A transição energética está cada vez menos dependente da capacidade de produzir eletricidade a partir de fontes renováveis. O verdadeiro desafio, agora, passa por saber como armazenar essa energia de forma fiável, durante dias ou mesmo semanas. Uma empresa israelita acredita ter encontrado uma solução para o problema, e está a testá-la no sul da Alemanha, recorrendo a formações geológicas escondidas no subsolo.
A proposta da Augwind Energy chama-se AirBattery e consiste em transformar cavernas de sal em baterias subterrâneas de ar comprimido.
Segundo os seus responsáveis, esta tecnologia poderá permitir armazenar energia excedente gerada por painéis solares e turbinas eólicas, para depois ser libertada quando a rede mais precisar. O conceito é simples em teoria, mas o seu impacto pode ser profundo.
Ar comprimido em vez de lítio
De acordo com a New Atlas, o funcionamento do sistema baseia-se na utilização da eletricidade excedente da rede para comprimir ar, que é depois armazenado em cavernas de sal a grande profundidade. Quando a rede elétrica precisa de reforço, o ar é libertado e aciona turbinas que voltam a gerar eletricidade.
Esta tecnologia distingue-se de outras soluções de armazenamento por não recorrer a baterias químicas, barragens reversíveis ou outros métodos que dependam de recursos limitados. A AirBattery não exige grandes volumes de água nem grandes extensões de terreno, o que a torna especialmente interessante para países com elevada densidade populacional.
O potencial do subsolo alemão
Segundo a empresa israelita, a Alemanha reúne condições geológicas ideais para implementar este tipo de solução em larga escala.
Existem, no país, mais de 400 cavernas salinas que poderão ser utilizadas como reservatórios de ar comprimido. Cada caverna terá capacidade para armazenar energia suficiente para abastecer entre 30 mil a 50 mil lares.
Escreve a mesma fonte que, no seu conjunto, estas estruturas poderiam armazenar até 65% do consumo elétrico anual da Alemanha. Caso se concretize, esta capacidade tornaria o país num dos líderes europeus em armazenamento renovável, com impacto direto na segurança energética da região.
Eficiência e durabilidade
A eficiência atual do sistema ronda os 47%, mas a Augwind Energy estima que as futuras versões comerciais possam atingir valores superiores a 60%. Embora inferior à de algumas baterias de iões de lítio, esta eficiência compensa-se pela durabilidade, facilidade de manutenção e custos operacionais reduzidos.
Explica a empresa que, ao contrário das baterias químicas, as cavernas de ar comprimido não sofrem degradação significativa com o tempo. Podem funcionar durante décadas, com baixos custos de manutenção e sem necessidade de substituição frequente de componentes.
Um projeto para 2028
A primeira instalação de demonstração já se encontra em funcionamento, segundo a Augwind. O próximo passo será garantir o financiamento e os acordos necessários com comerciantes de energia, entidades reguladoras e proprietários das cavernas. O objetivo é ter a primeira instalação comercial operacional até ao ano de 2028.
Este prazo inclui a adaptação das infraestruturas existentes, testes em condições reais e a integração com a rede elétrica alemã. A empresa espera, ainda, que o projeto sirva de referência para outros países europeus que enfrentem os mesmos desafios.
Europa de olhos postos no subsolo
França, Países Baixos e Polónia estão entre os países que já manifestaram interesse na tecnologia, segundo informações da empresa. Portugal, embora com menor número de formações salinas, poderá acompanhar a evolução da AirBattery, tendo em conta a sua aposta crescente em fontes renováveis.
A possibilidade de transformar formações naturais em baterias gigantes oferece uma nova perspetiva sobre o armazenamento de energia. Se resultar, esta solução poderá alterar o equilíbrio energético europeu, reduzindo a dependência de importações e aumentando a resiliência das redes elétricas.
O futuro pode estar escondido
Com os desafios do clima e da geopolítica a pressionar o setor energético, encontrar formas seguras e sustentáveis de guardar energia tornou-se prioridade.
A ideia de usar cavernas subterrâneas pode parecer improvável à primeira vista, mas está cada vez mais próxima de se tornar uma realidade, e o futuro da energia na Europa pode mesmo passar pelo que está debaixo dos nossos pés.
















