A procura por alternativas aos combustíveis fósseis está a ganhar força no setor da aviação, numa altura em que as tensões internacionais continuam a afetar os preços e o abastecimento de energia. Em Portugal, está em preparação um investimento de centenas de milhões de euros ligado à produção de combustível sustentável para aviões, num projeto que poderá alterar o posicionamento do país nesta área industrial.
De acordo com o jornal Expresso, a empresa francesa Elyse Energy avançou com os primeiros passos formais para instalar uma unidade de produção de SAF, combustível sustentável para aviação, na Figueira da Foz. O investimento estimado ronda os 800 milhões de euros e o processo encontra-se atualmente na fase preliminar de licenciamento ambiental.
Projeto pensado para exportar combustível verde
A futura unidade industrial ficará instalada na freguesia de Marinha das Ondas, numa área próxima do complexo industrial da Navigator. Segundo a mesma fonte, o terreno ocupará cerca de 31,8 hectares e terá capacidade para produzir 200.000 toneladas anuais de combustíveis sustentáveis destinados sobretudo à exportação.
A proposta apresentada à Agência Portuguesa do Ambiente integra uma “proposta de definição de âmbito”, etapa que antecede o estudo de impacte ambiental e que serve para recolher contributos técnicos antes da avaliação definitiva, escreve o jornal.
Crise energética acelerou procura por alternativas
O projeto surge numa altura em que o setor da aviação enfrenta pressão devido às dificuldades de abastecimento e ao aumento dos custos do jet fuel. Conforme a mesma fonte, a crise no estreito de Ormuz tornou 2026 particularmente desafiante para as companhias aéreas.
A possibilidade de produzir combustível sustentável em território europeu passou, por isso, a ser vista como uma forma de reduzir dependências externas e aumentar a capacidade de resposta da indústria da aviação.
França aposta em Portugal para crescer
A Elyse Energy foi criada em 2020 e abriu uma subsidiária em Portugal em 2023. De acordo com o Expresso, a empresa tem como principais acionistas a Falkor e a Vol-V, ambas ligadas ao setor das energias renováveis e do biometano em França.
Entre os parceiros financeiros da empresa encontra-se também a gestora francesa Mirova, acrescenta a publicação.
Projeto quer acelerar licenciamento
Nos últimos meses, os investidores reuniram-se com várias entidades portuguesas, incluindo a Câmara Municipal da Figueira da Foz, a CCDR Centro, ministérios do Governo e a AICEP. Sabe-se que o objetivo foi antecipar eventuais condicionantes ambientais antes da entrega do estudo de impacte ambiental.
A empresa pretende ainda obter o estatuto de PIN, Potencial Interesse Nacional, mecanismo que permite acelerar o acompanhamento administrativo e o licenciamento por parte do Estado.
Produção vai usar resíduos florestais
O combustível será produzido através de um processo conhecido como “methanol to jet”. A primeira fase consiste na produção de metanol através da gaseificação de biomassa florestal e da incorporação de hidrogénio verde produzido por eletrólise da água. Numa segunda etapa, esse metanol será transformado em combustível adequado para utilização em aviões comerciais, refere a mesma fonte.
A Elyse Energy prevê utilizar cerca de 100.000 toneladas anuais de biomassa proveniente da limpeza e gestão florestal. Conforme a mesma fonte, o projeto admite também recorrer a subprodutos da indústria de serração. A unidade industrial deverá funcionar 24 horas por dia, em três turnos, e criar 100 empregos permanentes, dos quais 80 serão locais. A construção deverá prolongar-se durante dois anos e envolver aproximadamente 200 trabalhadores.
Plano antigo falhou no mesmo local
Antes deste projeto, a Navigator tinha anunciado uma parceria com a alemã P2X Europe para produzir combustível sustentável na mesma região. Esse investimento previa arrancar em 2026, mas acabou por ser travado devido ao adiamento das metas europeias para incorporação obrigatória de combustíveis sintéticos na aviação. Bruxelas definiu como objetivo que 6% do combustível utilizado na aviação europeia seja sustentável até 2030. A meta para 2050 sobe para 70%, incluindo uma forte componente de combustíveis sintéticos.
Apesar das dúvidas sobre a viabilidade económica destes combustíveis, devido aos custos superiores face aos combustíveis fósseis, a Elyse Energy decidiu manter a aposta em Portugal. O projeto poderá transformar a Figueira da Foz num dos pontos de referência da produção de SAF no sul da Europa. A consulta pública da proposta preliminar termina a 1 de junho, numa fase considerada decisiva para o avanço do projeto industrial.
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