estarem generalizadas e serem de conhecimento público, estas táticas persistem de forma reiterada com a conivência passiva de várias partes. Existe uma forte crítica à falta de proatividade e aos métodos de escrutínio desatualizados aplicados pela Autoridade Tributária no terreno de fiscalização. A denúncia aponta para uma falha grave do Estado em ir buscar as receitas milionárias perdidas de forma constante no mercado não oficial.
A deteção de irregularidades depende quase exclusivamente do envio de inspetores para o terreno, profissionais que escasseiam nas atuais fileiras públicas. Explica a referida fonte que não existem alertas informáticos automáticos que comparem de imediato o peso excessivo das ajudas de custo face à remuneração total. Este défice de recursos e de sistemas informáticos avançados permite a manutenção duradoura deste sistema viciado e imune a sanções legais ou coimas.
Concorrência desleal e injustiça
O problema ultrapassa largamente a relação individual entre cada empregador e funcionário, provocando distorções profundas na estatística económica e na concorrência empresarial. Uma fatia considerável do Produto Interno Bruto escapa a qualquer tipo de registo ou contabilização oficial e transparente nos números do país. Os negócios cumpridores das suas obrigações enfrentam uma desvantagem imediata perante concorrentes que recorrem a esta engenharia ilegal nos pagamentos mensais. “Anda uma parte do país a pagar os impostos que outros não pagam, a AT é responsável por esta injustiça social”, refere Gonçalo Rodrigues, Presidente do Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos.
A Segurança Social confirma que este é um problema geral e muito longe de estar confinado aos simples colaboradores das bases empresariais. A prática abrange também membros de órgãos de gestão, diretores e administradores que recebem remunerações chorudas dissimuladas sob a forma de gastos operacionais da organização. As pequenas e médias empresas e as organizações de grande dimensão recorrem exatamente às mesmas ferramentas para fugir ao pagamento dos devidos encargos estatais.
As propostas para o fim do esquema
O combate ao pagamento de ordenados por vias não oficiais exige uma reforma urgente da partilha de informações entre as finanças públicas e a Segurança Social. As instituições necessitam de aproximar as suas bases contributivas e estabelecer uma declaração mensal única sobre todos os rendimentos financeiros do cidadão. Uma articulação eficaz permitiria o cruzamento automático de dados e reduziria drasticamente a margem para manobras dilatórias e esquemas ilícitos nas empresas.
Outra proposta passa por obrigar as firmas a enviarem a sua faturação contabilística completa e detalhada de forma eletrónica e direta ao Estado. O sistema judicial necessita também de ser mais rigoroso nas provas exigidas em casos onde são inventados milhares de quilómetros diários para encobrir remunerações. Explica ainda o Expresso que um alívio na elevada carga fiscal global poderia atuar como o principal incentivo ao regresso da economia não declarada à esfera legal.
Leia também: Atenção no Multibanco: autoridades avisam para truque que pode ‘esvaziar a conta’
















