Mar (María del Mar Gallego), proprietária do Bar Mickey, em Vilagarcía de Arousa (Pontevedra), na Galiza, optou por não aceitar pagamentos com cartão. O tema voltou a ganhar tração no início de 2026, depois de uma peça do jornal espanhol El Español a sintetizar a posição da comerciante com a frase: “Prefiro fiar um café do que pagar comissões ao banco”.
O pano de fundo é uma mudança real nos hábitos de pagamento. No conjunto da área do euro, o Banco Central Europeu (BCE) indica que, em 2022, o numerário foi usado em 59% das transações presenciais (abaixo dos 72% em 2019) e que, em valor, os cartões já representavam uma fatia superior à do dinheiro (46% contra 42%). Em Espanha, o Banco de Espanha tem sublinhado que o dinheiro continua a ser muito utilizado no comércio físico, mas perde terreno, e que a aceitação de pagamentos eletrónicos é hoje muito elevada nos estabelecimentos.
Porque é que alguns bares dizem “não” ao cartão
A queixa central de Mar (e de outros proprietários) é simples: em consumos pequenos, a comissão associada a cada transação pode pesar numa margem que já é curta, depois de impostos e custos fixos como rendas e energia. Numa reportagem da Noticias Cuatro, a proprietária do Bar Mickey critica precisamente a lógica de “pagar uma comissão ao banco” por um café de baixo valor.
A mesma reportagem refere ainda outros casos na região, como o de Fernando Rial, proprietário de um estabelecimento em Catoira, que diz não querer “dar nada ao banco” por cada venda. O tema tornou-se viral por tocar num gesto quotidiano: pagar um café, um refrigerante ou uma cerveja com telemóvel/cartão, e encontrar um “não” do outro lado do balcão.
É legal recusar cartões? O que dizem as regras em Espanha
Em termos gerais, em Espanha não existe uma obrigação universal de um bar ou restaurante aceitar cartão. A OCU (Organização de Consumidores e Utilizadores) explica que o estabelecimento pode recusar pagamento com cartão ou até exigir um montante mínimo, desde que isso seja claramente anunciado antes do consumo, para evitar surpresas no momento de pagar.
No mesmo sentido, a Noticias Cuatro (citando o Banco de Espanha) refere que o comércio pode impor condições para aceitar cartão (como um mínimo), mas deve indicá-las de forma clara antes da compra.
Já o dinheiro físico tem outro enquadramento: a lei espanhola de defesa do consumidor tipifica como infração a “negativa a aceitar o pagamento em numerário” dentro dos limites definidos pela normativa tributária e de combate à fraude. Ou seja, uma coisa é não aceitar cartão; outra é recusar numerário (dentro dos limites legais).
E em Portugal: o que pode (e não pode) fazer um café em 2026
Em Portugal, a regra base é semelhante quanto ao cartão: o Banco de Portugal esclarece que os comerciantes não são obrigados a aceitar cartões de pagamento. Se aceitarem, passam a suportar encargos, incluindo a taxa de serviço ao comerciante.
Quanto ao numerário, o Banco de Portugal recorda que ninguém é obrigado a aceitar mais de 50 moedas num único pagamento (com exceções como o Estado, o Banco de Portugal e instituições de crédito). Existem ainda limites legais à utilização de dinheiro vivo em certas situações, incluindo regras específicas para pagamentos a partir de determinados montantes e para o pagamento de impostos em numerário, com a ASAE a sintetizar estes limites de forma prática. No plano europeu, o BCE lembra que o curso legal implica uma obrigação geral de aceitação de numerário, embora não absoluta, podendo haver exceções em situações específicas.
No fim, o caso de Mar vale menos como “guerra ao cartão” e mais como sinal de um debate que está a crescer: como garantir pagamentos digitais convenientes sem esmagar as margens de quem vende produtos de baixo valor. Para o consumidor, a regra prática continua a ser simples: confirmar os meios de pagamento antes de consumir e manter alternativa.
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