Naquele dia que entrava pela noite dentro, seria inevitável uma explosão de clubismo, por ocasião da contratação do egocêntrico “special one”. Percebo, pelas notícias, que o senhor prestígio, fama e fortuna seria seguido pelos media, do nascer ao pôr do Sol, com tanto ou maior fervor que os que acompanham um santo num andor, para festejarem o futuro. De candeias acesas noite e dia, os media iriam anotar os seus jejuados retiros espirituais, as horas dos treinos, das refeições diárias e da frequência aos servicios. Por certo que se iriam deixar envolver e tocar pela graça que jorra em grande abundância pela cabeça mentalista do Zé.
O país, engrandecido, entra num metafísico delírio, por conta da lenda a quem cumpre a desejável e não impossível missão (e vá lá alguém dizer que não), de restituição da glória e elevação do voo da águia à esfera armilar do campeonato luso, figura outrora emblemática da expansão marítima e da tecnologia náutica portuguesas.
Desde Saramago que não tínhamos ninguém assim, que, embora num outro registo, pudesse produzir um tratado filosófico de estratégia futebolística, como prestação de um valioso contributo à humanidade.
Qual doutorado em Sociologia Desportiva, o Zé deliciar-nos-á com a análise do desporto como um fenómeno social, investigando as suas interligações com a sociedade, a cultura, a política e a economia, fazendo com que o futebol deixe de constituir, em definitivo, um fenómeno sério de alienação de massas. Já há quem garanta que, a breve trecho, será convidado a lecionar numa reputada universidade portuguesa.
É seguro que, através das suas hiperlúcidas abordagens sociológicas, continuará a impor-se como figura ilustrada que a todos abraça com o impetuoso desejo de fazer compreender aspetos implícitos no desporto, como a desigualdade de género, a violência, o consumo e a construção de identidades, promovendo uma análise crítica e uma consciência social ímpar do papel do futebol na vida das pessoas e nas instituições sociais.
Só assim se compreende que, entre as conspirações arbitrais e um saber fazer da relva a leveza de passos e fintas, o Zé oculte o Almirante e o Ventura, mesmo que aquele nos devolva Olivença, que este persista na tese da conspiração gastronómica dos hambúrgueres e que Moedas fuja, como o diabo foge da cruz, do Godzilla que se soltou do elevador da Glória.
País de combatentes que não empunham espingardas, mas vestem o uniforme humano do voo da águia, como forte referencial identitário, os sócios, adeptos, fãs ou lá por quem se possam ter, são tão decisivos quanto aguerridos na frente das batalhas campestres, instituindo duelos com treinadores e jogadores quando estes lhes negam os prazeres das vitórias, assacando-lhes responsabilidades que tornam a violência justificável com pegas de caras, ou de cernelha, o que exige um grande esforço num concertado trabalho de equipa, à laia de forcados amadores.
E, num país onde, paradoxalmente, as elites democráticas parecem incentivar a plebe de certa forma a ficar desinteressada da política, a rapaziada quer lá saber que fechem maternidades, hospitais, escolas, tribunais, ao se acharem perante o meteórico e egocêntrico Zé, se ele tem como objetivo trabalhar a luz da carta constitucional do futebol mundial? Que se danem os médicos do SNS e os que o não são. Finalmente não será mais necessário curar diarreias com imodium. Bastará ver o Zé coçar os tintins e logo irromperá um eminente e sacro milagre da cura. Decididamente, não haverá mais arritmias cardíacas causadas por impactos naqueles doridos peitos, em resultado de entradas de leão (peço desculpa… de águia) e saídas de sendeiro porque ele vai transformar a Luz na cidade de Deus, de Stº Agostinho.
Ele, que está proibido de conseguir vitórias com menos de dois dígitos, terá sempre um lugar bem mais destacado no coração e na alma dos adeptos que os avantajados e anti-sistémicos eurodeputados de Bruxelas ou Estrasburgo que, ao contrário da sua pessoa, não precisam de ter curriculum para acesso a vidas invejáveis.
E, por cá, o Zé que fique tranquilo porque, por muita berraria que haja no Parlamento Nacional, as suas palavras sempre soarão a um fidelizado logos.
Dado que é um emigrante especial, de regresso à terra, sempre deverão ser avisados os incautos adeptos, fãs e apoiantes que não deverão ostentar aqueles vergonhosos e xenófobos cartazes, vaiando-o com slogans pouco integradores, do tipo “vai para a tua terra, volta para Setúbal”.
Por mim, que o acho merecedor de todas as honrarias, proponho que os fãs o tentem atacar com um vivo aperto de mão, em jeito de intenso abanico, se possível tão ou mais forte que o da desajeitada receção de Marcelo ao saudoso Papa Francisco.
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