O debate sobre a redução da jornada laboral tem ganho força na Europa, sobretudo em torno da ideia de que trabalhar menos horas por semana pode melhorar a qualidade de vida sem comprometer a economia. A discussão já não se limita a experiências isoladas e começa a ser vista como um modelo possível para países onde a conciliação entre trabalho e família é cada vez mais valorizada.
Em Portugal, o tema tem surgido com maior frequência, mas ainda de forma tímida. Dados do Eurostat mostram que a média nacional de horas de trabalho semanais ronda as 39, uma das mais elevadas da União Europeia (UE). Em contraste, os Países Baixos destacam-se como o país onde se trabalha menos: apenas 32,1 horas em média, o valor mais baixo da UE.
O caso neerlandês
Nos Países Baixos, a semana de quatro dias já se tornou uma realidade comum. Segundo o economista Bert Colijn, do banco ING, citado pela revista especializada maioritariamente em economia e negócios Executive Digest, “a semana de trabalho de quatro dias se tornou muito, muito comum. Trabalho cinco dias e, às vezes, sou criticado por isso”.
Esta transformação começou nas décadas de 1980 e 1990, quando a entrada massiva de mulheres no mercado de trabalho em regime de tempo parcial deu origem ao chamado modelo de “um ganhador e meio”. Com o tempo, também os homens começaram a reduzir as suas jornadas, sobretudo para acompanhar os filhos em idades mais pequenas.
Resultados económicos positivos
Apesar da redução no número de horas trabalhadas, a economia neerlandesa não perdeu dinamismo. De acordo com a OCDE, em 2024 cerca de 82% da população em idade ativa estava empregada, uma das taxas mais elevadas da Europa.
A produtividade por hora continua alta e o PIB per capita mantém-se entre os mais robustos da UE. Este cenário mostra que menos horas de trabalho não significam necessariamente menos resultados económicos, de acordo com a mesma fonte.
Problemas ainda por resolver
A experiência dos Países Baixos, contudo, não está isenta de desafios. A igualdade de género continua limitada: apenas 27% dos cargos de gestão são ocupados por mulheres, segundo dados da OCDE de 2019. Além disso, setores fundamentais, como a educação, sofrem com a falta de mão de obra, criando dificuldades para as famílias que procuram equilibrar horários laborais com responsabilidades pessoais.
O que pode significar para Portugal
Portugal, que continua entre os países com jornadas semanais mais longas da Europa, pode então olhar para o exemplo neerlandês com interesse, mas também com cautela. Já foram realizados projetos-piloto no país com a semana de quatro dias, mas a adoção generalizada ainda está longe de consenso, refere ainda a Executive Digest.
O caso neerlandês mostra que é possível conciliar menos horas de trabalho com prosperidade económica, desde que haja um modelo bem estruturado e uma cultura laboral adaptada. A questão que se coloca agora é até que ponto Portugal poderá seguir o mesmo caminho nos próximos anos.
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