António Nóbrega, reconhecido urbanista, é também fundador e atual presidente da direção do Conservatório de Albufeira, uma das principais instituições culturais e educativas de natureza privada da região, criada e gerida em regime de voluntariado.
Em 2026, o Conservatório de Albufeira assinala 30 anos de atividade, marcados pela intervenção junto de crianças, jovens, adultos e seniores, bem como pelo contributo para a comunidade e para a promoção da cultura.
Para assinalar a data, a instituição preparou um programa comemorativo que pretende homenagear fundadores, alunos e antigos alunos, familiares, professores e ex-professores, assim como parceiros e entidades públicas e privadas que acompanharam o percurso do conservatório ao longo de três décadas, nas áreas da educação, cultura, apoio social e cidadania.

Sabemos que a música não se limita a representar apenas cultura ou passatempo
As comemorações têm início no mês de maio e prolongam-se até ao final do ano, integrando um conjunto diversificado de iniciativas com impacto no panorama cultural de Albufeira.
Entre os destaques do programa estão espetáculos em sala e ao ar livre, incluindo a Gala de Encerramento do 30.º ano letivo, agendada para 6 de junho, no Palácio de Congressos dos Salgados. Está igualmente previsto um espetáculo com grupos de violino e violoncelo, a realizar a 29 de junho, no Auditório Municipal de Albufeira.
No âmbito destas celebrações, António Nóbrega concedeu uma entrevista ao jornal Postal do Algarve, onde aborda o percurso do Conservatório de Albufeira, analisando o seu passado, o presente e as perspetivas futuras.
P – O Conservatório de Albufeira vai comemorar 30 anos de existência. Na realidade, o que é o Conservatório de Albufeira?
R – O Conservatório de Albufeira é uma instituição licenciada pelo Ministério da Educação para promover o ensino artístico oficial, o que concretizamos em articulação com a Escola D. Martim Fernandes e esperamos alargar a atividade envolvendo outras escolas.

Orgulhamo-nos também de desenvolver um leque de atividades em projetos culturais, educativos e sociais, em parceria com outras instituições públicas e privadas.
P – E quais são essas instituições?
R – Mantemos um Protocolo de Colaboração com a Câmara Municipal de Albufeira, que nos cede o edifício histórico onde funciona o Conservatório e nos presta apoio, tal como o faz com inúmeras outras associações culturais, sociais, desportivas, etc.
Desenvolvemos acordos com a Santa Casa da Misericórdia, o Centro Paroquial de Paderne, o Clube Avô, proporcionando atividades em infantários, creches – seis no total -, lares, centros de dia e organizações de idosos.
Ensino artístico e impacto educativo
P – Mas também proporciona o ensino oficial da música, abrangendo vários instrumentos e grupos instrumentais. Quais são?
R – Piano, canto, acordeão, guitarra, trompete, violino, violoncelo e projetos coletivos de grupos corais e de instrumentos diversificados, entre outros.

Sabemos que a música não se limita a representar apenas cultura ou passatempo. A música é uma das atividades mais completas para o cérebro humano… desenvolve pensamento abstrato, criatividade, sensibilidade estética e competências cognitivas transversais.
Na vertente educativa, o Conservatório de Albufeira funciona em regime articulado com a Escola D. Martim Fernandes, em Albufeira.
P – Como nasceu a ideia de criar o Conservatório de Albufeira?
R – Fui, com alguns colegas da Câmara Municipal de Albufeira, o fundador da Associação dos Trabalhadores da Câmara Municipal de Albufeira, como uma cooperativa. Na altura, os trabalhadores enfrentavam grandes dificuldades.
Quando tive conhecimento de que alguns colegas não tinham recursos para comprar medicamentos, criei um sistema de apoio na doença.
Na década de 80, não existiam praticamente creches ou infantários. Algumas funcionárias não tinham onde deixar os filhos nos períodos em que não havia aulas – de manhã, de tarde ou nas férias.
Soube que algumas mães deixavam os filhos trancados em casa. Perante esta situação, criei uma “creche”, sem sequer ter instalações.

De início, as crianças ficavam entregues a uma senhora, que simplesmente tomava conta delas no Jardim Duarte Pacheco, onde, com os joelhos no chão, faziam os deveres da escola nos bancos do jardim.
Depois, conseguimos instalações provisórias na antiga central elétrica na zona, até se conseguirem salas do antigo matadouro, no Cais Herculano.
Como a creche incluía a ocupação de tempos livres nos períodos em que não havia aulas, proporcionávamos às crianças aulas de música, atividades físicas, artes criativas, informática, entre outras. Assim, ganhámos experiência nessas áreas.
As minhas filhas frequentaram o Conservatório Regional do Algarve, em Faro, e, com a ajuda do amigo José Carlos Leandro, conseguimos criar em Albufeira uma Delegação do Conservatório Regional, que representa o ponto de partida para a criação do Conservatório de Albufeira.
Dificuldades iniciais e percurso de crescimento
P – Que dificuldades enfrentou no início do projeto do Conservatório?
R – Enfrentámos enormes dificuldades, incluindo financeiras. Na altura, uma crise generalizada afetava o país e, sem recursos, os sócios fundadores tiveram que recolher cadeiras velhas de uma escola, limpar e pintar, lavar as paredes das salas — não existiam verbas para tinta —; pedimos o apoio de organizações e cada uma ofereceu o que podia. Uma grande superfície emprestou tapetes para a inauguração.
O Zoomarine, a Junta de Freguesia de Albufeira e o Montechoro ofereceram, cada um, um terço do valor de um piano para a inauguração e para o início das aulas.
Máquinas de escrever e televisões usadas serviram… e ainda lá estão.
Das centenas de milhares de milhões de euros provenientes de financiamentos da Comunidade Europeia, o Conservatório de Albufeira não recebeu um único cêntimo.
O presidente da Câmara Municipal de Albufeira reservou uma verba destinada à reparação das instalações, mas receamos que a burocracia impeça que, no próximo inverno, não existam condições para proporcionar as aulas
P – Após 30 anos de dedicação à sociedade, quais os principais problemas e aspirações que o Conservatório de Albufeira enfrenta?
R – Neste momento, o nosso maior problema reside na degradação das instalações. O edifício tem séculos de existência, está muito degradado e não beneficiou da conservação indispensável.
O presidente da Câmara Municipal de Albufeira reservou uma verba destinada à reparação das instalações, mas receamos que a burocracia impeça que, no próximo inverno, não existam condições para proporcionar as aulas.
Já passaram pelo Conservatório de Albufeira muitos milhares de crianças, jovens, adultos e idosos.
Alguns dos nossos alunos já trabalham connosco como professores, o que nos dá uma satisfação enorme.

É importante lembrar que já conseguimos organizar um estabelecimento de ensino superior, pronto para iniciar aulas em Albufeira. Faltava o mais simples, ou seja, as instalações. Afirmo que é, de facto, o mais simples, porque não faltam em Albufeira edifícios com as condições mínimas para o funcionamento inicial da universidade que criámos, completamente abandonados e sem qualquer utilização.
Conseguimos, há anos, concretizar um acordo com a Universidade Lusíada para instalar em Albufeira uma universidade com cursos de turismo, economia, agricultura, pecuária, direito, entre outros. A Universidade Lusíada, na altura, dispunha de professores, programas completos, ou seja, estava praticamente pronta a iniciar as aulas.
Tal sonho não foi concretizado, nem chegámos a perceber a razão, mas não perdemos a esperança de instalar em Albufeira um estabelecimento de ensino superior de Artes Criativas.
A nossa proposta encontra-se em poder da Câmara Municipal de Albufeira já há alguns anos. Aguardamos a resposta.
Programa comemorativo mobiliza comunidade
P – Já existe o Programa de Comemoração dos 30 anos de existência do Conservatório de Albufeira?
R – Sim. Juntámos vários parceiros, a fim de valorizar o Programa das Comemorações, tal como o jornal Postal do Algarve, o DiariOnline – Região Sul, o Hotel Alísios, os Grupos Hoteleiros Belver e Sana, a empresa Ao Rubro, etc.
Estamos a ultimar o Programa, mas já preparámos eventos de relevo. Vamos concretizar uma exposição itinerante, com “retalhos da nossa história”, masterclasses de acordeão e de guitarra, espetáculos públicos de música clássica e em empreendimentos turísticos, lares de idosos, creches, escolas, entre outros.
A seu tempo, iremos divulgar em pormenor cada evento do programa e contamos com todos os nossos ex-alunos, ex-professores e amigos, a fim de comemorar os 30 anos de dedicação ao bem-estar da população e da sociedade.
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