Para milhões de pessoas, beber café é uma das primeiras rotinas do dia. Há quem prefira um expresso simples, mas também quem acrescente leite, açúcar, xaropes ou produtos destinados especificamente a tornar a bebida mais doce e cremosa. É precisamente um destes últimos hábitos que levou dois oncologistas ouvidos pela revista norte-americana Parade a deixar um conselho: evitar o consumo diário de determinados cremes para café, conhecidos nos Estados Unidos como coffee creamers.
Apesar do título apelativo do alerta, há uma ressalva essencial. Os especialistas não afirmam que adicionar este produto ao café provoque diretamente cancro. A preocupação está sobretudo na composição de algumas versões e no efeito acumulado de uma alimentação rica em produtos ultraprocessados e açúcares adicionados.
Afinal, o que é o ingrediente que preocupa os oncologistas?
O produto referido é o chamado coffee creamer, muito popular nos Estados Unidos. Apesar de poder ser traduzido como “creme para café”, não se trata necessariamente de natas ou leite. Muitas versões são produtos industriais, inclusive não lácteos, desenvolvidos para tornar o café mais cremoso e doce.
Dependendo da marca e da fórmula, podem conter açúcares adicionados, adoçantes, óleos e vários aditivos. Foi precisamente este tipo de produto que a oncologista Asma Dilawari, diretora médica da Thyme Care e antiga responsável médica da FDA, disse não recomendar para consumo habitual, sobretudo nas versões não lácteas mais processadas.
“Não há evidência direta forte” de que cause cancro
Este é o ponto mais importante para interpretar corretamente o aviso. Jitesh Joshi, oncologista e hematologista no Houston Methodist Clear Lake Hospitals, explicou à Parade que “não há evidência direta forte” de que o creme para café, os aditivos alimentares ou os adoçantes artificiais provoquem cancro. Ou seja, beber ocasionalmente café com este tipo de produto não equivale a ingerir uma substância que se saiba causar diretamente um tumor.
A preocupação dos especialistas é mais abrangente: um produto deste género, consumido todos os dias, pode integrar uma dieta rica em açúcar e alimentos ultraprocessados. E é o padrão alimentar ao longo do tempo, muito mais do que um ingrediente isolado numa chávena, que merece atenção.
Produtos ultraprocessados estão sob investigação
Existe evidência científica que associa um consumo mais elevado de alimentos ultraprocessados a resultados desfavoráveis para a saúde. A Agência Internacional de Investigação em Cancro (IARC), organismo da Organização Mundial da Saúde, divulgou em 2023 os resultados de um estudo realizado com mais de 266 mil pessoas de sete países europeus.
Os investigadores encontraram uma associação entre maior consumo de alimentos ultraprocessados e um risco superior de desenvolver simultaneamente doenças como cancro, doença cardiovascular e diabetes. Isto não demonstra que todos os alimentos ultraprocessados provoquem cancro, nem que todos apresentem o mesmo risco. A própria investigação nesta área procura perceber quais os produtos e mecanismos que explicam melhor as associações encontradas.
Açúcar também entra nas preocupações
Nas versões mais doces, outro problema pode ser a quantidade de açúcar acrescentado ao café sem que o consumidor dê grande importância ao gesto. O açúcar, por si só, não é apresentado pelos oncologistas como um alimento que diretamente “alimenta” um cancro. O problema é indireto. O consumo frequente de alimentos e bebidas muito calóricos e ricos em açúcar pode contribuir para aumento de peso. E o excesso de peso e a obesidade estão associados a um risco superior de vários tipos de cancro.
Os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos referem uma associação entre excesso de peso ou obesidade e 13 tipos de cancro. É por isso que Joshi sublinha que a principal preocupação é o efeito cumulativo de uma alimentação rica em produtos ultraprocessados e açucarados, e não uma única chávena de café.
Então deve deixar de beber café?
Não é essa a recomendação. O alerta refere-se ao que é adicionado à bebida, não ao café em si. A Agência Internacional de Investigação em Cancro analisou mais de mil estudos antes de concluir que a evidência disponível não permitia classificar o consumo de café como cancerígeno para os seres humanos.
A análise encontrou mesmo riscos inferiores de alguns tumores, nomeadamente do fígado e do endométrio, entre consumidores de café, embora isso não permita concluir que beber café previne necessariamente um determinado cancro em cada pessoa. Portanto, quem bebe um café simples todas as manhãs não deve interpretar este alerta como uma recomendação dos oncologistas para abandonar a bebida.
O café muito quente merece outro cuidado
Há, contudo, uma questão diferente relacionada com a temperatura. A IARC classificou o consumo de bebidas muito quentes, acima de aproximadamente 65 ºC, como provavelmente cancerígeno para os seres humanos devido à associação observada com cancro do esófago.
O fator relevante neste caso parece ser a temperatura muito elevada, e não especificamente o café. Por isso, deixar uma bebida demasiado quente arrefecer antes de a consumir é uma precaução distinta daquela relacionada com açúcar ou cremes processados.
O que pode acrescentar ao café em alternativa?
Para quem não gosta de beber café simples, os médicos ouvidos pela Parade apontam alternativas menos processadas. Entre as opções mencionadas estão leite, pequenas quantidades de natas e bebidas vegetais sem açúcares adicionados, escolhendo preferencialmente produtos com listas de ingredientes mais simples.
A recomendação não significa que seja necessário proibir completamente um café mais doce ou cremoso. A ideia é evitar transformar diariamente uma bebida relativamente simples num produto carregado de açúcar e ingredientes ultraprocessados.
















