A aplicação de testes controversos neste país da União Europeia (UE) tem levantado preocupações sobre discriminação cultural e direitos parentais. Vários casos recentes demonstram os efeitos profundos destas avaliações na vida familiar, com decisões que têm levado à separação de mãe e bebé logo após o parto, com base em critérios contestados por especialistas, advogados e organizações de direitos humanos.
Nascimento sob vigilância institucional
Há alguns meses, uma mãe groenlandesa na Dinamarca recebeu autorização para passar apenas duas horas com o seu bebé antes de ser entregue a famílias de acolhimento, segundo aponta o The Guardian. O parto decorreu com assistência médica, e a progenitora expressou o desejo de segurar o bebé logo após o nascimento e de registar as pegadas.
Nos minutos seguintes, iniciou a amamentação e o contacto físico com o bebé. A aproximação da hora marcada para a entrega intensificou o estado de ansiedade. Após colocar a roupa preparada para a filha, a progenitora entregou a criança à assistente social, mantendo a promessa de lutar pelo seu regresso.
A mãe abandonou o hospital horas depois, recusando permanecer na enfermaria. Em casa, aguardavam-lhe mensagens de felicitações, por parte de pessoas que desconheciam a separação imposta. O berço permaneceu vazio e a visita à filha passou a estar limitada a uma hora semanal.
Testes de competência parental e critérios questionados
Na Dinamarca, mães oriundas da Gronelândia (território autónomo que faz parte do Reino da Dinamarca) têm sido submetidas a testes psicológicos conhecidos como FKU, que pretendem avaliar a capacidade de cuidar de crianças. Estes testes analisam traços de personalidade, capacidade cognitiva e outros aspetos psicológicos, mas têm sido alvo de críticas por não respeitarem diferenças culturais e linguísticas.
Isak Nellemann, psicólogo clínico que já participou nestas avaliações, citado pela mesma fonte, relatou que o “simples facto de se ter origem groenlandesa é, por vezes, suficiente para chamar a atenção dos serviços sociais e as questões feitas nos testes são desadequadas e polémicas”.
O especialista afirmou ainda que existe muita estigmatização das pessoas da Gronelândia e não sabe por que se continua a usar os testes para avaliar competências parentais.
Histórico de separações
A mãe em questão viu os três filhos serem retirados. Em 2014, duas crianças foram colocadas noutras residências, com base em avaliações psicológicas feitas sem tradutor e conduzidas pela mesma psicóloga que viria, anos depois, a fazer novo teste. A mãe tem como língua materna o kalaallisut e não fala fluentemente dinamarquês.
De acordo com a advogada responsável pelo processo, citada pela fonte mencionada anteriormente, “a decisão foi tomada antes do nascimento e a mãe não teve oportunidade de viver em alojamento com apoio do estado, que seria uma alternativa”.
O relatório justificou ainda a separação com base em práticas culturais distintas, indicando que “características faciais específicas têm significado comunicativo na cultura groenlandesa, mas o bebé irá crescer na Dinamarca e precisará aprender a interpretar o contexto social local”.
Mudança legislativa e persistência de práticas
Em maio de 2025, entrou em vigor uma nova lei que proíbe o uso de testes FKU para famílias groenlandesas. No entanto, segundo aponta a mesma fonte, algumas autoridades continuam a apresentar estes testes como prova em processos de proteção de menores.
O Ministério dos Assuntos Sociais e Habitação da Dinamarca declarou que “desde 1 de maio de 2025, os testes psicológicos padronizados deixaram de ser usados como base para decisões de colocação de crianças groenlandesas fora do lar”.
Apesar da nova legislação, há relatos de que decisões judiciais anteriores continuam em vigor, e que os municípios nem sempre consultam a unidade cultural especializada, como exigido. Uma associação que apoia famílias groenlandesas confirmou que pelo menos uma decisão foi revertida, mas alertou para a persistência de interpretações erradas das práticas culturais.
Repercussões emocionais e sociais
A progenitora trabalha numa fábrica de peixe e refere dificuldades em dormir e em manter a alimentação. O regresso ao trabalho, dez semanas após o parto, foi marcado por dores físicas e necessidade de se isolar para chorar.
De acordo com a mesma fonte, a filha mais velha, diagnosticada com esquizofrenia, foi também retirada em idade escolar e refere ter sido vítima de abuso emocional durante o período em instituições. Apesar disso, participa ativamente na luta pelo regresso da irmã mais nova e já organizou protestos públicos com mensagens como “tragam a minha irmã para casa”.
Motivação para denunciar e lutar
Após o parto, a mãe decidiu contar publicamente o que aconteceu. Publicou um vídeo nas redes sociais e, dias depois, recebeu centenas de mensagens de apoio. O caso ganhou visibilidade nacional e internacional, com manifestações em cidades como Copenhaga e Nuuk.
Citada pelo The Guardian, a progenitora afirma: “Se não for agora, nada vai mudar para a minha filha. Não me importa se me julgam. Sei que, se conseguir mudar alguma coisa, mudarei para ela.” A sua história é uma entre muitas, mas poucos pais têm força para expor publicamente as decisões impostas pelos serviços sociais.
A ação judicial segue agora para instância superior, com a esperança da família de que a nova legislação permita reverter a separação e restituir o direito à convivência familiar e à preservação da identidade cultural groenlandesa.
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