A esquerda à esquerda da esquerda
Vivemos tantos anos a falar pela calada
Só se pode querer tudo quando não se teve nada
Só quer a vida cheia quem teve a vida parada
Só quer a vida cheia quem teve a vida parada
Só há liberdade a sério quando houver
A paz, o pão
habitação
saúde, educação
Só há liberdade a sério quando houver
Liberdade de mudar e decidir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir
Sérgio Godinho, Liberdade
Além de política e social, a revolução de 25 de Abril foi também cultural, questionadora de mentalidades e comportamentos, algo libertária, por vezes iconoclasta. Educada embora, em grande parte, nos valores bafientos e retrógrados do salazarismo, dominantes até pouco tempo antes, a geração jovem que viveu o 25 de Abril foi também muito marcada pelo clima do Maio de 68 (em França e noutros países), pelos ecos da contestação da guerra do Vietname (com reflexos, cá, na contestação da guerra colonial) e, de um modo mais geral, pelo novo paradigma de valores, gostos e comportamentos que, da Europa à América, caracterizou toda a década de 60 e os anos iniciais da seguinte.
Em Portugal, o ambiente repressivo e cerceador das liberdades em que se vivia e a perspetiva, sempre presente, de ir parar às matas de África, que pesava sobre os jovens, com reflexos visíveis na politização das universidades (algumas delas verdadeiras “ilhas de liberdade”, onde, não obstante a ameaça constante de intervenção da “polícia de choque” ou dos “gorilas”, a informação circulava com menos entraves do que no resto do país), contribuíram decisivamente para uma crescente radicalização política das camadas mais jovens da população, que atingiria o seu momento mais alto nos meses a seguir ao 25 de Abril. Para o bem e para o mal, essa radicalização condicionou e moldou o curso da revolução, imprimindo-lhe uma marca, simultaneamente política e cultural, que perduraria para além dela.
Uma das consequências, ou talvez melhor, uma das expressões deste processo de radicalização política foi o florescimento, ainda na ditadura, de um sem número de partidos e organizações políticas, muitas vezes autênticos grupúsculos, que, posicionando-se à esquerda do PCP, não só questionavam as práticas da Oposição tradicional como se reivindicavam de um modelo de socialismo de base popular e desburocratizado, alternativo ao “socialismo real”, existente na URSS e países da Europa de Leste, do qual acusavam aquele partido de ser defensor.
Muito aguerridas em termos de militância, obrigadas a recorrer a práticas de clandestinidade não muito diferentes das usadas pelos comunistas, as organizações “esquerdistas”, como eram depreciativamente chamadas pelo PCP, foram de um modo geral o resultado da confluência de vários fatores historicamente datados, externos e internos: a guerra fria e a consequente divisão do mundo em dois blocos político-militares antagónicos, o conflito sino-soviético e a divisão do movimento comunista internacional a ele associado, as cisões ocorridas no PCP em consequência deste ou da invasão da Checoslováquia, a onda descolonizadora e de movimentos de emancipação dos povos colonizados que varreu a Ásia e a África depois da 2.ª Guerra Mundial, a Revolução Cubana e consequente propagação da guerra de guerrilha como exemplo a seguir pelos povos na sua luta emancipatória, o Maio de 68, a Revolução Cultural na China de Mao, etc. Abarcando uma grande pluralidade ideológica e de práticas, estes partidos e organizações (mais ideológicos uns, mais virados para a ação outros, como as Brigadas Revolucionárias, futuro PRP/BR, ou a LUAR) dividiam-se em dois grandes grupos:
- os marxistas-leninistas (vulgo ml) ou maoistas, que, inspirados na Revolução Cultural em curso na China de Mao Tse Tung, acusavam o PCP de revisionismo, ou seja, de ter abandonado a via revolucionária (neste caso, a luta armada) para a conquista do poder, assim como de nunca ter sido um verdadeiro Partido Comunista (como afirmava o MRPP) ou ter deixado de o ser (como argumentavam os outros ml), defendendo por isso a necessidade da sua reconstrução ou refundação, na fidelidade aos princípios ideológicos originários dos pais fundadores da ideologia comunista – Marx, Engels, Lenine, tal como para os comunistas, mas também Estaline, Mao e Enver Hoxa (líder da Albânia, país na altura com um regime político semelhante ao da China) – cujas efígies, em fundo recortadas, amiúde ilustravam a sua propaganda;
- os outros partidos, com inspirações diversas, que genericamente criticavam o PCP de reformismo, ou seja, de ter abdicado da revolução em troca de uma política de conciliação de classes e de reformas graduais do capitalismo.
Diferenças ideológicas à parte, a “esquerda revolucionária”, como genericamente se chamava a si própria, tinha como eixos estruturantes do seu ideário a recusa quer do “socialismo real” do Leste europeu, tido como autoritário e burocrático, quer da social-democracia da Europa Ocidental, vista como mera gestora do capitalismo, bem como ainda, de um modo mais geral e impreciso, a defesa de uma “praxis” rebelde, anticapitalista e anti-imperialista, com alguns laivos libertários, que, com uma boa dose de generosidade e romantismo, mas, não raro, também de dogmatismo, contestava o autoritarismo e os valores conservadores e tradicionais da “sociedade burguesa” da época.
Não despicienda, uma nuance dividia, por sua vez, as organizações maoistas: declarando-se embora no seu conjunto equitativamente contra o fascismo e o social-fascismo (que partidos como o MRPP e o PCP (ml) identificavam com o PCP) e contra o imperialismo e o social-imperialismo (que identificavam com a URSS), uma parte (caso do MRPP e do PCP (ml)) erigia, na prática, os segundos como o inimigo principal, enquanto a outra (caso da UDP), sem deixar de combater os segundos, a nível ideológico, defendia uma política de unidade antifascista e anti-imperialista, a nível das bases, que incluía também as do PCP. Estas divergências tornar-se-iam particularmente notadas no verão e outono de 1975, quando tanto o MRPP como o PCP (ml) participaram lado a lado com o PS e os partidos à sua direita no combate contra o que chamavam o social-fascismo e o social-imperialismo, representados pelo PCP e pelos outros partidos à sua esquerda.
Simultaneamente política e cultural, como já se disse, a ação de toda esta área assumiu, ao longo do tempo, diversas formas:
- a contestação da guerra colonial e, já depois do 25 de Abril, o boicote ao embarque de tropas para África;
- o apoio a greves e lutas de trabalhadores, nos momentos de maior conflitualidade social;
- o apoio à auto-organização popular em órgãos de base – comissões de moradores, comissões de trabalhadores, etc. – que os seus promotores entendiam como o embrião da tomada do poder pelas classes trabalhadoras e do futuro Poder Popular a exercer por estas;
- a defesa de uma política internacional de não alinhamento, de amizade preferencial com os países do Terceiro Mundo e fora dos dois blocos político-militares da altura – a NATO e o Pacto de Varsóvia;
- a dinamização de formas de cultura alternativas ou de contracultura – teatro, canto, cartaz, pintura mural, etc. – que não só questionassem os valores da ordem política e social vigente como ajudassem a afirmar novos valores, mais consentâneos com a nova ordem que, em sua substituição, pretendiam erguer.
O MRPP
À semelhança de Lisboa, onde a sua propaganda e manifestações se tornaram notadas logo depois do 25 de Abril, o MRPP foi o primeiro dos pequenos partidos à esquerda do PCP a surgir no Algarve, mais concretamente em Olhão, localidade que, ao longo dos meses seguintes, se tornaria o seu principal bastião. Logo no dia 1.º de Maio, nesta localidade, na Praça da Restauração, simpatizantes seus aí presentes gritaram palavras de ordem próprias, à revelia das da manifestação para essa altura convocada pela CDE, para festejar o triunfo da liberdade.(1)
Fundado a 18 de setembro de 1970, a partir de uma organização estudantil anterior – a Esquerda Democrática Estudantil (EDE) – o MRPP reclamava-se de um ideário marxista-leninista-maoista, inspirado na Revolução Cultural à altura em curso na China de Mao Tse Tung e que cultivava com recurso a pinturas murais, cartazes e demais iconografia do seu abundante imaginário propagandístico. À semelhança de outras organizações desta área (caso do PCP (ml), com expressão muito reduzida, nesta província), caracterizava-se por um posicionamento particularmente virulento em relação ao PCP e mesmo outras partidos ideologicamente mais próximos, que apelidava de revisionistas e neorrevisionistas e com cujos adeptos, por vezes, os seus militantes se envolviam em rixas, a pretexto de pichagens e colagens de cartazes.

Em Olhão, no dia 30 de novembro de 1974, uma manifestação apoiada por simpatizantes seus foi responsável pelo assalto a uma reunião do CDS, na altura a decorrer numa sociedade recreativa local (o Grémio)(2) e que obrigou à intervenção de uma força militar do vizinho quartel de Faro.(3) Não obstante, beneficiou algumas vezes da benevolência e simpatia do PS, que, com alguma frequência, com ele partilhou ou apoiou listas sindicais contra o PCP e outros partidos de esquerda.
A propósito, em agosto de 1974, num comunicado sobre este partido, o PS afirmava:
«O MRPP representa um fenómeno de psicologia social que, embora sempre largamente minoritário, constitui parte integrante das sociedades modernas: o sentimento de revolta em estado puro. Acidentalmente essa tendência exprime-se, entre nós e em relação ao MRPP, pela adesão cega ao estalinismo ortodoxo e por uma linha de ação política inteiramente irrealista.
É, porém, incontestável que o sentimento metafísico de revolta, tal como o encarna o MRPP, não se traduz por uma atuação insurrecional nem se exterioriza coletivamente por formas violentas de luta. A ação do MRPP fixa-se na simples demagogia doutrinária – atinja as Forças Armadas ou quaisquer outras instituições – e na obstrução da atividade de algumas escolas superiores, sendo praticamente desprovida de significado a sua influência à escala nacional.»(4)
Entre março e maio de 1975, na sequência da proibição pelo Conselho da Revolução de o MRPP concorrer às eleições para a Assembleia Constituinte, duas vastas operações conduzidas pelo COPCON – a quem, na sua propaganda, este partido chamava pejorativamente de nova PIDE – traduziram-se na prisão, em várias localidades do país, de um elevado número de militantes seus, entre os quais muitos algarvios, nomeadamente de Olhão. Tal esteve na origem de uma aguerrida campanha pela libertação dos presos, que se prolongaria até à soltura dos mesmos.

No Algarve, onde, além de Olhão, teve sedes noutras localidades (caso de Faro), distinguiu-se pelo apoio que, logo nos primeiros meses, deu a movimentos grevistas, ocupações de casas devolutas, ações de boicote ao embarque de tropas para as colónias e, já em 1975, a alguns órgãos populares de base, nomeadamente em Olhão, cuja orientação influenciava. Nesta localidade, além da sua sede no 2.º andar de um prédio na Avenida da República, manteve em funcionamento durante algum tempo um Centro de Cultura Popular, na Avenida Dr. Bernardino da Silva, numa casa de rés-do-chão junto ao Hospital (onde hoje estão as Finanças), e um Infantário Popular, «destinado aos filhos das classes trabalhadoras», no 1.º andar de um edifício na Rua do Comércio (frente ao café Chaminé), aos quais deu os nomes de dois militantes seus já falecidos: Martins Soares e Alexandrino de Sousa, este último morto, pouco tempo antes, numa rixa com militantes de outro pequeno partido de esquerda. A inauguração do infantário, no início de novembro de 1975, foi assinalada com uma «festa popular» que, além de uma regata de vela na Ria Formosa, incluiu a atuação, no «Largo da Igreja», de dois grupos dinamizados por militantes seus: o Coro Bandeira Vermelha e o Grupo de Teatro do Centro de Cultura Popular.(5)
Apesar de ter chegado a contar com certa influência em franjas não despiciendas das camadas estudantis e juvenis da população, nomeadamente em Olhão, não iria, nas eleições legislativas de 1976, as primeiras em que lhe foi permitido participar, além de 1% dos votos no Algarve, em larga medida à custa do resultado alcançado nesta vila (6,61% na freguesia de Olhão, freguesia que, na altura, incorporava a parte mais antiga e populosa desta localidade). Sem surpresa, Olhão foi também o concelho algarvio onde, no final de 1976, nas eleições para as Câmaras Municipais, o MRPP obteve o seu score mais elevado (4,93%). Posteriormente, vários dirigentes seus, no país, mas também na província, viriam a aderir ao PS e ao PSD, especialmente o primeiro.

Da iniciativa da organização do MRPP desta vila foi também a publicação de um jornal. Apresentando-se como «um jornal popular», o periódico, com doze páginas, boa apresentação gráfica e periodicidade quinzenal, intitulado Povo de Olhão, iniciou a sua publicação em dezembro de 1975, não tendo ido além de quatro números, supostamente por motivos financeiros. No cabeçalho, à esquerda do título(a vermelho, cor que utilizava também nos títulos de grande parte dos artigos), ostentava uma gravura estilizada de um pescador envolto em redes, erguendo uma espingarda com uma das mãos, e, em fundo, alguns barcos recortados. No primeiro número, num extenso editorial, sob o título «Viva o Povo de Olhão! Viva a Frente Única Democrática e Popular!», o jornal apontava os objetivos do “proletariado revolucionário” («levar a Revolução Democrática e Popular em frente» e «instaurar uma ditadura Democrática e Popular (…) rumo ao socialismo e ao comunismo») e definia os seus amigos e inimigos (os antifascistas e os “antissocial-fascistas”, partes integrantes da “Frente Única”, no primeiro caso; “a grande burguesia”, “os latifundiários” e “os social-fascistas”, no segundo).(6) Além de vários artigos, em números diferentes, sobre temas locais e causas do partido – atividades e reuniões de comissões de moradores, uma entrevista com uma operária conserveira, a situação do Hospital, problemas com o abastecimento de leite, o aumento do custo de vida, as ocupações de casas, a situação dos retornados das ex-colónias, etc. – o jornal publicou, numa das suas edições, duas extensas entrevistas, uma com o secretário-geral deste partido Arnaldo Matos, por ocasião de uma das suas deslocações a Olhão em trabalho partidário (três páginas interiores), e outra com Mestre Artur, o pescador que, na altura, presidia ao respetivo sindicato, cuja orientação tinha o apoio do MRPP (duas páginas interiores).(7) O jornal publicou também uma desenvolvida notícia sobre a deslocação a S. Bartolomeu de Messines do Coro e do Grupo de Teatro que integravam o já citado Centro de Cultura Popular Martins Soares.(8) Apoiante, nas eleições presidenciais, juntamente com o PS, o PPD e o CDS, do candidato e futuro Presidente da República general Ramalho Eanes, o MRPP viria, em junho de 1976, por altura destas, a publicar uma edição especial, de oito páginas, deste jornal, totalmente dedicada à apologia desta candidatura.(9)
Curiosamente, apesar das suas características, o jornal contava com o apoio publicitário de algumas firmas da vila, ainda assim supostamente aquém do que necessitava para suportar os seus custos.
O MES, a LUAR e o PRP
O Movimento da Esquerda Socialista (MES) e a Liga de Unidade e Ação Revolucionária (LUAR) foram, respetivamente, o segundo e o terceiro dos pequenos partidos à esquerda do PCP a emergir na vida política algarvia depois do 25 de Abril.
Fundado a 10 de maio de 1974, por um conjunto de individualidades originárias das crises académicas dos anos 1960 e dos movimentos de contestação católica, o MES fez a sua aparição na província com a abertura de uma sede em Faro, na Rua Castilho, n.º 9, a única que teve em toda a região. Além de, nos meses iniciais, ter estado representado com outros partidos em comícios unitários do MDP/CDE e numa festa-convívio da LUAR, o MES foi igualmente um dos partidos que, juntamente com o MDP, PCP e PS, estiveram representados com pavilhões próprios, na Feira de Santa Iria, em Faro, nesse ano de 1974, facto que repetiria nas feiras seguintes, de Silves e Portimão. Sintoma da importância que, na altura, sobretudo para os jovens, representavam problemas como o da guerra e o da descolonização (esta ainda muito no seu início), no pavilhão da feira de Faro (com «enorme afluência», de acordo com uma notícia publicada no órgão oficial do partido, Esquerda Socialista), projetavam-se «diariamente slides sobre a vida da população da República da Guiné-Bissau», país cuja independência (proclamada unilateralmente pelo PAIGC no ano anterior) tinha sido muito recentemente reconhecida pelo Estado português, bem como sobre as de outras colónias portuguesas ainda não independentes.(10)

Objeto de uma notícia no Jornal do Algarve foram também, pouco antes, em setembro, dois comícios deste partido, em Vila Real de Santo António e Faro. Integrados nas comemorações do 1.º aniversário do sangrento golpe de estado no Chile, que, em 1974, nas novas condições de liberdade, tiveram grande eco por todo o país, os dois comícios contaram com a participação de dois destacados dirigentes nacionais do partido, o Eng.º João Cravinho (familiarmente ligado ao Algarve) e o advogado Dr. José Manuel Galvão Teles (1938-2023), além de vários dirigentes locais, casos de José Manuel Raimundo, o jovem vila-realense (radicado em Faro) que, ao longo do período revolucionário, foi o rosto do MES na província, e João Botelheiro, futuro dirigente e autarca do PS.(11)
No final do ano, na sequência do seu Primeiro Congresso, o partido passa por um processo de radicalização da sua linha política, que se traduz na saída de alguns dos seus principais quadros dirigentes nacionais: Jorge Sampaio, João Cravinho, César de Oliveira, etc., etc. Com um posicionamento político doravante mais próximo dos outros partidos da mesma área, o MES irá, ao longo de 1975, distinguir-se pela sua ação no apoio e dinamização das organizações de poder popular (comissões de moradores, de trabalhadores e de soldados), das quais se tornará, neste período, um dos principais paladinos.
Surgida, em 1967, na sequência do assalto à delegação da Figueira da Foz do Banco de Portugal, ação de luta armada que, pela sua audácia e temeridade, surpreendeu e abalou a habitual pacatez da ditadura, a LUAR, dirigida pelo algarvio Hermínio da Palma Inácio, estreou-se em Faro, com a abertura de uma sede, na Rua da Cruz, n.º 20, e uma festa- convívio, em agosto, na Alameda João de Deus, com a presença de «alguns milhares de pessoas», e à qual, na altura, o Jornal do Algarve deu largo destaque:
«O convívio teve carácter marcadamente festivo e nele atuaram conhecidas figuras do canto livre, entre as quais José Afonso e Francisco Fanhais e o artista farense Américo Filipe. Usaram da palavra vários oradores, entre eles Camilo Mortágua, da LUAR, e José Maria Vieira Alexandre, do MES, que saudou a LUAR e pôs pertinentes interrogações sobre questões de interesse nacional. O último orador foi o secretário-geral da LUAR, o algarvio Palma Inácio, conhecido militante antifascista, que aludiu à posição da LUAR, explicou por que só decorridos três meses faziam a sua aparição e apresentavam o seu programa, ao qual se referiu pormenorizadamente.
Entre as questões apresentadas focou-se a auto-organização das classes trabalhadoras e a transformação dos sindicatos em organismos representativos dos interesses dos trabalhadores, verdadeiramente controlados por estes; o apoio da luta das classes trabalhadoras; a participação ativa em trabalhos concretos para a necessária transformação do quotidiano no que respeita à habitação, higiene, alfabetização, equipamentos sociais, etc. Foi ainda apontada a necessidade da formação coletivista dos setores sociais, a criação de organizações camponesas de base e outros pormenores ligados às classes trabalhadoras. A sessão prolongou-se pela noite fora e, no final, estabeleceu-se animado debate, em que foram postas pertinentes considerações. (…)

No decurso do convívio foi projetado o filme “25 de Abril” e no recinto encontrava-se patente uma exposição fotográfica sobre a guerra colonial.»(12)
Na noite anterior, véspera desta iniciativa (a primeira realizada pela LUAR a nível nacional), Palma Inácio tinha sido recebido pelos seus simpatizantes em Tunes, numa sessão para o efeito organizada por este partido.(13)
Nascido em 1922, em Ferragudo, no concelho de Lagoa, mecânico da Aeronáutica Civil, Hermínio da Palma Inácio estreou-se, em 1947, na luta contra a ditadura, com a sabotagem de um avião na base aérea de Sintra. Preso e evadido várias vezes, no país e no estrangeiro, o que o forçaria a viver longos períodos no exílio, ficaria conhecido pelas suas ações temerárias e espetaculares contra a ditadura. Em 1961, foi um dos autores do desvio de um avião da TAP da carreira Casablanca-Lisboa que lançou panfletos antirregime sobre várias localidades do sul do país (casos de Lisboa e Faro) – o primeiro caso do género a nível internacional de que há notícia – e, em 1967, do assalto à delegação do Banco de Portugal da Figueira da Foz (ação que esteve na origem da LUAR). Preso, pela última vez, nos calabouços de Caxias, nos finais de 1973, quando preparava uma nova ação contra a ditadura, foi um dos muitos presos políticos soltos desta prisão logo a seguir ao triunfo da revolução.

No início de 1975, um dos seus núcleos na província – neste caso, de Loulé – ocupou um palacete, «abandonado há longos anos», com o fim de nele instalar um Infantário Popular, a que deu o nome de “Poeta Aleixo”. Uma entre várias ações do mesmo género, que, durante o período revolucionário, foram um traço distintivo do modus operandi desta organização – caso da ocupação da herdade Torre Bela, imortalizada pelo documentário homónimo – a ação tinha como objetivo «possibilitar às crianças mais desfavorecidas o acesso a uma assistência educacional sadia, física e psiquicamente», cujos pais, pelos horários ou pelo preço, não podiam recorrer à creche local. E, glosando António Aleixo, o comunicado em que este partido dava conta da ocupação concluía:
«O mundo só pode ser/ melhor do que até aqui/ quando consigas fazer/ mais p’los outros que por ti.
Pela Revolução Socialista. Pela classe trabalhadora. Por um socialismo de base.»(14)
Fundado em 1973, na clandestinidade, por dois antigos militantes do PCP, Isabel do Carmo e Carlos Antunes, a partir de uma organização de luta armada anterior (as Brigadas Revolucionárias), o Partido Revolucionário do Proletariado (PRP/BR, como, desde então, passou a chamar-se) fez a sua aparição pública no Algarve, no final de 1974, num comício em Olhão, localidade na qual virá, na altura, a instalar a primeira das quatro sedes que, nos meses seguintes, chegou a ter nesta província: além de Olhão, sucessivamente Faro, Loulé e Ferragudo. Tal como a LUAR, também um pequeno partido de quadros, que nunca concorreu a eleições, distinguiu-se no apoio aos movimentos reivindicativos de moradores, trabalhadores e soldados, ocorridos neste período, como foram os casos das lutas conduzidas pelos pescadores de Olhão, pelos trabalhadores da Fábrica Júdice Fialho, de Portimão, pelos moradores do bairro 8 de outubro, de Olhão, ou pelos soldados do Regimento de Infantaria de Faro (RIF), amplamente publicitadas nas páginas do seu órgão oficial, Revolução)(15)
Em agosto de 1975, na fase mais aguda da luta política que caracterizou todo o verão e início do outono desse ano, os três partidos irão, juntamente com o MDP, a FSP (partido nascido de uma cisão no PS) e a LCI (futuro PSR, de Francisco Louçã), integrar a Frente de Unidade Revolucionária (FUR), organização com forte intervenção nesta altura, e, já em 1976, apoiar a candidatura à presidência da República de Otelo Saraiva de Carvalho, último grande fôlego desta área na vida política portuguesa. Depois desta data em claro refluxo, os três irão sucessivamente desaparecer da cena política: o MES e a LUAR, primeiro, o PRP, algum tempo depois. Grande número de quadros dirigentes do MES, quer de antes da cisão de 1974 – Jorge Sampaio, João Cravinho, César de Oliveira, etc. – quer da sua fase final – Ferro Rodrigues ou Augusto Mateus – virão progressivamente a ingressar no PS. O mesmo aconteceu com o algarvio e líder da LUAR, Hermínio da Palma Inácio.
A UDP
Fundada apenas a 6 de dezembro de 1974, como frente eleitoral de várias organizações marxistas-leninistas provenientes da clandestinidade, a União Democrática Popular (UDP) foi, por esta razão, o último dos pequenos partidos à esquerda do PCP a surgir no Algarve.
Não obstante a concorrência de outras duas organizações maoistas – a FEC ml e o PUP – a UDP foi, com 0,79% dos votos a nível nacional, o único dos pequenos partidos à esquerda do PCP a eleger uma representação na Assembleia Constituinte, neste caso um deputado por Lisboa (onde obteve 1,68%), resultado em larga medida da concentração de votos deste partido naquele que é o círculo mais populoso e que elege o maior número de parlamentares do país. Operário metalúrgico, Américo Duarte, o deputado que inicialmente representou a UDP na Assembleia Constituinte, seria substituído, desde dezembro de 1975 até ao fim dos trabalhos desta, pelo músico e cantautor Afonso Dias, fundador, em 1974, com José Mário Branco, Fausto e Tino Flores, do Grupo de Ação Cultural Vozes na Luta e companheiro, em sessões de canto, de José Afonso e outros nomes da chamada canção de protesto, antes e depois do 25 de Abril. Nascido em 1949, em Lisboa, viria, a partir de 1984, a radicar-se no Algarve, onde tem desenvolvido uma intensa atividade como músico e divulgador dos grandes poetas nacionais, em escolas e espaços recreativo-culturais.

No Algarve, nas primeiras eleições, a votação da UDP não foi além dos 1,10%, atrás de outros pequenos partidos (FSP e MES). Tal como outros partidos da mesma área política, esta organização teve como principais vetores da sua ação o apoio a movimentos reivindicativos das classes trabalhadoras e a formas de auto-organização popular (comissões de trabalhadores, comissões de moradores, comissões de soldados, etc.). Embora sem ter integrado a FUR, o partido participou ativamente, com os partidos integrantes desta, nas movimentações políticas ocorridas na província ao longo de 1975 e apoiou, em 1976, a candidatura de Otelo às eleições presidenciais. Faro foi um dos concelhos algarvios onde teve mais influência, mercê da ação de alguns dos seus militantes na Casa da Cultura da Juventude desta cidade (cujas instalações, na Pontinha, tinham albergado antes a Mocidade Portuguesa) e nas Comissões de Moradores de alguns bairros com população mais carenciada, como a Atalaia ou a Horta da Areia. Nesta cidade, a sua sede funcionou durante muitos anos no 1.º andar de um edifício no Largo de S. Pedro.(16)
Omissa em relação à atividade da UDP no Algarve, a Voz do Povo, o jornal que veiculava as suas posições, publicou, desde dezembro de 1974, algumas notícias sobre movimentos de cariz popular que, com o apoio deste partido ou dinamizados por militantes seus nesta província, se batiam por causas laborais (caso das lutas das operárias conserveiras de Olhão e Vila Real de Santo António, dos trabalhadores da firma Júdice Fialho, em Portimão, e dos operários da construção civil, em Tavira) ou contestavam a influência do PCP em sindicatos e autarquias (caso dos metalúrgicos, em Faro, e do Grupo de Vigilância Antifascista Servir o Povo, em Algós, no concelho de Silves).(17)
Além de ter sido um dos que mais perdurou no tempo, a UDP foi, no conjunto dos pequenos partidos de esquerda, surgidos quer antes, quer depois da revolução, o único que, por várias vezes, elegeu representação parlamentar, sempre um deputado por Lisboa (1975-1976, 1976-1979, 1979-1980, 1980-1983 e 1991-1995, neste último caso em coligação com o PCP), vindo em 1999 a integrar-se no Bloco de Esquerda.
Notas:
(1) O Sporting Olhanense, 23/5/1974; Luta Popular, 23/5/1974
(2) Os Pides morrem na rua, Simpatizantes do MRPP do Algarve, 11/12/1974 – Arquivo Particular do autor
(3) Informação dada por um antigo furriel miliciano que, na altura, participou na operação de resgate dos militantes do CDS
(4) A Capital, 6/8/1974
(5) Jornal do Algarve, 8/11/1975
(6) Povo de Olhão, 5/12/1975
(7) Idem, 20/12/1975
(8) Idem, 5/1271975
(9) Idem, 24/6/1976
(10) Esquerda Socialista, 25/10/1974
(11) Jornal do Algarve, 21/9/1974
(12) Idem, 24/8/1974
(13) Fernando Pereira Marques (2024) – O Desejo de Revolução Materiais para a História do PREC, Lisboa, Tinta da China – p. 54-58
(14) Jornal do Algarve, 15/3/1975
(15) Revolução, 7/2/1975, 1/8/1975, 30/10/1975 e 14/11/1975
(16) Ramiro Santos (2024) – 50 anos de Abril no Algarve Uma revolução tranquila na escrita dos dias, Lisboa, Guerra e Paz – p. 35 e 36
(17) Voz do Povo, 10/12/1974; 17/12/1974; 28/1/1975; 4/2/1975; 6/5/1975; 15/7/1975
SIGLAS
CDS – Centro Democrático Social
COPCON – Comando Operacional do Continente
EDE – Esquerda Democrática Estudantil
FEC m-l – Frente Eleitoral de Comunistas marxistas-leninistas
FSP – Frente Socialista Popular
FUR – Frente de Unidade Revolucionária
LCI – Liga Comunista Internacionalista
LUAR – Liga de Unidade e Ação Revolucionária
MES – Movimento de Esquerda Socialista
MRPP – Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado
NATO – Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN, em língua portuguesa)
PAIGC – Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde
PCP – Partido Comunista Português
PCP (m-l) – Partido Comunista de Portugal (marxista-leninista)
PIDE – Polícia Internacional de Defesa do Estado
PRP/BR – Partido Revolucionário do Proletariado/ Brigadas Revolucionárias
PS – Partido Socialista
PSR – Partido Socialista Revolucionário
PUP – Partido de Unidade Popular
TAP – Transportes Aéreos Portugueses
UDP – União Democrática Popular
URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
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