A desigualdade entre homens e mulheres nas pensões continua a marcar a Europa, com as mulheres a receber significativamente menos do que os homens quando chegam à reforma. De acordo com o site especializado em negócios e atualidade, Executive Digest, e com dados recentes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), especializada em estatísticas económicas e sociais, as mulheres auferem, em média, pensões 22% mais baixas do que os homens, uma diferença que ultrapassa os 30% em países como o Reino Unido, Países Baixos e Áustria.
Desigualdade salarial ao longo da vida
A disparidade salarial ao longo da vida activa é amplamente conhecida, mas a diferença nas pensões é ainda mais acentuada. Segundo a OCDE, na União Europeia, as mulheres ganharam em 2023 cerca de 12% menos do que os homens, recebendo em média 88 euros por cada 100 euros de rendimento masculino.
No conjunto dos 27 países europeus analisados, incluindo Estados fora da UE, o rendimento médio das pensões femininas situa-se nos 78 euros por cada 100 euros recebidos por homens, um reflexo das desigualdades acumuladas durante toda a carreira profissional.
Portugal: progressos, mas ainda longe da igualdade
Portugal destaca-se pela evolução registada nas últimas duas décadas. Em 2007, a diferença entre pensões atingia 35,6%, valor claramente acima da média europeia. Em 2024, esta disparidade desceu para 23,2%, aproximando-se da média da OCDE, fixada nos 23%.
Esta redução coloca Portugal entre os países com maior diminuição do chamado ‘gender pension gap’, juntamente com Noruega, Turquia e Luxemburgo.
Impacto das trajetórias profissionais e familiares
A professora Alexandra Niessen-Ruenzi, da Universidade de Mannheim, explicou à Euronews Business que esta desigualdade está profundamente ligada às trajectórias familiares e profissionais das mulheres.
Muitas reduzem o horário de trabalho ou optam por regimes a tempo parcial para cuidar dos filhos, comprometendo o rendimento presente e os direitos futuros à pensão.
Além disso, estas interrupções conduzem a carreiras mais curtas e salários mais baixos ao longo da vida, dificultando investimentos em planos de pensões privados.
Diferenças entre países e políticas de apoio
Em contraste, os países nórdicos e alguns Estados da Europa Central e Oriental apresentam diferenças significativamente mais reduzidas, onde as carreiras femininas se aproximam das masculinas, o acesso a serviços de infância é mais generalizado e os sistemas de pensões incluem mecanismos redistributivos ou créditos para períodos dedicados ao cuidado de filhos.
Entre 2007 e 2024, a diferença média nas pensões europeias desceu de 28% para 22%, com reduções expressivas na Eslovénia, Alemanha e Grécia.
Desigualdades estruturais mantêm-se
O professor Antonio Abatemarco, da Universidade de Salerno, acrescenta que estas disparidades são resultado de desigualdades estruturais acumuladas ao longo da vida.
Em países do sul e do leste da Europa, a participação feminina no mercado de trabalho foi historicamente mais baixa e muitas vezes concentrada em sectores informais sem contribuições para a pensão.
Na Europa Ocidental, a maternidade e os cuidados familiares, com regimes de tempo parcial, reduzem contribuições e progressões salariais. Reformas recentes dos sistemas de pensões também podem ter impactos diferentes em homens e mulheres, mantendo desigualdades estruturais.
Perspetivas futuras
Segundo o relatório Pensions at a Glance 2025 da OCDE, a redução das diferenças no mercado de trabalho feminino está a impulsionar a diminuição das disparidades, mas será necessário tempo para que estas mudanças se reflitam plenamente nas pensões.
De acordo com a Executive Digest, a desigualdade acumulada ao longo da vida continua a marcar as contas das mulheres reformadas, lembrando que, apesar de progressos, o caminho para a igualdade ainda é longo.
















