Por vezes, parece haver uma obscenidade que se infiltra na saliência de certas palavras. Sobressaem dos textos lavrados como se saíssem da lâmpada de Aladino, esse objeto mágico que, na esfrega, se obtém tudo o que se deseja. É dessa palavra que se faz a arte ritualística do figurino das caixas de texto, geralmente com o pretexto escolhido para sovar políticos, como sintoma do seu fracasso.
Foi o caso da fragilização da “aura” dos professores, invocada pelo atual ministro da educação. Alinhado com o pensamento de Walter Benjamin, num ensaio que tem como título “A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica”, e embora aqui num registo de duvidosa transposição, certamente que o ministro permitirá que com ele concorde quanto ao efetivo esboroamento do prestígio social dos professores. É um facto que o seu capital de reputação já não é mais o que era.
Sem recurso ilustrado à História recente, por não ser historiador, permitir-me-á uma pequena e atrevida incursão mnemónica, com recurso ao questionamento de alguns motivos que, a meu ver, fizeram erodir a fama ou renome da aura dos docentes, no nosso espaço público.
Não terá essa erosão começado a fazer-se sentir nos tempos de antanho, do ano de 2011, quando os cérebros qualificados que habitavam os crânios dos professores foram aconselhados, pela governança pouco ilustrada de então, a debandar, devendo “procurar emprego noutro sítio” acabando, em período posterior, por nos atufarmos no malfadado aprofundamento da crise da escola pública em Portugal?
Não terá essa crise estado bem patente na inaceitável desvalorização da carreira docente, com a combinação explosiva da posterior falta estrutural de professores no sistema educativo nacional, a deixar milhares de alunos sem aulas?
Embora sejamos assolados pelas dificuldades interpretativas dos tempos modernos, não pensa ser bem questionável que a professor algum agradaria que as manifestações viessem a ter tanta centralidade nas suas vidas, como a que tiveram?
Admitindo que quando o corpo é já frágil para suportar a dor ou o silêncio, como dar crédito à ideia de que a sua iniciativa de luta tinha subjacente um afago à heroicidade da sua alma lusa?
Não será consabido que os professores não teriam perdido a sua aura, se o Estado tivesse tratado a sua vida como se esta fosse uma obra de arte, passível de culto pelos alunos, em função da sua presença, atuação singular e marcante nas suas vidas?
Fazer advir da autoafirmação e resistência dos professores a imposição da indigente visão do mundo que os remeteu para precariedade, não pode sugerir, a qualquer título, o seu deliberado concurso para a perda da aura. Se essa perda foi vivida na mágoa e solidão dos professores, se o Estado persistia que fossem aprofundando a sua sujeição, tal suscitou, quando mais, a questão reflexa da perda da aura por parte dos governantes e da sua falta de sentido de Estado.
Se, em hipótese, essa crise parece ter tonalidades diversas, pode suscitar a ideia de que nela compareçam elementos que expõem o país a uma taxa de abandono escolar elevada, em comparação com a média europeia, e o acesso ao ensino superior demasiado dependente dos exames nacionais, dificultando o acesso dos estudantes mais desfavorecidos, porque a Ação Social Escolar está por hora da morte.
Que a quebra da aura dos professores está à vista de todos, não há dúvida. Ninguém mais ignora a realidade alarmante de que, no ensino secundário, os alunos avançam sem o conhecimento básico esperado, devido, nomeadamente, a elementos de ordem sistémica como a pressão para que sejam aprovados, a falta de métodos de ensino eficazes, a ausência de apoio familiar, o que leva as escolas a efetuarem passagens de ano a estudantes com defasagens, mesmo com problemas sérios de aprendizagem e avaliações que não refletem a realidade da aquisição de conhecimentos.
É óbvio que esta nossa Modernidade fez desabar um saber tradicional e a veneranda figura do professor, que a tal saber foi associado. O mundo mudou. Hoje, reconhecidamente, as relações entre professores e alunos são bem mais instrumentais. A perspetiva do aluno é a da nota e a da passagem fácil, embora se procure jogar no espaço público um manto kantiano do dever ser de relações multifacetadas, baseadas no diálogo, na colaboração, nos afetos e na autonomia dos alunos, num ambiente de confiança e de respeito mútuo.
Por outro lado, ninguém mais ignora a metáfora da “gaiola de ferro”, de Max Weber, em que o ensino público português se transformou, com a crescente racionalização e burocratização da vida académica, aprisionadora dos professores num sistema rígido e impessoal.
A ninguém mais é dado ignorar o absolutismo das desarticuladas e multivariadas plataformas, da organização pesada do ensino, da falta de integração dos novos professores, enfim de um cem número de situações que prevalecem sobre o estímulo ao desenvolvimento pessoal e ao incentivo da autonomia e da cidadania dos alunos, contribuindo para a formação de indivíduos mais preparados e conscientes para os desafios da sociedade.
Por fim, e a título meramente periférico, ou nem tanto, não será de observar, entre nós, no domínio pedagógico, alguns efeitos perniciosos, mas factuais, do advento da reprodutibilidade técnica com contributo adicional para que muita da sua aura dos docentes tenha vindo a ruir?
O ensino perdeu o encanto. Não são raros os que se demitem de ser professores, bricoleurs, contadores de estórias, fontes de alimento de imaginários à solta, de viver as relações com os alunos de corpo e alma, refugiando-se nos textos, como os velhos leitores da Idade Média.
O retorno do chamado lectio que, naquele período, envolvia o professor lendo o texto em voz alta, comentando-o e permitindo que o aluno tomasse notas, não terá equivalência no moderno administrador de powerpoint, que tende a reduzir o papel do professor ao do leitor? Mas esta é uma matéria que envolve a tecnicidade de uma profissão que continua tendo uma forma de transmissão predominantemente vocal, enquanto a rapaziada de agora tem a ilusão de ter o mundo na mão pela conexão das imagens dos telemóveis, que valem mais que mil palavras.
Não será a aura objeto de profunda erosão, com o exagerado uso desse powerpoint que é cópia, perdendo o docente, com isso, essa presença única, por conta de uma transformação que passa, em falha, no confronto de uma contemplação logocêntrica com a admiração da técnica e a participação das massas?
Por tudo isto, senhor ministro, lamento desiludir os seus opositores. A perda da aura dos professores é um dado inequívoco que se presta à minha concordância, embora por motivos bem distintos.
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