Num contexto em que muitos trabalhadores continuam a depender de negócios familiares sem contratos ou garantias claras, um caso divulgado em Espanha está a gerar forte indignação depois de uma mulher de 66 anos descobrir que nunca teve descontos feitos para a Segurança Social, apesar de ter trabalhado durante três décadas na empresa da família.
Segundo o testemunho de Antonia, de 66 anos, ao jornal online Notícias Trabajo, recolhido pela imprensa espanhola, a mulher trabalhou durante 30 anos no negócio familiar sem saber que a situação contributiva não estava regularizada.
A descoberta aconteceu após o despedimento, alegadamente decidido pelo próprio irmão, Pedro, deixando Antonia sem acesso a uma pensão contributiva numa altura em que se encontra a apenas um ano da idade da reforma.
“Vendi tudo para conseguir comer”
A situação financeira agravou-se rapidamente depois de perder o trabalho. Antonia afirma ter sido obrigada a vender bens pessoais para conseguir suportar despesas básicas do dia a dia.
“Vendi um X6 de que gostava muito, vendi o ouro que tinha, coloquei sapatos e malas à venda para conseguir comer”, afirmou emocionada durante a entrevista televisiva.
Segundo o relato divulgado, a mulher passou de uma vida confortável para uma situação de dependência de apoio social e ajuda de vizinhos. Atualmente, recebe apenas cerca de 180 euros mensais de apoio familiar, valor que, segundo explica, não é suficiente para cobrir necessidades básicas.
Dificuldades chegaram ao ponto de faltar comida
Antonia revelou ainda ter sofrido cortes de água e telefone por falta de pagamento das faturas.
Numa das declarações que mais impacto gerou em Espanha, contou que chegou a entrar em supermercados com apenas cinco euros no bolso, deixando de comprar durante anos alimentos como carne, peixe ou fruta. A mulher descreveu a situação como uma luta diária para conseguir garantir algo tão básico como comida.
Conflito familiar chegou aos tribunais
Segundo a mesma fonte, a origem do conflito estará relacionada com a gestão do património familiar e da empresa criada pelos pais.
Apesar da intenção de dividir o negócio de forma igual pelos quatro filhos, essa vontade não terá ficado devidamente registada em testamento, o que acabou por permitir ao irmão assumir o controlo da empresa.
Num confronto captado pelas câmaras do programa televisivo, Antonia acusou o irmão de ter arruinado a vida após negar em tribunal que tivesse trabalhado durante 30 anos na empresa. Já o irmão rejeita todas as acusações e afirma que as decisões judiciais existentes lhe dão razão no processo.
Caso levanta debate sobre trabalho informal
O caso está também a levantar debate em Espanha sobre situações de trabalho informal em negócios familiares, sobretudo entre pessoas de gerações mais antigas.
A legislação espanhola exige pelo menos 15 anos de descontos para acesso a uma pensão contributiva. Como os 30 anos de trabalho de Antonia não aparecem registados na carreira contributiva, a mulher ficou excluída do sistema regular de proteção social.
De acordo com a mesma fonte, a mulher de 66 anos continua atualmente a lutar em tribunal pelo reconhecimento da relação laboral mantida durante três décadas na empresa da família.















