As Ciências Sociais e a Sociologia em particular, são resultado do positivismo do século XIX, da revolução industrial e dos ideais do iluminismo.
A investigação e ensino passaram a utilizar metodologias científicas e dialéctica questionante, afastando-se do determinismo ideológico-religioso.
Auguste Comte (1798-1857), filósofo humanista francês, procurou definir as leis da “física social”, sendo considerado um dos fundadores da Sociologia. Para este autor, as ciências “positivas” eram a matemática, física, química, astronomia, formulou a lei dos três estados, o teológico, fase anterior ao positivismo, a metafisica integrando os direitos universais, e o positivo, as leis da ciência.

Sociólogo
Vários autores foram marcantes no desenvolvimento da sociologia, Emile Durkheim (1858-1917) elaborou as regras do método sociológico, investigou o suicídio e a vida religiosa, Karl Marx (1818-1883) centrou a análise na economia e relações de trabalho, nos modos de produção e conflitos entre classes sociais detentoras dos meios e os assalariados empobrecidos, Max Weber (1864-1920) desenvolveu a sociologia da religião, na obra “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo” mostrou a influencia de valores religiosos na ascensão do capitalismo.
O primeiro curso de “Ciência Social” foi criado em 1887 por Émile Durkheim em Bordéus. Com a Sociologia nas universidades o estudo científico das sociedades centrou-se na sua fase inicial nas ciências biomédicas, antropologia, psiquiatria, psicofisiologia, ciências ligadas à natureza, evoluindo para outras dimensões.
Em Portugal, o Curso Superior de Letras foi criado em 1859 financiado pelo Rei D. Pedro V, passou tempos depois para a Faculdade de Letras, abrangendo as humanidades, estudos literários, filosofia, história e linguística.
As contagens populacionais foram e são necessidades dos governos por razões políticas, fiscais, recrutamento militar, actividades económicas, daí a importância dos estudos sociológicos de natureza quantitativa, intercensitários, sobre natalidade, envelhecimento, mortalidade, nupcialidade, mobilidades, migrações…
Em Portugal, a primeira contagem da população ocorreu em 1864, o País tinha então 4,188 milhões de habitantes, no Censo de 2024 Portugal atingiu 10,749 milhões de habitantes. No último Censo verificou-se que o saldo migratório positivo compensou o saldo natural negativo, consequência da queda da fecundidade e da natalidade, a taxa de envelhecimento aumentou para 192,4 indivíduos com mais de 65 anos por cada 100 jovens menores de 15 anos.
A Sociologia em Portugal foi olhada com desconfiança pelo Estado Novo, o termo “social” para o regime conteria ideias “socialistas”, estudos das novas ciências mostravam realidades sociais que o regime evitava fossem conhecidas.
Os resultados dos Censos de 1970 foram polémicos, os dados contrariavam o discurso oficial, centenas de milhares de portugueses haviam saído do País sem registo, isto é, clandestinamente, a maioria das habitações não possuía água canalizada (60%), electricidade e esgotos, 25% dos cidadãos eram analfabetos,…
Contudo, o regime utilizou as ciências sociais no estudo da “questão colonial” com intervenção de antropólogos e geógrafos, realizou no mundo do trabalho inquéritos, económico-agrícola em 1934 e sobre habitação rural em 1943, sendo preocupante a conflitualidade laboral crescente no sul do País e periferias urbanas industrializadas.
Como ciência a Sociologia evoluiu para especializações como análise estatística e demográfica, direito, sociologia rural e urbana, família, educação, ambiente, comunicação, empresa, trabalho, militar, política e eleitoral, cultura e artes,…
Em 1962 surgiu o Gabinete de Investigação das Ciências Sociais – GIS dirigido por Sedas Nunes, com o objectivo de “estudar a realidade social portuguesa, as sociedades e culturas com as quais Portugal mantinha relações”. A revista “Análise Social” (1963) foi contributo importante para o reconhecimento e valorização das Ciências Sociais.
Vitorino de Magalhães Godinho (1918-2011) defendeu a investigação e trabalho pluridisciplinar, com influência dos “Annales” estabeleceu maior ligação entre história e sociologia, patente na “Revista de História Económica e Social”.
No pós 25 de Abril de 1974, o País procurou desenvolver políticas públicas democráticas, recuperar atrasos e estabelecer prioridades, foi fundamental recolher informação através de inquéritos, promover investigação das dinâmica territoriais e elaborar projecções demográficas e de previsão de utencias, estudo de mobilidades inter-regionais, planeamento nacional, Planos Diretores Municipais e de urbanização, novas infraestruturas,…
Surgiram universidades no continente e ilhas, criaram-se Faculdades de Ciências Humanas e Sociais e cursos no âmbito das ciências sociais em Lisboa/ISCTE, Nova e Lusófona, Évora, Coimbra, Porto, Algarve, Minho,… Em 1974 havia 56 mil estudantes no ensino superior, hoje são meio milhão.
A Sociologia continua a estimular o pensamento crítico e a independência intelectual, questiona dogmas ideológicos demonstrando realidades e fenómenos sociais a partir de dados objectivos. A tecnocracia transformada em “tecnofobia” não questiona, executa o que o sistema centralizado indicar, faz recuar ao universo do pré-positivismo.
A produção analítica da História e Sociologia das Ciências tem na actualidade importância crescente no apoio à definição de políticas públicas democráticas.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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