Uma Pequena Vida, de Hanya Yanagihara
Uma Pequena Vida (selecionado para o Booker Prize de 2015), de Hanya Yanagihara, foi o segundo romance desta romancista, editora e escritora de viagens norte-americana, publicada em Portugal pela Editorial Presença, com tradução de Miguel Romeira. Este seu primeiro romance publicado em Portugal no final de 2022, foi dos livros mais falados ao longo de 2023. Tinha ouvido falar do livro, sem nunca me inteirar muito do que tratava, pois evito sempre sinopses e demasiada informação. O que parecia difícil ignorar é que o livro era duro, violento, e muita gente ficou ora fascinada, ora transtornada por ele. Agora que estou a mais de meio do livro compreendo.
Este romance contemporâneo, com 688 páginas, de letra miudinha e páginas densamente preenchidas, e escritas, é uma leitura essencial, mas é também um murro no estômago que não aconselho a almas mais sensíveis. Há inclusive cenas de automutilação e de violência conjugal, com descrições sem paninhos quentes, que nos obrigam mesmo a parar e respirar fundo.
«Este é um dos mais espantosos, desafiadores, perturbadores e profundamente comoventes romances publicados nas últimas décadas: um épico sobre o amor e a amizade no século XXI, que visita alguns dos lugares mais assustadores onde a ficção já se aventurou; um livro que, desafiando explicações e todas as probabilidades, emerge do lado da luz.

Doutorado em Literatura na UAlg
e Investigador do Centro de Investigação em Artes e Comunicação (CIAC)
Quatro colegas de uma pequena universidade do Massachusetts mudam-se para Nova Iorque para começar a vida adulta. Sem dinheiro e em busca de um caminho, contam apenas com as suas ambições e com a amizade que os une. Bonito e generoso, Willem tenta vingar como ator; nascido em Brooklyn, inteligente e mordaz, por vezes cruel, JB quer afirmar-se como pintor na cena artística de Manhattan; Malcolm é um arquiteto frustrado com o seu trabalho num ateliê de renome; e Jude, brilhante, enigmático e fechado, é o centro de gravidade do grupo.
Ao acompanhar os quatro amigos durante décadas, vemos como as suas relações se aprofundam e ensombram, marcadas pela dependência, pelo êxito e pelo orgulho. Porém, o seu grande desafio, compreenderão eles, é Jude, que se torna um advogado temido pelos seus pares, mas que é um homem cada vez mais destroçado, física e psicologicamente marcado por uma infância inimaginável e perseguido por um passado traumático que teme jamais conseguir ultrapassar.»
Jude no centro de uma narrativa marcada pelo trauma
Existem pequenos trechos narrados na primeira pessoa, com um destinatário que depois se torna claro. Contudo, a maior parte do livro encontra-se narrado na terceira pessoa, de um modo peculiar que nos faz acompanhar a perspetiva da personagem principal, muitas vezes inicialmente apenas designado como “Ele” – o que nos deixa a precisar de nos recentrarmos na leitura, para descodificar quem “ele” é, no conjunto de 4 amigos todos do género masculino, é sobretudo sobre Jude que o livro se debruça. É em Jude que se centra o trauma e a dor, e a impossibilidade – aparentemente – de uma salvação, depois de uma infância muito pouco usual e de anos de abuso. As marcas de uma infância tenebrosa estão-lhe escritas no corpo e são essas marcas que deixam marca no leitor, numa leitura que se torna por vezes pesada – há aliás momentos em que a autora não se inibe de ser demasiado gráfica na descrição da violência.

Todos os quatro colegas, caso interesse, parecem ser heterossexuais, à excepção de um, que é assumidamente homossexual, e outro, que acaba por se ver envolvido numa relação com um homem. A fluidez da sexualidade, todavia, é uma constante, pois há melhores amigos que inevitavelmente se tornam amantes e companheiros de vida.
O que é claro é que todos eles parecem um grupo de “Peter Pans”, com dificuldade em assentar, em assumir que cresceram, e que continuam, ainda que por vezes com alguns desentendimentos e alguma distância geográfica, a gravitar entre si.
“Riam-se da miséria que ganhavam e de, com 27, trinta ou 32 anos, continuarem em casa dos pais ou terem de dividir apartamento, a menos que vivessem com a namorada bancária ou o namorado que trabalhava numa editora (não havendo coisa mais triste do que viver à custa de um namorado empregado numa editora que ganhava mais do que eles, que eram arquitetos). Gabavam-se de tudo o que poderiam estar a fazer se não tivessem escolhido aquela maldita profissão: teriam sido curadores (possivelmente, o único outro trabalho no qual ganhariam menos do que ali), escanções (pensando bem, nesse, também ganhariam pior), donos de galerias (já iam três) ou escritores (passava a quatro — obviamente, nenhum deles nascera com talento para ganhar dinheiro, nem mesmo em cenários imaginários).” (p. 63)
O significado do título
Parece haver alguma discórdia relativamente ao significado do título e, por conseguinte, à fiel tradução ou não do título – A Little Life – para português. Alguém terá escrito que a expressão que o título evoca refere-se a “dar vida”, “dar um pequeno fôlego de vida”. Mas no próprio livro, como sempre, encontra-se uma resposta distinta, pois em dois momentos distintos, no espaço de poucas páginas, refere-se a vida de Jude como ancorada numa mecânica simples e rotineiramente reconfortante.
“De um lado, está tudo o que sabe, está o padrão regular e banal da sua existência, previsível como uma torneira a pingar, que o mantém sozinho, mas a salvo, protegido de tudo o que o poderá magoar. Do outro, há um mar agitado, há tempestades, há a surpresa — há tudo o que não pode controlar e tudo o que poderá ser horrível ou arrebatador, tudo o que passou toda a sua vida adulta a tentar evitar, todas essas coisas cuja ausência faz com que a sua vida se esvaia de toda a cor. Dentro dele, a criatura hesita, erguida nas patas traseiras a esgaravatar o ar como se em busca de respostas.” (p. 309)
Em suma, ele de bom grado “teria continuado na sua pequena vida sem sobressaltos, sem sentir falta de quem ainda não conhecia.” (p. 312). Mais do que isso, Jude boicota permanentemente a sua felicidade, o que se torna cansativo e frustrante para o leitor.
“Mas o que era a felicidade senão uma extravagância, um estado que é impossível manter, em parte, por ser tão difícil traduzir por palavras? Não se lembrava de, em criança, saber definir a felicidade. Havia apenas a tristeza ou o medo e a ausência de um e outro, bastando-lhe a segunda. Não queria nem precisava de mais do que isso.” (p. 96)
Ao Paraíso, de Hanya Yanagihara
Ao Paraíso, de Hanya Yanagihara, com tradução de Miguel Romeira, é o segundo romance, publicado pela Editorial Presença, desta romancista norte-americana. Igualmente extenso, Ao Paraíso é um romance que atravessa três séculos e reescreve a história e a identidade norte-americana em três versões distintas, em três tempos diferentes. Os nomes das personagens repetem-se, como se lêssemos versões diferentes da mesma vida, consoante o tempo e o lugar em que lhe é dado nascer. Um tríptico ambicioso, cujas palavras finais nas três partes ecoam o tema do sonho e da utopia, num romance que versa sobre amor, família, luto.
“Sei que a presença de outrem não elimina inteiramente a solidão, mas também sei que a companhia é um escudo, e que, não havendo outra pessoa, a solidão chega pela calada, é um fantasma que atravessa as janelas e nos desce pela garganta para nos encher de uma tristeza que não encontra resposta. Não posso jurar que a minha neta não se sentirá sozinha, mas impedi que ela estivesse só. A sua vida terá uma testemunha.” (p. 564)
A leitura de Ao Paraíso pode ser cruzada com distopias como A história de uma aia, de Margaret Atwood, e lembra alguns dos romances mais emblemáticos de Michael Cunningham, que também se apresentavam divididos em três partes. A primeira e a segunda parte de Ao Paraíso tem cerca de 150 páginas cada, enquanto que à terceira correspondem perto de 300 páginas.
A história e a identidade norte-americana em três versões distintas
A primeira parte recua a 1893, para nos contar a história de um jovem de 29 anos e diletante herdeiro de uma das famílias mais antigas e respeitadas de Nova Iorque. David vive com o avô numa imponente mansão, praticamente recluso, e sem amigos, tendo incorporado na sua vida os ritmos e rotina do avô. A ação passa-se numa América aparentemente alternativa (mas não tanto), em que Nova Iorque é um dos assim designados Estados Livres, que se independentizaram do resto do país, e onde cada um pode amar quem quiser – homens podem casar homens ou mulheres, e mulheres podem igualmente casar entre si ou com o sexo oposto. Os fundadores destes Estados Livres, os primeiros utopistas, desenharam na sua primeira Constituição, em 1790, a liberdade no casamento, a abolição da escravatura, o fim da servidão, mas faltou-lhe ainda reconhecer plena cidadania aos negros, embora criminalize quaisquer maus-tratos ou tortura de que sejam alvo. O importante nesta época, em que se pode casar entre o mesmo sexo, é não casar fora da sua faixa social. Além disso, os casais homossexuais têm naturalmente filhos – naturalmente no sentido em que têm à disposição muitas crianças órfãs vindas das Colónias – um continente mais a Sul, que parece corresponder a uma América mais conservadora ou mesmo às colónias dos Estados Unidos.

David está em vésperas de aceitar uma proposta de casamento com um homem mais velho que lhe trará proteção, quando se apaixona por um professor de música paupérrimo.
Na segunda parte do livro, avançamos até 1993, numa Manhattan que enfrenta a “peste” da sida. Um novo David, um jovem havaiano com cerca de 23 anos, partilha a sua vida com o companheiro rico e bastante mais velho, um advogado que trabalha numa prestigiada firma. Entretanto esconde uma infância complicada no Hawai’i, onde vivia com a avó, a rainha, e o seu pai, que era praticamente desprezado pela avó que centrava todas as suas esperanças no neto. Até que este decide partir e renunciar ao seu destino e ao seu legado.
Por fim, a terceira parte avança até um futuro distante, algures em 2093. O registo narrativo varia novamente, e alterna entre a história de uma jovem inocente, Charlie, e um tempo passado, registado em emails trocados entre Charles (depois perceberemos melhor de quem se trata, e da sua relação com Charlie) e o seu amigo Peter (que vive na Nova Bretanha, num regime livre), que darão conta do deflagrar de uma pandemia – mais uma pandemia, das várias que assolaram o século XXI, que terá provocado consequências drásticas no modo de vida, décadas depois, no momento em que Charlie nos escreve na primeira pessoa sobre uma vida bastante rotineira e vazia, sob um regime totalitário, o Estado Novo. Num país que atravessou diversas pandemias ao longo do século, numa era em que as pessoas têm de usar fatos de arrefecimento para sair, em que há recolher obrigatório, campos de isolamento, e doenças possivelmente criadas em laboratório, o que ressalta do totalitarismo deste regime é, sobretudo, a falta de imaginação; há vários momentos em que Charlie ouve um contador de histórias, em torno do qual as pessoas se reúnem em círculos, e as histórias são totalmente falhas de imaginação ou criatividade.
Identidade, memória e legado atravessam o romance
A prosa da autora é enlevante e encantatória. Curiosamente, adapta-se às épocas narradas – na primeira parte tem um pendor mais clássico, mais contido, enquanto que na segunda parte a narrativa se torna mais despojada e ligeira.
A cruzar as três partes temos diversas referências diretas ou indiretas ao Havai, de onde é oriunda a sua família e onde a autora cresceu.
Um romance inteligente, que parece recriar a mesma história com notas ligeiramente discordantes, para nos falar de identidade, raça, estrutura financeira e familiar, e muito especialmente da morte, em particular da herança e do legado que deixamos quando partimos. A isto soma-se ainda a temática da homossexualidade, que é engenhosamente trabalhada pela autora, digamos que numa perspetiva regressiva – como se com o evoluir do tempo declinasse a aceitação e a tolerância – ainda que em prol da sobrevivência da espécie. A temática da homossexualidade já perpassava o seu romance anterior.
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