Quarteira recebe, entre 25 e 27 de setembro, o II Encontro de Teatro Comunitário, promovido pelo JAT – Janela Aberta Teatro, numa programação gratuita que reúne espetáculos, cinema, conversas abertas, workshops, exposição fotográfica e gastronomia comunitária no Calçadão da cidade.
Depois da primeira edição, realizada em 2024, o encontro regressa com o objetivo de consolidar um espaço dedicado à partilha de experiências e à valorização das práticas artísticas participativas, reunindo grupos provenientes do Algarve, Norte e Centro do país.
A abertura, na sexta-feira, 25 de setembro, fica marcada pela estreia da primeira parte do documentário “Ninguém sem Teatro”, realizado e editado por Miguel Martins Pessoa, antecedida por uma apresentação de Duarte Baltazar, jornalista da RTP.
Rodado durante cinco meses em seis países da América Latina, o filme reúne entrevistas a 16 grupos de teatro, a partir de cerca de 800 horas de gravação, e procura evidenciar o papel das artes performativas nas comunidades, envolvendo cidadãos com idades entre os 4 e os 104 anos.
No documentário, Adhemar Bianchi, diretor artístico do coletivo argentino Catalinas Sur, afirma: “Fala-se muito da arte enquanto elemento transformador. Nós acreditamos que o fundamental do conceito de transformação tem a ver com o momento em que conseguimos que um núcleo de pessoas de um território, de diferentes idades e formações, se ponha de acordo para criar algo e o manter no tempo. Voltar ao «nós» enquanto conceito parece-nos ser o que há de mais transformador.”
Experiência na América Latina inspirou trabalho desenvolvido pelo JAT no Algarve
Segundo o JAT, a experiência de rodagem de “Ninguém sem Teatro” constituiu uma referência teórica e prática para o trabalho de enraizamento social, participação democrática, mediação e criação coletiva que a companhia desenvolve no Algarve desde 2018.
Esse percurso, desenvolvido sobretudo em Quarteira e Faro, recebeu recentemente uma Menção Honrosa no Prémio Acesso Cultura – Mickaella Dantas 2026, reconhecimento que será igualmente assinalado durante o encontro.
A componente comunitária estende-se também à identidade visual da edição deste ano. A imagem do evento foi criada pela ilustradora local Isadora Faísca, vencedora da Open Call promovida pelo JAT, numa proposta que procura aproximar artes gráficas e performativas em torno da participação social.
Quatro espetáculos levam memória, ambiente e cidadania ao palco
A programação integra quatro espetáculos de coletivos comunitários que utilizam o teatro como espaço de participação e reflexão.
O Grupo de Teatro de Rio Maior / Beleza Teatro apresenta “Somos Todos S. João”, integrado no projeto “Somos Todos um Rio”, promovido pela Câmara Municipal de Rio Maior em parceria com o Beleza Teatro e o Coletivo RG.
O projeto abrange as 10 freguesias do concelho e procura descentralizar a oferta cultural e levar ao palco memórias das populações locais. Com encenação de Rui Germano, “Somos Todos S. João” centra-se na identidade da União de Freguesias de S. João da Ribeira e Ribeira de S. João.
Construído a partir de um processo de pesquisa e escuta da comunidade, o espetáculo recupera episódios como a fuga de touros bravos provenientes das lezírias, a atividade da fábrica do tomate e a tradicional matança do porco.
Do norte do país chega o Grupo de Teatro Comunitário do Campo, criado em outubro de 2021 e sediado no Campo do Gerês, integrado na Associação Cultural Rural Vivo.
O coletivo reúne participantes de Terras de Bouro, Barcelos, Guimarães, Braga, Vieira do Minho e Montalegre e funciona de forma autogerida, contando com apoio de entidades como as fundações Calouste Gulbenkian e “la Caixa” e a Direção-Geral das Artes.
Em “A Céu Aberto”, espetáculo multidisciplinar construído a partir de jogos do Teatro do Oprimido e com direção artística de Renata Flaiban, os animais do campo reúnem-se em assembleia depois de perceberem que uma das respostas humanas às alterações climáticas passa pela mineração de lítio a céu aberto.
A criação aborda, através do humor e da crítica social, os impactos ambientais desta atividade e as interrogações em torno do futuro do mundo rural.
Grupos de Quarteira e Faro levam preocupações locais à cena
O Grupo de Teatro Comunitário de Quarteira, anfitrião do encontro, apresenta “Estamos Lixados!”. Criado pelo JAT em 2018, o projeto reúne vizinhos com idades entre os 5 e os 83 anos, provenientes de diferentes origens e contextos sociais.

Desenvolvido em parceria com a Junta de Freguesia de Quarteira e com o apoio da Câmara Municipal de Loulé, o grupo procura promover a coesão social, combater estigmas e incentivar a participação cidadã.
Em “Estamos Lixados!”, o coletivo coloca em cena uma mesa de discussão aberta em torno das preocupações da população perante a sazonalidade, transformando-as em teatro, música e percussão corporal e propondo uma reflexão sobre ciclos recorrentes da história local.
De Faro chega o Teatro de VizinhEs, grupo nascido de um convite do Teatro das Figuras e da Câmara Municipal de Faro ao JAT para a criação do espetáculo “SAI DA FRENTE” e que, entretanto, se consolidou como estrutura permanente na cidade.
Aberto à participação de pessoas com ou sem experiência teatral, o coletivo utiliza a criação artística como instrumento de reflexão social.
Em “Urgente”, uma criação tragicómica, o grupo aborda a saúde pública e a relação entre SNS e SOS a partir da frase: “O país está doente, o médico é privado. Tenho de ser paciente, com o dinheiro contado.”
A obra propõe, segundo a organização, um olhar crítico sobre a saúde pública num contexto marcado por tempos de espera prolongados.
Ao longo dos três dias, o II Encontro de Teatro Comunitário completa a programação com conversas abertas, workshops, exposição fotográfica e momentos de gastronomia comunitária, numa iniciativa que o JAT apresenta como construída da comunidade para a comunidade.
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