Porventura, nunca como hoje se abre um jornal ou sintoniza um canal televisivo e se fica sem saber onde, exatamente, começa a verdade e termina a mentira; onde começa o comentário e termina a propaganda; onde começa a notícia e termina a publicidade.
Vivemos numa época em que somos permanentemente informados e, paradoxalmente, cada vez menos seguros daquilo que verdadeiramente sabemos. A informação chega-nos em torrentes, a qualquer hora, através dos jornais, da televisão, das redes sociais, dos telemóveis. Mas quantidade não é sinónimo de conhecimento. E velocidade não é sinónimo de verdade.
O problema talvez não esteja apenas em existirem notícias falsas. A mentira sempre existiu e sempre encontrou quem a produzisse e quem a difundisse. O que mudou profundamente foi a capacidade de a mentira se apresentar com a aparência da verdade, de circular à mesma velocidade que os factos e, muitas vezes, de chegar a milhões de pessoas antes de qualquer possibilidade de verificação.
Mais preocupante ainda é a crescente dificuldade em distinguir facto de opinião, informação de interpretação, jornalismo de propaganda e comunicação de persuasão. Há momentos em que já não se pretende propriamente informar o cidadão, mas conduzi-lo a uma determinada conclusão. Não se lhe oferecem os elementos para formar livremente uma opinião; oferece-se-lhe, já pronta, a opinião que deverá ter.
E quando tudo é apresentado como narrativa, a própria realidade começa a perder consistência.
Quando a informação se transforma em espetáculo
A comunicação social desempenha uma função essencial numa sociedade democrática. Mas também ela está sujeita às pressões do tempo, da audiência, da concorrência e, cada vez mais, das redes sociais.
A notícia que provoca indignação, medo ou revolta tende a ter mais impacto do que aquela que exige tempo, contexto e reflexão. A declaração polémica sobrepõe-se frequentemente à explicação. O acontecimento substitui o processo. A imagem substitui a análise.
E assim se vai instalando uma espécie de superficialidade informativa: sabemos imediatamente o que aconteceu, mas nem sempre sabemos porquê, em que contexto aconteceu, quais as suas consequências ou o que ficou por dizer.
O cidadão corre então o risco de ser simultaneamente excessivamente informado e insuficientemente esclarecido.
O regresso à lei do mais forte
Igualmente, porventura, nunca como hoje se viu o direito internacional ser substituído, em tantas circunstâncias, pela lógica da força.
Durante décadas procurou-se construir, com todas as suas imperfeições, uma ordem internacional assente em regras, tratados, instituições e princípios destinados a limitar o arbítrio dos Estados. Não se tratava de um sistema perfeito, longe disso. Mas existia a ambição de afirmar que a força, por si só, não poderia determinar o direito.
Hoje, essa ambição parece cada vez mais frágil.
Quando as normas internacionais são invocadas com firmeza perante uns e relativizadas perante outros; quando a condenação de determinadas violações depende da identidade de quem as pratica; quando os interesses estratégicos se sobrepõem aos princípios que publicamente proclamamos defender, a confiança na própria ideia de direito internacional fica profundamente abalada.
E há aqui uma questão que não podemos ignorar: se a força prevalece sobre a lei quando o mais forte decide que assim deve ser, o que resta ao mais fraco?
Direitos humanos: universais ou seletivos?
A mesma inquietação se coloca perante os direitos humanos.
Aceitamos — ou deveríamos aceitar — que a dignidade humana não depende da nacionalidade, da religião, da ideologia ou da fronteira. Um ser humano não vale mais porque nasceu num determinado país, nem vale menos porque pertence ao lado errado de um conflito.
Contudo, assistimos demasiadas vezes a uma preocupante duplicidade de critérios.
Há vítimas que ocupam durante semanas as primeiras páginas dos jornais e outras que desaparecem quase completamente do espaço público. Há violações dos direitos humanos que provocam legítima indignação e outras que são relativizadas ou simplesmente esquecidas, conforme os interesses políticos em causa.
Mas os direitos humanos só são verdadeiramente universais se forem defendidos quando é difícil defendê-los — e sobretudo quando a sua defesa pode contrariar os nossos próprios aliados.
Caso contrário, deixamos de defender princípios. Passamos a defender conveniências.
Um mundo perigosamente a preto e branco
Talvez uma das maiores perdas do nosso tempo seja a capacidade de aceitar a complexidade.
A diplomacia, por natureza, vive de nuances. Procura pontes onde outros veem muros. Procura compreender os interesses do adversário sem necessariamente os aceitar. Tenta evitar que a divergência se transforme em conflito e que o conflito se transforme em guerra.
Mas a diplomacia parece estar progressivamente a ser substituída por uma visão simplificada do mundo: de um lado estão os bons; do outro, os maus. De um lado estão os que têm razão; do outro, os que não podem ter razão. De um lado, os nossos; do outro, os outros.
Esta visão pode ser politicamente cómoda, mas é intelectualmente perigosa.
A história raramente é uma narrativa a preto e branco. Os Estados têm interesses contraditórios. Os governos podem cometer erros e, simultaneamente, ter razões legítimas para agir. Um adversário pode praticar atos condenáveis sem que todas as suas posições sejam necessariamente condenáveis. Um aliado pode cometer injustiças sem que, por isso, deixemos de ser seus aliados.
Reconhecer esta complexidade não significa relativizar o mal. Significa recusar a simplificação.
Quando deixamos de procurar a verdade
Talvez o maior perigo não seja, afinal, vivermos rodeados de mentiras. O maior perigo será chegarmos a um ponto em que deixamos de acreditar que vale a pena procurar a verdade.
Se todas as versões têm o mesmo valor, se todos os factos podem ser descartados como “opiniões”, se qualquer crítica pode ser rejeitada como propaganda do adversário e se cada cidadão escolhe apenas a informação que confirma aquilo em que já acredita, então a verdade deixa de ser um objetivo comum.
E quando uma sociedade perde a capacidade de construir uma realidade comum, torna-se vulnerável à manipulação.
A democracia não vive apenas de eleições. Vive também da existência de cidadãos capazes de distinguir informação de propaganda, facto de opinião, argumento de insulto, divergência de ódio. Vive da liberdade de imprensa, mas também da responsabilidade de quem informa. Vive da liberdade de expressão, mas também da responsabilidade de quem fala.
E nós?
Perante tudo isto, talvez seja legítimo perguntar: que destino o nosso?
A pergunta não deve ser dirigida apenas aos governos, aos partidos, aos jornalistas ou às grandes instituições internacionais. Deve ser dirigida também a cada um de nós.
Que sociedade estamos a construir quando aceitamos como verdade aquilo que confirma as nossas convicções e rejeitamos como mentira aquilo que as contraria?
Que futuro teremos se passarmos a considerar normal que os princípios dependam de quem os viola?
Que democracia poderá sobreviver se deixarmos de confiar em qualquer instituição, em qualquer jornalista, em qualquer facto e, finalmente, uns nos outros?
Talvez ainda seja possível inverter este caminho. Mas isso exige mais do que indignação. Exige pensamento crítico. Exige jornalismo rigoroso. Exige instituições internacionais credíveis. Exige políticos capazes de compreender que a diplomacia não é fraqueza e que procurar compromissos não significa capitular.
E exige, sobretudo, cidadãos dispostos a fazer uma coisa aparentemente simples, mas cada vez mais difícil: parar, verificar, questionar e admitir que podemos estar errados.
Talvez devêssemos recuperar também a coragem de dizer que nem tudo é relativo. Que há factos que são factos. Que há direitos humanos que são universais. Que há princípios que não podem depender da conveniência do momento. Que a força não pode substituir permanentemente o direito. E que a paz não se constrói transformando o mundo numa batalha permanente entre bons e maus, mas procurando compreender as causas dos conflitos e encontrar caminhos para os resolver.
A história julgará certamente os grandes poderes, os governos e os dirigentes do nosso tempo.
Mas talvez também nos julgue a nós.
Pelo que vimos e não quisemos ver. Pelo que acreditámos sem verificar. Pelo que condenámos num lado e desculpámos no outro. Pelo silêncio que mantivemos quando falar era incómodo. E pela facilidade com que permitimos que a complexidade do mundo fosse reduzida a slogans.
Que destino o nosso?
Talvez ainda esteja por decidir.
Mas uma coisa parece certa: será determinado, em boa medida, por aquilo que aceitarmos como normal hoje.
E talvez seja precisamente agora, quando tudo parece poder ser verdade e mentira ao mesmo tempo, que mais precisamos de defender a verdade, o direito, a dignidade humana e a capacidade de dialogar.
Não porque sejam valores perfeitos.
Mas porque, sem eles, não sabemos muito bem o que nos resta.
Leia também: Quando o Estado apreende o carro – e depois o conduz | Por Luís Ganhão
















