O Banco Central Europeu (BCE) avançou com a sua decisão mais aguardada dos últimos anos: já existe um calendário definido para a chegada do euro digital, uma versão eletrónica da moeda única que poderá transformar o sistema de pagamentos na União Europeia.
De acordo com o portal de economia Business Insider, embora ainda falte percorrer várias etapas, a instituição liderada por Christine Lagarde confirmou que a moeda virtual deverá começar a ser testada em larga escala a partir de 2027. A ideia é simples na teoria: criar um meio de pagamento público, seguro e aceite em toda a Europa, tanto em lojas físicas como online.
No entanto, como em qualquer inovação desta dimensão, surgem dúvidas. Os defensores apontam benefícios claros para consumidores e empresas. Já os críticos levantam receios sobre privacidade, controlo excessivo e até a sobrevivência do dinheiro em papel.
Uma moeda para toda a União Europeia
O projeto prevê que o euro digital seja moeda de curso legal, ou seja, terá de ser aceite em todos os Estados-membros da zona euro. Isto significa que qualquer consumidor poderá pagar diretamente com fundos emitidos pelo BCE, sem depender exclusivamente das redes bancárias tradicionais.
Outra novidade é a possibilidade de realizar transferências instantâneas entre particulares, semelhantes ao que já acontece com serviços como o MB Way, mas desta vez com a garantia de ser dinheiro público digital. As administrações públicas também poderão fazer pagamentos diretos aos cidadãos, como devoluções de IRS ou apoios sociais.
A Comissão Europeia acrescenta que, mesmo sem internet, será possível efetuar pagamentos através de carteiras offline, embora com limites máximos de saldo por questões de segurança.
As fases do calendário
De acordo com o BCE, até outubro de 2025 decorre a fase de preparação. Só depois será tomada a decisão formal sobre o lançamento. Em seguida, Parlamento Europeu e Conselho terão de aprovar o regulamento que vai definir as regras: curso legal, privacidade e obrigações para os comerciantes.
Esse processo legislativo deverá estender-se até 2026. Se houver consenso, avançará então o plano técnico, que pode demorar entre dois a três anos. Nesse período serão desenvolvidas aplicações móveis, cartões físicos recarregáveis e adaptações nos sistemas de caixa e de multibanco.
Na prática, a utilização plena do euro digital só deverá ser uma realidade entre 2028 e 2029. Ainda assim, 2027 poderá marcar o arranque dos primeiros pilotos alargados em vários países da União Europeia.
O que muda para os consumidores
Entre as promessas mais destacadas está a redução de custos. O BCE defende que não haverá comissões adicionais para o consumidor e que os levantamentos em numerário ou transferências para contas bancárias tradicionais não terão encargos acrescidos.
Outra das vantagens apontadas é a universalidade. Qualquer comércio estará obrigado a aceitar o euro digital, salvo raras exceções a definir na lei. Isto pode fortalecer a posição dos consumidores perante redes privadas de pagamento, que hoje cobram taxas variáveis aos comerciantes.
Para os utilizadores menos familiarizados com tecnologia, a instituição garante que existirão soluções alternativas, como cartões físicos, para evitar situações de exclusão digital, sobretudo entre idosos ou em regiões com fraca cobertura de rede.
Os receios levantados
Nem todos estão convencidos. Segundo o Business Insider, os críticos sublinham que grande parte das funcionalidades prometidas já existe através de meios privados, como os pagamentos digitais ou as transferências instantâneas. Questionam, por isso, se o euro digital trará verdadeiras vantagens para o cidadão comum.
Outro ponto sensível é a privacidade. Há quem receie que a nova moeda seja usada como ferramenta de controlo social e económico, permitindo às autoridades monitorizar gastos ou impor limites. O BCE tem sido claro nesta matéria: garante que o euro digital não será “programável” e que não haverá rastreamento em massa das transações.
A instituição afirma ainda que o novo sistema coexistirá com o dinheiro físico, que continuará a circular e a ser aceite. A promessa é de convivência e não de substituição.
Perspetivas futuras
Apesar das críticas, o projeto avança com apoio político em Bruxelas e nos principais bancos centrais da zona euro. Especialistas acreditam que o euro digital poderá reforçar a soberania financeira europeia e reduzir a dependência de plataformas privadas de pagamentos.
A médio prazo, prevê-se também que o novo modelo traga poupanças em infraestruturas e padronização tecnológica, apesar do investimento inicial significativo em segurança e adaptação.
O certo é que, se os prazos forem cumpridos, em menos de cinco anos os portugueses poderão ter na carteira digital não apenas euros em papel, mas também uma versão oficial e eletrónica da moeda comum. O futuro dos pagamentos na Europa começa a desenhar-se, e estará cada vez mais no telemóvel.
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