A promessa de um carro elétrico com autonomia para percorrer milhares de quilómetros sem recarregar volta a surgir, agora vinda da Coreia do Sul. Investigadores de três universidades daquele país afirmam ter desenvolvido uma solução tecnológica capaz de multiplicar por dez a capacidade atual das baterias. A proposta baseia-se na substituição do ânodo tradicional por um composto inovador, resolvendo limitações técnicas que há anos travam a evolução neste campo.
De acordo com o Notícias Automotivas, a maioria das baterias de lítio utiliza ânodos de grafite, material cuja estabilidade e custo o tornaram o padrão da indústria. Contudo, o silício é há muito tempo apontado como alternativa promissora, sobretudo pela sua densidade energética superior. O problema? A instabilidade física do material durante os ciclos de carga e descarga, que o leva a expandir e contrair, provocando fissuras e perda de desempenho.
Silício: um velho conhecido com novos truques
Investigadores sul-coreanos liderados por Soojin Park, Youn Soo Kim e Jaegeon Ryu afirmam ter encontrado um caminho viável para contornar esse problema. Conforme a mesma fonte, a inovação está num ligante polimérico capaz de manter o ânodo de silício estável mesmo sob ciclos intensivos.
Trata-se de um composto formado por camadas de polímeros carregados que controlam a expansão volumétrica do material. O mecanismo envolve interações moleculares reversíveis, baseadas tanto em ligações de hidrogénio como em forças eletrostáticas entre cargas opostas, significativamente mais fortes.
Segundo os cientistas, esta estrutura permite uma gestão mais eficaz da integridade do ânodo e da condução de iões, garantindo longevidade e eficiência energética.
O que muda com os novos polímeros
A nova tecnologia também incorpora polietilenoglicol, responsável por regular as propriedades físicas do sistema e facilitar a difusão de iões de lítio. O resultado é um eletrodo mais espesso e com maior densidade energética, o que, segundo os cálculos da equipa, poderá permitir a criação de um carro elétrico com autonomia de até 5.000 quilómetros com uma única carga.
Este valor, acrescenta a publicação, representa uma capacidade dez vezes superior à das baterias de iões de lítio atualmente em circulação.
Para efeitos comparativos, um automóvel com autonomia de 500 km poderia, com a nova tecnologia, percorrer a distância entre o extremo sul e o extremo norte do Brasil, de Rio Grande (RS) a Cruzeiro do Sul (AC), sem parar para recarregar.
Desempenho muito além do esperado
Segundo a mesma fonte, esta evolução poderá colocar em xeque a aposta recente em modelos híbridos de ultra longa distância, nomeadamente os super híbridos chineses que já ultrapassam os 2.000 km de autonomia combinada.
Neste contexto, a promessa de 5.000 km com uma só carga reabre o debate sobre a viabilidade dos veículos totalmente elétricos em trajetos interurbanos e de longa duração. Se confirmada, a tecnologia pode reverter a tendência atual de priorizar a combinação entre motores térmicos e eléctricos.
Da teoria à prática industrial
Ainda assim, a aplicação comercial da descoberta continua sem previsão. A tecnologia, apesar de promissora, precisa de passar por mais testes, validações e, sobretudo, pela complexa transição para a produção em escala industrial.
O desenvolvimento de infraestruturas de produção e o custo de materiais também serão determinantes para definir a viabilidade do sistema.
Além disso, as parcerias com fabricantes automóveis e os ensaios de segurança e durabilidade terão papel crucial nos próximos passos. Mesmo com grande densidade energética, o novo ânodo precisa demonstrar estabilidade prolongada sob condições reais de utilização.
Impacto na mobilidade e na indústria
Enquanto isso, fabricantes de automóveis e empresas de tecnologia energética mantêm os olhos postos neste tipo de avanço, que poderá mudar o paradigma atual da mobilidade elétrica.
O impacto nas cadeias de abastecimento de matérias-primas como o grafite, bem como nos sistemas de carregamento, também deverá ser significativo caso a inovação se confirme.
A eventual transição para o silício poderá redistribuir o valor na cadeia de fornecimento global, favorecendo países com maior acesso a silício industrializável e menor dependência do lítio e grafite extraídos em regiões politicamente instáveis.
Questão de tempo (e investimento)
De acordo com o Notícias Automotivas, as universidades sul-coreanas envolvidas ainda não avançaram com datas para publicação comercial da tecnologia, nem esclareceram o grau de maturidade industrial alcançado.
O avanço, embora ainda sem cronograma definido, volta a colocar o carro elétrico no centro da discussão sobre o futuro dos transportes. A questão agora passa por saber se a inovação conseguirá, de facto, sair do laboratório e chegar às estradas.
















