A crise no Estreito de Ormuz deixou de ser apenas uma questão ligada ao petróleo e ao gás natural. A mesma passagem marítima é também decisiva para a indústria dos fertilizantes, um setor essencial para a agricultura e, por consequência, para a produção de alimentos em várias regiões do mundo.
Segundo o Cinco Días, publicação do grupo do jornal espanhol El País, cerca de 30% da ureia produzida a nível mundial passa pelo Estreito de Ormuz, bloqueado há mais de dois meses. A ureia é um dos fertilizantes mais usados na agricultura, por fornecer azoto às culturas e ajudar ao seu crescimento.
Ormuz é também uma rota importante para 21% do amoníaco utilizado no fabrico de ureia e outros fertilizantes, além de concentrar cerca de 20% do gás natural liquefeito mundial, igualmente relevante para esta indústria. A interrupção desta passagem está, por isso, a afetar uma cadeia de abastecimento que vai muito além da energia.
Fertilizantes mais caros ameaçam colheitas
O encerramento do Estreito de Ormuz já provocou uma forte pressão nos mercados energéticos, mas o impacto nos fertilizantes começa agora a ganhar maior peso. Os preços subiram durante a época de sementeira no Hemisfério Norte e continuam elevados numa altura em que o Hemisfério Sul se prepara para uma fase decisiva da produção agrícola.
Ahmed El-Hoshy, presidente executivo da empresa de fertilizantes Fertiglobe, uma das maiores empresas de fertilizantes dos Emirados Árabes Unidos, considera que o impacto nos alimentos pode ser ainda mais grave do que o efeito no petróleo. Em causa está a dificuldade de muitos agricultores em comprarem fertilizantes em quantidade suficiente.
A ureia já terá subido cerca de 80% desde o início do conflito, com um aumento de 400 dólares por tonelada. Se os preços do milho, do trigo, do arroz ou de outros cereais não compensarem esse encarecimento, muitos produtores poderão reduzir a aplicação de fertilizantes nos campos.
“Metade da população mundial depende deste tipo de fertilizante”
A consequência mais direta dessa decisão seria uma menor produtividade agrícola. El-Hoshy recorda, citado pela mesma fonte, que fertilizantes azotados, como a ureia e o amoníaco, são responsáveis por ganhos de produção que ajudam a alimentar cerca de quatro mil milhões de pessoas.
“Metade da população mundial depende deste tipo de fertilizante”, alertou o responsável da Fertiglobe, em declarações à mesma fonte. O aviso ganha particular relevância porque a janela de compra de fertilizantes no Hemisfério Sul é curta e coincide com uma fase de preços especialmente elevados.
A preocupação é maior em regiões como a América Latina, a Índia e a Austrália, onde os agricultores precisam de importar fertilizantes nos próximos dois meses para garantir colheitas robustas. Caso os produtos não cheguem a tempo, ou cheguem demasiado caros, o impacto poderá sentir-se mais tarde nos mercados alimentares.
Brasil e Argentina entre os países mais expostos
Na América Latina, Brasil e Argentina surgem entre os países mais vulneráveis. São grandes exportadores agrícolas, mas foram apanhados pela guerra com reservas reduzidas de fertilizantes, o que os obriga agora a comprar em condições muito mais desfavoráveis.
Segundo El-Hoshy, Argentina e Brasil representam cerca de 10% das exportações mundiais de trigo, 40% das exportações de milho e 60% das exportações globais de soja. Uma quebra na disponibilidade de fertilizantes nestes mercados poderia, por isso, ter efeitos fora da América Latina.
“Se isto se prolongar e não for resolvido em breve, poderá facilmente ocorrer uma crise alimentar”, afirmou o responsável da Fertiglobe. A frase resume o receio de que uma crise inicialmente energética se transforme numa crise de preços e disponibilidade de alimentos.
Empresas procuram rotas alternativas
A Fertiglobe tem conseguido contornar parte do problema através do transporte de mercadorias por camião para outros portos, uma solução mais cara, mas que tem sido parcialmente compensada pela subida do preço da ureia. A empresa beneficiou ainda de capacidade de armazenamento disponível quando a guerra começou.
Ainda assim, a situação desta empresa não representa todo o setor. Cerca de dois terços da sua produção estão fora da zona do Golfo, nomeadamente no Egito e na Argélia, o que lhe dá maior margem de manobra. A empresa tem também um peso relevante no abastecimento europeu, fornecendo parte importante das importações espanholas de amoníaco e ureia, de acordo com a fonte anteriormente citada.
Mesmo com essa capacidade, a normalização não deverá ser imediata quando Ormuz reabrir. Parte da produção de fertilizantes nos países do Golfo foi interrompida, alguns equipamentos terão sofrido danos e os custos com fretes marítimos e seguros continuam elevados.
Reabertura pode não resolver tudo de imediato
Vários países, incluindo Espanha, Estados Unidos, Índia e Austrália, já lançaram programas de apoio para ajudar os agricultores a comprar fertilizantes. Na Europa e nos Estados Unidos, compras antecipadas feitas antes de março ajudaram a reduzir o impacto imediato da subida dos preços.
O problema é agora mais sensível no Hemisfério Sul, onde a época agrícola exige decisões rápidas. Como mostrou também o El País, a crise em Ormuz está a reduzir o acesso a fertilizantes numa fase crítica da sementeira e pode prolongar os seus efeitos durante vários meses, mesmo que o trânsito marítimo seja restabelecido.
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