Independentemente do destino, da companhia aérea ou do tipo de aeronave, o gesto repete-se em quase todos os aeroportos do mundo. Os passageiros entram e saem do avião pelo lado esquerdo. Esta prática, aparentemente banal, não resulta de uma escolha aleatória nem de uma decisão recente. Trata-se de uma regra com raízes históricas profundas, herdada de outros meios de transporte e mantida por razões de eficiência, segurança e organização operacional.
De acordo com Michael Oakley, editor-chefe do The Aviation Historian, site especializado em história da aviação, muitas das convenções da aviação moderna nasceram da navegação marítima. A linguagem técnica é um exemplo disso, mas também o modo como as aeronaves são abordadas em solo.
Tal como os navios atracam tradicionalmente pelo lado de bombordo, que corresponde ao lado esquerdo, os primeiros aviões adotaram o mesmo princípio. Segundo a mesma fonte, a continuidade dessa prática foi considerada sensata quando a aviação comercial começou a ganhar escala.
Uma herança vinda do mar
Durante décadas, o transporte marítimo foi a principal referência em termos de logística e procedimentos. Quando a aviação começou a desenvolver-se, era natural que seguisse modelos já testados.
O lado esquerdo das embarcações era aquele que ficava voltado para o cais, facilitando o embarque de passageiros e mercadorias. Esta lógica foi transposta para os aviões numa fase em que as infraestruturas aeroportuárias ainda eram rudimentares.
À medida que os aviões se tornaram maiores e mais complexos, a separação de funções em torno da aeronave ganhou importância. O embarque de passageiros passou a ser feito exclusivamente pelo lado esquerdo, enquanto o lado direito ficou reservado para o carregamento de bagagens, abastecimento e serviços de catering. Esta divisão permitiu reduzir interferências entre passageiros e equipas de solo, melhorando a eficiência das operações.
A experiência que não correu bem
Nem sempre esta regra foi seguida de forma absoluta. Nos anos 30 do século passado, a United Airlines decidiu testar o embarque pelo lado direito. A experiência, no entanto, revelou-se pouco prática. Com o aumento do tráfego aéreo e do número de passageiros, o processo tornava-se mais confuso e menos eficiente. A companhia acabaria por regressar ao método tradicional, numa altura em que a aviação começava a afirmar-se como meio de transporte de massas.
Outro fator determinante foi a posição do piloto na cabine. Tradicionalmente, o comandante senta-se à esquerda, o que lhe permite ter uma perceção mais precisa da distância em relação ao terminal ou ao portão de estacionamento. Esta vantagem tornou-se particularmente relevante com o crescimento dos aeroportos e a necessidade de manobras cada vez mais rigorosas em solo.
A padronização nos aeroportos modernos
Com o desenvolvimento de aeroportos mais complexos e a introdução das pontes de embarque, a uniformização dos procedimentos passou a ser essencial. Ter todas as aeronaves a operar da mesma forma simplifica a gestão do espaço e reduz riscos operacionais. Os passageiros entram e saem pelo lado esquerdo, enquanto o trabalho técnico decorre em paralelo, sem cruzamentos desnecessários.
Segundo o The Aviation Historian, esta padronização é um exemplo claro de como decisões tomadas no passado continuam a influenciar a aviação contemporânea. A prática mantém-se não por tradição cega, mas porque continua a ser funcional num sistema altamente regulado e dependente de rotinas precisas.
O que começou como uma herança da navegação marítima acabou por se transformar numa regra global, seguida diariamente por milhões de passageiros que raramente se interrogam sobre o motivo de embarcarem sempre pelo mesmo lado.
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