Neste ciclo de Cafés Filosóficos dedicados à filosofia estóica, em Janeiro falámos sobre Prosoche — a atenção vigilante, em Fevereiro de Meditatio Mortis — a meditação sobre a morte — relacionando-a com o Requiem do compositor francês Gabriel Fauré. Vamos agora abordar o conceito estóico de Fantasia.
Indo à origem etimológica da palavra verificamos que fantasia vem do grego φαντασία (phantasía) que, por sua vez, deriva do verbo φαίνω (phaínō) — “fazer aparecer”, “mostrar”, “tornar visível”. Esta visibilidade relaciona-se com a luz — φάος / φῶς (phôs). Portanto, a palavra fantasia, nas suas origens, está ligada ao campo semântico da aparição luminosa. Literalmente significava algo como o acto de aparecer, ou, aquilo que se manifesta, não se encontrando directamente relacionada com a ficção ou a imaginação, tal como acontece no sentido moderno. Esta distinção é fundamental.
A tradição filosófica ocidental conheceu, em momentos históricos muito distintos, dois gestos intelectuais de suspensão: o conselho estóico de não dar assentimento imediato às phantasiai (impressões) e a epoché fenomenológica proposta por Edmund Husserl (1859-1938). Embora separados por quase dois milénios e inseridos em horizontes teóricos radicalmente diferentes — um ético-prático, outro epistemológico-transcendental — ambos partilham uma mesma intuição fundamental: a necessidade de interromper a adesão espontânea ao que aparece, a fim de conquistar liberdade e clareza.

Doutorada em Filosofia Contemporânea, Vice-presidente BlueZC Institute (www.bluezc.com)
A epoché cria um espaço reflexivo ao suspender a adesão imediata ao real enquanto existente, assim, a consciência revela-se como campo constitutivo de sentido
Para os estóicos, como Epicteto e Marco Aurélio, a vida boa depende da correta administração do assentimento — synkatathesis. As phantasiai são impressões que se apresentam à mente — percepções, julgamentos, imagens, antecipações — e surgem de modo involuntário. Não escolhemos que algo nos pareça ofensivo, ameaçador ou desejável. Porém, escolhemos se concordamos ou não com essa aparência.
O erro humano, segundo o estoicismo, consiste em transformar imediatamente a impressão em juízo: “Isto é terrível!”, “Isto é indispensável!”, “Fui injustiçado!”. Ao conceder um assentimento precipitado, vinculamos o nosso estado interior a algo que não depende de nós. Nas palavras de Epicteto: “Não são as coisas que perturbam os homens, mas os juízos sobre as coisas.” (Encheirídion, 1). O exercício que o filósofo propõe consiste, então, em instaurar um intervalo entre a impressão e o juízo: “Treina-te a dizer a cada impressão: ‘És apenas uma impressão’.” (Discursos, II, 18, 24–25)

Esse pequeno adiamento é decisivo. Ele inaugura a liberdade interior. Ao não conceder assentimento automático, o sujeito recupera o domínio sobre sua faculdade racional — hegemonikon. A suspensão estóica não nega o mundo, reordena a relação com ele, distinguindo o que depende de nós (juízo, intenção, escolha) do que não depende (eventos externos). Ouçamos ainda Epicteto: “Dependem de nós: juízos, desejos, aversões, escolhas morais — prohairesis. Não dependem de nós: corpo, riqueza, reputação, sucesso, doença, morte, ações alheias. O sofrimento nasce quando confundimos estas duas esferas.”
O projeto fenomenológico de Husserl também propõe uma suspensão. A epoché consiste em colocar entre parênteses a tese natural da existência do mundo. Não se trata de negar o mundo, mas de suspender o juízo acerca de sua existência para investigar como ele se manifesta à consciência. Na atitude natural, vivemos imersos em crenças tácitas: o mundo existe independentemente de nós, os objetos estão simplesmente ali, os outros são sujeitos como nós. A fenomenologia não destrói essas crenças, mas neutraliza-as provisoriamente para examinar a estrutura intencional da experiência.
Assim como o estóico introduz uma distância entre impressão e assentimento, Husserl introduz uma distância entre experiência e crença ontológica. A epoché cria um espaço reflexivo ao suspender a adesão imediata ao real enquanto existente, assim, a consciência revela-se como campo constitutivo de sentido.
Apesar das diferenças de finalidade — serenidade moral no estoicismo, fundamentação rigorosa do conhecimento na fenomenologia — há paralelos estruturais notáveis:
1. Interrupção da atitude natural: O estóico interrompe a reação afectiva automática; o fenomenólogo interrompe a crença ontológica espontânea. Ambos questionam a adesão imediata ao que aparece.
2. Distinção entre aparecer e ser: Para o estóico, a impressão não é ainda verdade; é apenas algo que parece. Para Husserl, o aparecer não deve ser confundido com a afirmação da existência objetiva. Em ambos os casos, o fenómeno é separado do juízo que o ultrapassa.
3. Conquista de autonomia: No estoicismo, a suspensão protege a liberdade interior contra a tirania das circunstâncias. Na fenomenologia, ela protege o rigor filosófico contra pressupostos não examinados. Em ambos, a suspensão é emancipadora.
4. Exercício e disciplina: Nenhuma das duas suspensões é espontânea. Elas exigem treino. O estóico pratica diariamente a vigilância sobre suas representações. O fenomenólogo exerce a redução (eidética /fenomenológica) como método sistemático. A suspensão é um hábito que se adquire praticando.
Contudo, a analogia não deve ocultar diferenças fundamentais. O estoicismo mantém uma ontologia afirmada: o cosmos é racional, governado pelo logos. Já em Husserl, a epoché inaugura um domínio transcendental no qual a questão do ser do mundo é metodologicamente neutralizada. O objetivo não é viver melhor, mas compreender como o sentido do mundo é constituído. A meta estóica é a ataraxia — tranquilidade — que se consegue através apatheia — ausência de pathos que se alcança libertando-se das paixões desordenadas. Já a meta husserliana é a evidência apodítica e a fundação da ciência rigorosa.

Ainda assim, ambos os gestos convergem numa intuição decisiva: entre o mundo e nós há sempre mediação. Ao tomar consciência dessa mediação, o sujeito deixa de ser passivamente determinado pelo dado. O estóico descobre que o sofrimento nasce do juízo; o fenomenólogo descobre que o sentido nasce da intencionalidade. Em ambos os casos, o sujeito emerge como instância activa na constituição da experiência.
Poder-se-ia dizer que o estoicismo antecipa, em chave ética, algo que a fenomenologia formaliza em chave transcendental: a necessidade de suspender a crença imediata para revelar a estrutura do aparecer. Se, para o estóico, a suspensão abre o caminho para a liberdade moral, para Husserl ela abre o caminho para a auto-compreensão da consciência.
A recusa do assentimento às phantasiai e a epoché fenomenológica são dois modos de instaurar um intervalo — uma pausa no fluxo automático da vida. É nesse intervalo que a liberdade acontece.
Há que aprender a criar, no interior da experiência, um espaço onde o pensamento possa respirar antes de julgar. Esta prática conduz-nos do ressentimento para a liberdade interior. Vamos a isto? Inscreva-se no Café Filosófico!
Café Filosófico | 18 Março 2026 | Club Farense
5:00 pm in English | €10
21:00 em Português | 5€
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia
















