A Associação Internacional de Paremiologia (AIP-IAP) celebra este ano 18 anos de existência e de trabalho dedicado ao estudo dos provérbios, consolidando Tavira como um dos centros internacionais desta área científica pouco comum, mas profundamente ligada à cultura e à linguagem.
A AIP-IAP é, desde 2016, uma organização não governamental acreditada pela UNESCO, prestando apoio na área do património cultural imaterial, e foi também distinguida com a Medalha de Mérito Municipal – Grau Cobre, atribuída pelo Município de Tavira, explica Rui Soares ao POSTAL.

Com formação em matemática, Rui Soares teve o primeiro contacto com a paremiologia na Finlândia, através de uma investigadora da área, experiência que esteve na origem da organização de um colóquio em Tavira. Apesar de tentativas anteriores falhadas noutros países, o projeto avançou e acabaria por dar origem à Associação Internacional de Paremiologia.
O nascimento da associação surge na sequência de um encontro internacional realizado em Tavira, em 2007, no âmbito de um colóquio académico que reuniu investigadores de vários países, recorda o fundador.
Um início “sem rede”
Segundo Rui Soares, o primeiro encontro reuniu cerca de 50 investigadores vindos de vários continentes, numa organização ainda sem estrutura formal. O impacto do evento foi decisivo: os participantes, entusiasmados com a cidade, com a organização e com o ambiente tranquilo de Tavira, propuseram a criação de uma associação internacional dedicada ao estudo dos provérbios.

A associação viria a ser formalmente constituída em 2008, ano em que são também definidos os primeiros estatutos.
“Começámos de forma muito simples, sem saber exatamente onde isto ia chegar”, refere o presidente, sublinhando que tudo evoluiu “com base na intuição e na experiência acumulada”.
Três áreas de intervenção
Desde cedo, a associação estruturou a sua atividade em três grandes eixos: o escolar, o comunitário e o global.
Na vertente escolar, o objetivo passa por introduzir os provérbios como ferramenta educativa e de aprendizagem de línguas e valores. Na área comunitária, o trabalho estende-se a lares, museus, bibliotecas e até estabelecimentos prisionais, onde os provérbios são usados como ponto de reflexão e diálogo, explica o responsável ao POSTAL.

Já a dimensão global reflete o caráter internacional da associação, que reúne atualmente cerca de 400 associados de mais de 50 países, incluindo investigadores de áreas tão diversas como linguística, medicina, engenharia ou história.
A atividade da associação tem sido desenvolvida em estreita cooperação com diversas instituições locais, regionais e nacionais, incluindo escolas, bibliotecas, instituições sociais e universidades, reforçando a ligação entre a paremiologia, a comunidade e o território, sublinha o responsável.
Crescimento e reconhecimento internacional
Ao longo dos anos, a associação evoluiu de um núcleo essencialmente linguístico para uma rede multidisciplinar. Rui Soares destaca ao POSTAL essa mudança como um dos marcos mais importantes do percurso.
“Os provérbios deixaram de ser vistos apenas como um tema da linguística. Hoje, são estudados por diferentes áreas do conhecimento”, explica ao POSTAL.

A associação organiza anualmente, em novembro, o “Colóquio Interdisciplinar sobre Provérbios”, que reúne investigadores de vários países durante uma semana em Tavira, sendo um dos principais momentos de afirmação científica da paremiologia a nível internacional.
Provérbios na era digital
Sobre a atualidade da paremiologia, Rui Soares considera que o digital veio reforçar a presença dos provérbios, contrariando a ideia de que possam desaparecer.
“As redes sociais são hoje um multiplicador de provérbios. Um provérbio publicado pode chegar em segundos a diferentes continentes”, refere.

Ainda assim, reconhece que muitos jovens já não os conhecem de forma espontânea, defendendo que o seu valor educativo e cultural continua a ser fundamental.
Tavira como ponto de encontro
A escolha de Tavira como sede da associação não foi casual. Segundo o presidente, o ambiente da cidade e a forma como recebeu os primeiros investigadores foram determinantes para a consolidação do projeto.
“Os participantes sentiram-se bem acolhidos e isso fez toda a diferença”, recorda.
Um balanço de 18 anos
Ao fim de quase duas décadas de atividade, Rui Soares faz um balanço positivo do percurso, destacando o crescimento internacional e a diversidade de áreas envolvidas.
“Hoje, já não é um território exclusivo dos linguistas. Temos médicos, engenheiros, militares, historiadores. Isso mostra a verdadeira dimensão dos provérbios”.

No âmbito das comemorações dos 18 anos, foi ainda apresentado, a 7 de maio, o projeto “Tavira em Provérbios”, uma iniciativa em parceria com a União de Freguesias de Tavira (Santa Maria e Santiago), que pretende articular os provérbios com o património histórico, cultural e institucional da cidade, promovendo o conhecimento, o turismo cultural e a circulação por espaços emblemáticos.
Questionado sobre o significado desta trajetória, o presidente resume o percurso num provérbio: “Uma grande viagem começa com um pequeno passo”.
EJ/CM
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