A utilização de materiais tradicionais do Algarve para desenvolver novos produtos destinados à arquitetura, ao design e à construção sustentável esteve em destaque na apresentação dos resultados do projeto Matéria Adentro, realizada a 22 de outubro, no auditório da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve, em Faro. A iniciativa reuniu mais de 50 participantes e deu a conhecer propostas que procuram valorizar recursos naturais e saberes tradicionais da região.

Sob o tema “Matéria Adentro: Novos caminhos para os materiais do território”, a sessão apresentou os resultados de várias residências criativas, que envolveram artesãos, designers, arquitetos, investigadores e unidades produtivas na procura de novas aplicações para a cana, a casca de ostra, o barro e a taipa.
O encontro permitiu também discutir os desafios que se colocam à transformação destas experiências em produtos comercializáveis, nomeadamente ao nível da certificação, da integração no mercado e da utilização de recursos locais em projetos de construção sustentável.
Cana e casca de ostra estudadas para novas soluções de construção
Entre os resultados apresentados estiveram experiências que exploram a utilização da casca de ostra em diferentes misturas de materiais, incluindo taipa, cal e barro.

O trabalho foi apresentado por Graça Palma, da Proactivetur, que deu a conhecer as possibilidades de valorização deste recurso através da sua incorporação em novos produtos.
Na área da cana, Susana Carmo e Cláudia Martins apresentaram três propostas destinadas ao isolamento térmico, desenvolvidas através de um processo que incluiu investigação, experimentação, avaliação e aperfeiçoamento.
Estas soluções procuram explorar as características dos recursos disponíveis no território algarvio, associando a utilização de materiais tradicionais a novas aplicações técnicas.
As propostas resultaram de um processo de colaboração entre diferentes profissionais, procurando aproximar o conhecimento artesanal das necessidades atuais da arquitetura, do design e da construção.
Barro e taipa ganham novas aplicações no mobiliário urbano e na arquitetura
O projeto explorou igualmente novas possibilidades de utilização do barro, através de uma colaboração com os Telheiros de Santa Catarina.
Os resultados desta residência criativa foram apresentados por Fraukje Eline Vooijs e Alexandra Gonçalves, que destacaram o conhecimento associado à produção artesanal de barro e a sua aplicação em novos produtos.

Entre as propostas desenvolvidas encontram-se ladrilhos vidrados e não vidrados, elementos de telha e tijolo que permitem criar soluções modulares para a separação de espaços, bem como azulejos inspirados na esteva e na paisagem serrana.
Na área da taipa, Pedro Pereira apresentou um banco modular instalado no Jardim da Alameda, em Faro, demonstrando uma possível aplicação desta técnica tradicional de construção ao mobiliário urbano.
A experiência procura explorar novas utilizações da terra crua em espaços públicos, associando métodos construtivos tradicionais a soluções contemporâneas.
Certificação e comercialização são desafios para os novos produtos
A passagem das propostas experimentais para o mercado foi um dos principais temas debatidos durante a sessão.
A mesa-redonda “Caminhos Práticos para os Materiais do Território” reuniu Ana Lúcia Cruz, do CRIA da Universidade do Algarve, Paula Cayolla Trindade, da ESPAP, Teresa Correia, vice-presidente da CCDR Algarve para a área do Ambiente, e Fraukje Eline Vooijs, da Perto Arquitetura.

Durante o debate foram analisadas as dificuldades relacionadas com a certificação e a comercialização dos produtos, bem como as possibilidades de integração dos materiais locais nos procedimentos de contratação pública.
Os participantes discutiram ainda a necessidade de desenvolver cadeias de valor capazes de transformar resíduos em matérias-primas, contribuindo para uma utilização mais eficiente dos recursos disponíveis.
Ana Lúcia Cruz reconheceu o potencial das propostas apresentadas, mas salientou a necessidade de concretizar novas etapas antes da sua entrada no mercado.
Por sua vez, Fraukje Eline Vooijs destacou as possibilidades de desenvolvimento das quatro áreas de investigação, dando particular atenção às soluções criadas em colaboração com os telheiros, que já suscitaram interesse de potenciais clientes.
Projeto procura valorizar recursos e saberes tradicionais do Algarve
A sessão contou, na abertura, com intervenções do presidente da CCDR Algarve, José Apolinário, da diretora da Unidade de Planeamento e Desenvolvimento Regional da CCDR Algarve, Lurdes Serpa Carvalho, do presidente do NERA, Vítor Neto, e de João Costa, em representação do Município de Faro.
O enquadramento do projeto e das residências criativas foi apresentado por Graça Palma, da Proactivetur, que explicou os objetivos, a metodologia de trabalho e as dificuldades encontradas durante o desenvolvimento das propostas.
O Matéria Adentro integra o “Programa de Desenvolvimento de Novos Produtos baseados em Materiais Endógenos Inspirados na Dieta Mediterrânica”, desenvolvido no âmbito do INOVA ALGARVE 3.0 – Promoção da Qualificação e Inovação na Região do Algarve.
A iniciativa é dinamizada pela Proactivetur e cofinanciada pelo Programa Regional Algarve 2030, tendo como principal objetivo estimular a criação de produtos a partir de recursos locais, promovendo a sua valorização económica e cultural.

Inspirado nos valores da Dieta Mediterrânica, o projeto procura estabelecer uma ligação entre o conhecimento tradicional, a inovação e os princípios da economia circular, contribuindo para a diversificação da economia regional e para a continuidade das atividades artesanais.
As residências criativas foram desenvolvidas a partir da identificação de recursos e agentes locais, envolvendo empresas, artesãos, designers, arquitetos e investigadores na experimentação de diferentes soluções.
Os resultados apresentados em Faro constituem uma base para o desenvolvimento futuro dos produtos, embora permaneçam desafios relacionados com a sua certificação, comercialização e adoção pelo mercado.
A continuidade da colaboração entre produtores, profissionais criativos, investigadores e entidades de apoio é apontada como essencial para transformar as propostas em soluções com aplicação prática, valorizando os recursos naturais e o património artesanal do Algarve.
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