As ruas comerciais estão a encher-se de rostos que, à primeira vista, poderiam parecer turistas ou clientes habituais. Mas muitos destes cidadãos já deveriam ter deixado a vida profissional para trás. Cada vez mais reformados estão a regressar ao mercado de trabalho, seja para complementar a pensão, seja para manter a rotina e sentir-se úteis.
Esta tendência reflete mudanças demográficas e económicas que pressionam os sistemas de pensões. O fenómeno tem vindo a crescer de forma significativa na Alemanha.
Mais trabalhadores séniores no ativo
Segundo o jornal digital espanhol, Noticias Trabajo, entre 2020 e 2023, o número de trabalhadores entre 63 e 67 anos subiu de 1,31 para 1,67 milhões, um aumento de 26%. Cerca de 13% dos reformados entre os 65 e os 74 anos continuam a trabalhar.
Nem todos o fazem por necessidade económica. Como afirma um dos entrevistados, “não é sempre por necessidade económica, pois muitos trabalham para se sentirem úteis ou para manter a rotina e as relações sociais”. Ainda assim, aproximadamente quatro em cada dez dependem principalmente do salário que recebem.
Aumentar a idade legal de reforma
A idade legal de reforma tem vindo a aumentar de forma gradual e chegará aos 67 anos em 2031. Em Espanha, por comparação, a idade legal será atingida em 2027. A medida tem sido uma forma silenciosa de sustentar o sistema de pensões e aplicada de forma consistente ao longo da última década.
Reformas recentes, como o Rentenpaket II, garantem por lei que a pensão pública cubra pelo menos 48% do salário médio até 2039.
Este pacote cria também um fundo de capitalização, conhecido como capital geracional, destinado a suavizar o esforço futuro através de rendimentos financeiros. Segundo o Bundesbank, “a medida aspira a dar certidumbre aos pensionistas, mas implica maiores custos a médio prazo”.
Incentivos do Governo
Desde que Friedrich Merz assumiu a Chancelaria, em maio, o Governo tem incentivado os que possam e queiram adiar a reforma e permanecer ativos.
Foram aprovadas medidas para premiar a reforma diferida e tornar mais atrativo continuar no emprego, numa altura em que o país enfrenta défices de mão de obra e a força laboral diminui com a saída da geração do baby boom.
O Bundesbank e a OCDE alertam que “os incentivos actuais para manter os trabalhadores mais velhos não bastam se não se corrigirem desincentivos ou penalizações e não se ampliar a base de cotizantes”.
Pressão sobre os gastos públicos
Derivado ao envelhecimento da população existe um aumento da pressão sobre os gastos públicos. A contribuição do Estado para o sistema de pensões constitui o maior capítulo do orçamento federal, estimado em 121 mil milhões de euros para 2025.
O Governo prevê ajustes nos próximos anos, que provavelmente implicarão aumentos de contribuições. O FMI estima que os gastos com pensões e saúde continuarão a crescer nos próximos cinco anos, exigindo margens fiscais ou reformas adicionais.
Segundo dados da OCDE, a pensão pública na Alemanha cobre cerca de metade do último salário líquido, posicionando o país na média baixa a nível internacional.
Este valor está abaixo de países mais generosos, mas acima de alguns mais austeros, o que explica que muitos reformados procurem complementar os seus rendimentos através de emprego ou planos privados.
Desafios e oportunidades
De acordo com o Noticias Trabajo, quer se trate de prolongar carreiras ou de manter rendimentos, o Governo insiste que “queremos que quem puder e quiser trabalhe mais tempo”.
A medida beneficia o orçamento, mas penaliza profissões fisicamente exigentes e aumenta o risco de desemprego prolongado entre os 60 e os 70 anos, se não houver reciclagem profissional e adaptações nos horários e funções.
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