O filme Terra Vil, primeira longa-metragem de ficção de Luís Campos, estreia esta semana nas salas de cinema portuguesas, com exibição em várias cidades do país. No Algarve, integra o circuito comercial em Portimão e Lagos, estando também previstas sessões pontuais em Tavira, São Brás de Alportel, entre outros locais.
A obra evoca a tragédia da queda da ponte Hintze Ribeiro, em Entre-os-Rios, ocorrida em 2001, e conta no elenco com Ruben Gomes, Lúcia Moniz, José Martins e o estreante William Cesnek. Antes da estreia nacional, o filme foi exibido em festivais internacionais como a Mostra Internacional de São Paulo, o Tallinn Black Nights e o Festival de Gotemburgo. A chegada às salas portuguesas decorre em articulação com o Plano Nacional de Cinema (PNC), que emitiu uma carta de recomendação.
Um retrato social e humano marcado pela tragédia
Em Terra Vil, o espectador acompanha João, um rapaz de 12 anos que vive nas margens do rio Douro com o pai, António, homem vulnerável e com problemas de alcoolismo. Na casa ao lado reside Teresa, com as suas duas filhas adolescentes. Entre os cinco estabelece-se uma dinâmica familiar disfuncional, profundamente ligada à prática ancestral da pesca e venda de lampreia.
O filme constrói uma reflexão sobre a vida económica, social, cultural e mental no Portugal das primeiras décadas do século XXI, cruzando o quotidiano das populações ribeirinhas com o luto coletivo provocado pela queda da ponte. A narrativa aborda ainda o declínio de modos de vida seculares, pressionados pelas alterações climáticas e pelas transformações sociais, bem como a persistência de formas de violência familiar e, em contraponto, a relação de amor entre pai e filho.
Cinema e educação: recomendação do Plano Nacional de Cinema
O Plano Nacional de Cinema recomenda a visualização da obra em contexto pedagógico, destacando dimensões como a representação do bullying em meio escolar, a evocação de uma aula de Ciências Naturais sobre proteção ambiental e lampreia – articulável com disciplinas como História, Filosofia ou Cidadania e Desenvolvimento – e o papel das instituições educativas na mitigação de problemáticas familiares.
A força das tradições, a influência da Igreja Católica nas práticas sociais e a relação pessoal com o sagrado são igualmente exploradas na narrativa, que se distingue por opções estéticas e éticas marcadas por uma forte comunhão com a natureza.
Sobre o filme, o realizador afirma: “era importante para mim veicular uma sensação de esperança através deste filme. Não apenas pelo seu viés progressista e otimista, que pauta a forma como encaro a vida, mas porque entendo que este filme tem o potencial de ser um gesto de conforto para qualquer jovem que possa estar a lidar com uma problemática semelhante no seu contexto familiar e que não tenha ainda a perceção do poder da partilha da sua vulnerabilidade e dos seus anseios”.
Terra Vil apresenta-se, assim, como uma obra que convoca memórias individuais e coletivas, evocando fantasmas identitários, mas também propondo um olhar de esperança através de silêncios, sombras, luz e humanidade.
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