A qualidade do ar dentro de casa continua a ser uma questão de saúde pouco visível para muitas famílias, apesar de poder ser influenciada por equipamentos de uso diário. Entre eles estão os fogões e fornos a gás, que voltaram a levantar preocupações na Europa depois de uma nova investigação apontar para a presença de substâncias nocivas em fugas lentas, muitas vezes impercetíveis.
Um estudo publicado a 25 de março na revista Environmental Research Letters analisou gás doméstico em cidades do Reino Unido, dos Países Baixos e de Itália e concluiu que, em cerca de uma em cada dez casas modeladas, as fugas medidas eram suficientes para ultrapassar o valor anual de referência da União Europeia (UE) para o benzeno no ar.
O trabalho avaliou 35 casas e caracterizou 78 amostras de gás não queimado recolhidas em fogões residenciais.
Fugas discretas com risco real
Os investigadores lembram que o gás natural não contém apenas metano. No artigo, o benzeno surge como a principal preocupação, mas são também referidos outros poluentes perigosos, como tolueno, etilbenzeno, xileno e hexano, todos associados a impactos na qualidade do ar interior e na saúde.
Um dos dados mais marcantes do estudo é que foram detetadas fugas com os fogões desligado em cerca de 40% dos equipamentos observados. A partir dessas medições, os autores modelaram a exposição dentro das cozinhas e concluíram que, em aproximadamente 9% dos lares avaliados, o benzeno podia atingir níveis acima do limite anual usado na UE.
Benzeno é o ponto mais sensível
A preocupação com esta substância não é nova. A Organização Mundial da Saúde considera o benzeno um importante problema de saúde pública e indica que não existe um nível seguro de exposição recomendado. Já a Agência Internacional para a Investigação sobre o Cancro classifica-o como carcinogénico para humanos, estando associado a cancro e a outros efeitos hematológicos.
No novo estudo, os valores médios de benzeno encontrados no gás amostrado foram, consoante a cidade, entre 9 e 73 vezes superiores aos valores médios usados como comparação na América do Norte. Os autores assinalam ainda outro problema: no Reino Unido e nos Países Baixos, os odorantes presentes no gás eram demasiado baixos para garantir que uma pessoa detetasse pelo cheiro algumas fugas já potencialmente perigosas.
O que isto significa para Portugal
Para Portugal, a leitura tem de ser prudente. O estudo não incluiu casas portuguesas, pelo que não é possível concluir que o mesmo nível de risco exista cá com a mesma dimensão. O que se pode dizer, com segurança, é que o tema não é irrelevante num país que tinha 1.564.713 clientes de gás natural em 2023, segundo dados da ERSE.
Além disso, a Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) lembra que a execução, reparação, alteração ou manutenção de instalações e aparelhos a gás só pode ser feita por entidades habilitadas. O abastecimento só pode ocorrer após inspeção com resultado favorável e, em caso de fuga de gás, a legislação prevê inspeções extraordinárias.
Sem alarmismo, mas com atenção
Há ainda um ponto relevante para o enquadramento português: as entidades inspetoras autorizadas pela DGEG têm também competência para verificar as condições de instalação, funcionamento e ventilação dos locais onde existam aparelhos a gás.
Isso significa que, em Portugal, o tema deve ser visto menos como motivo para alarme imediato e mais como um sinal de que manutenção, inspeção e ventilação continuam a ser matérias centrais de segurança doméstica.
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