As doenças transmitidas por roedores voltaram ao centro da atenção mediática depois de casos fatais associados ao hantavírus, uma infeção rara mas potencialmente grave e mortal que pode surgir em ambientes domésticos onde existam ratos ou ratazanas, sobretudo quando há contacto com poeiras contaminadas.
O tema ganhou visibilidade internacional após a morte de Betsy Arakawa, pianista clássica e esposa do ator Gene Hackman, nos Estados Unidos, e de um jovem no Chile, casos noticiados pela agência americana Associated Press e pela imprensa chilena, respetivamente, que apontaram para síndrome pulmonar associada a hantavírus.
Perante estes episódios, importa perceber o que dizem as entidades de saúde pública europeias. O Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças, conhecido pela sigla ECDC, é a agência da União Europeia (UE) responsável pela vigilância epidemiológica e avaliação de riscos relacionados com doenças transmissíveis nos Estados-Membros. Nos seus relatórios anuais, o ECDC compila dados oficiais enviados pelos países europeus e analisa a evolução destas infeções no espaço comunitário.
O que é o hantavírus e como se transmite
De acordo com a mesma agência, os hantavírus são vírus transmitidos principalmente por roedores e podem infetar humanos através do contacto com urina, fezes ou saliva destes animais, sendo a inalação de poeiras contaminadas a via mais comum de transmissão.
A mesma fonte explica que, na Europa, a infeção, que pode ser potencialmente mortal, está sobretudo associada à febre hemorrágica com síndrome renal, enquanto no continente americano são descritos casos de síndrome cardiopulmonar por hantavírus, uma forma mais agressiva que pode evoluir para insuficiência respiratória. O risco aumenta quando fezes ou ninhos secos são varridos ou aspirados, libertando partículas microscópicas para o ar que podem ser inaladas sem que a pessoa se aperceba.
Sintomas que podem começar como gripe
Os primeiros sinais costumam surgir semanas após a exposição e podem ser facilmente confundidos com uma gripe comum: febre, fadiga, dores musculares, dores de cabeça, náuseas e vómitos. Esta fase inicial pouco específica é descrita tanto em relatórios científicos como nas comunicações de autoridades de saúde norte-americanas.
Nos casos mais graves, pode ocorrer agravamento rápido com tosse e dificuldade respiratória, consequência da acumulação de líquido nos pulmões, situação que exige observação médica urgente. Embora a infeção possa ser grave e até mortal, a sua incidência na maioria dos países da UE mantém-se relativamente baixa e concentrada em determinadas regiões do norte e centro da Europa.
Enquadramento para Portugal
No que respeita a Portugal, os dados mais recentes compilados pelo ECDC indicam ausência de casos notificados nos últimos anos incluídos no relatório anual, cenário semelhante ao de Espanha no mesmo período. A mesma fonte mostra que os países com maior número de casos na Europa têm sido, sobretudo, a Finlândia e a Alemanha, o que ajuda a contextualizar o risco no sul da Europa como muito reduzido do ponto de vista estatístico.
Ainda assim, a inexistência de casos notificados não elimina a necessidade de prevenção, uma vez que o mecanismo de transmissão está bem estabelecido cientificamente e depende essencialmente da exposição a roedores infetados.
Limpezas mal feitas podem aumentar o risco
Autoridades de saúde, incluindo os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, recomendam que nunca se varram ou aspirem fezes secas de roedores. O procedimento aconselhado passa por ventilar o espaço, usar luvas e máscara e humedecer previamente a área com desinfetante antes da remoção.
A prevenção depende sobretudo do controlo de roedores e da redução do contacto com excreções, especialmente em locais como sótãos, garagens, caves e anexos pouco utilizados.
Selar frestas, proteger alimentos, gerir corretamente resíduos e manter jardins e arrecadações limpos são medidas consideradas essenciais para reduzir a probabilidade de infestação.
Risco raro, mas real
Os casos recentes fora da Europa demonstram que a infeção pode ter consequências graves quando evolui para síndrome pulmonar. No entanto, segundo a ECDC, na Europa predominam formas clínicas diferentes e a vigilância epidemiológica permite acompanhar a evolução do vírus em tempo real.
Em Portugal, com ausência de notificações recentes de acordo com os relatórios europeus, o risco é considerado muito baixo. Ainda assim, a informação científica disponível sublinha que a prevenção começa em casa, com práticas adequadas de limpeza e controlo de pragas.
O alerta não significa pânico, mas sim prudência: perante sinais de infestação por roedores ou sintomas compatíveis após exposição relevante, a recomendação das autoridades de saúde é procurar avaliação médica e evitar procedimentos de limpeza que levantem poeiras contaminadas.
















