Lídia Jorge recebeu, em Loulé, a Medalha de Mérito Cultural, numa cerimónia que juntou várias personalidades da vida pública, política e cultural da região no Solar da Música Nova, “casa” do Conservatório de Música de Loulé – Francisco Rosado.
A distinção foi entregue pela ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, em nome do Governo, poucos dias antes de a escritora celebrar 80 anos, assinalados a 18 de junho.

Segundo o Município de Loulé, a homenagem pretendeu reconhecer um percurso de 50 anos de uma das maiores figuras do pensamento europeu contemporâneo, cuja obra se tem centrado na memória, na condição humana e na democracia.
Escritora reafirma ligação ao Algarve e a Loulé
Visivelmente emocionada, Lídia Jorge assumiu a distinção como um momento “inesquecível”, sublinhando a importância de a homenagem acontecer “ao fim da tarde, entre amigos”, na sua terra natal.

No discurso, a escritora reafirmou o orgulho nas suas origens e a ligação ao Algarve. “Por natureza, e não por plano, nunca enjeitei o espaço da origem. Pelo contrário, fui somando à experiência primordial da infância, sucessivos círculos concêntricos que se foram alargando, pelas vivências geograficamente longínquas que a vida me tem proporcionado”, afirmou.
A escritora acrescenta que “a propósito desta fidelidade intrínseca, certa vez escrevi sobre este sentimento de pertença – Algarve, minha primeira pátria. O resto do mundo é apenas o seu deslumbrante prolongamento. E assim é. Por isso, Senhora Ministra, à Medalha de Mérito de âmbito nacional, que me atribui, eu devo acrescentar – Medalha de Mérito atribuída em Loulé, Algarve. Esta localização precisa não a restringe, aumenta-a”, declarou.

Para Margarida Balseiro Lopes, a distinção reconhece o impacto internacional da obra de Lídia Jorge e o seu contributo para a cultura nacional. A ministra destacou ainda a relevância de “O Dia dos Prodígios”, primeiro livro da autora, publicado em 1980, considerando-o “uma das obras mais marcantes da literatura portuguesa do pós-25 de Abril”.
Dino D’Santiago homenageia percurso literário
O músico Dino D’Santiago foi chamado a assumir o papel de “padrinho mais jovem” da homenagem, dirigindo palavras de admiração e amizade à escritora louletana.
“Lídia Jorge nasceu a 18 de junho de 1946. O céu sorriu! Sorriu porque, de vez em quando, nasce alguém capaz de recordar à Humanidade aquilo que ela se esforça tanto por se esquecer: a sua própria Humanidade!”, afirmou o artista.

Recordando as raízes da romancista em Boliqueime, Dino D’Santiago descreveu Lídia Jorge como “filha daqueles que conhecem o peso do sol sobre os ombros” e destacou o legado humano da sua obra. “Há pessoas que herdam propriedades, outras herdam apelidos, Lídia Jorge herdou uma coisa mais rara: o conhecimento profundo da condição humana”, afirmou.
O músico acrescentou ainda que, “num tempo em que tanto se escolhe o ruído, ela escolheu escutar”, defendendo que a obra da autora permanece viva porque “não nasce da ideologia, nasce da compaixão, uma forma superior de inteligência”.
Lídia Jorge será patrona da candidatura de Loulé
Também Telmo Pinto, presidente da Câmara Municipal de Loulé, destacou a ligação afetiva da escritora a Boliqueime e ao concelho, lembrando “a cidadã que ama a sua terra”.
O autarca sublinhou a capacidade de Lídia Jorge transformar histórias simples e a memória coletiva algarvia numa dimensão universal. “Nunca esqueceu as suas raízes e, mesmo quando escreve para o mundo, continua a escrever a partir daqui deste nosso Sul de luz”, afirmou.

Telmo Pinto acrescentou que a escritora “leva-nos daqui para o mundo, mas também traz o mundo até nós”, considerando-a um exemplo para as novas gerações pela “profundidade, o pensamento crítico, a integridade”.
Durante a cerimónia, o presidente da Câmara anunciou que Lídia Jorge será patrona e figura cimeira da candidatura de Loulé a Capital Portuguesa da Cultura em 2028.
Num dia em que a ministra participou também num fórum em Tavira sobre cultura digital e novas tecnologias, Lídia Jorge defendeu que, perante o avanço da Inteligência Artificial, “a Literatura e a Poética representam, nos meios da Linguagem, o último porto seguro de resistência à robotização do pensamento, à artificialidade, à despersonalização e à homogeneização”.
Para a autora, a tecnologia não deve alarmar os criadores. “Nenhuma máquina poderá rivalizar com a capacidade criativa que nós, os seres humanos, detemos, a capacidade de juntar o que nunca foi reunido antes, e a esse compositum novo, que se forma em cada um de nós se chama criação”, afirmou.
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