O CHEGA atingiu 22% dos votos nas legislativas. Um resultado robusto, sim – mas não uma súbita conversão ideológica do país ao fascismo. A leitura apressada de que Portugal foi tomado por extremistas é não só intelectualmente desonesta, como politicamente irresponsável. E, talvez, acima de tudo, confortável. Permite evitar o incómodo de encarar o que realmente se está a passar.
É evidente que existe, entre os apoiantes do CHEGA, um núcleo duro com traços racistas, autoritários e profundamente anti-sistema. Mas confundir esse núcleo com os mais de um milhão de eleitores que optaram por André Ventura é um erro crasso. Reduzir um fenómeno social deste calibre a uma caricatura ideológica é recusar compreender. E, sobretudo, é recusar ouvir.
Porque o que se passa com muitos desses eleitores é menos ideológico e mais visceral. São pessoas comuns, cansadas, desiludidas, zangadas. Gente que sente que o sistema político deixou de responder às suas necessidades – e que passou a olhá-los de cima, com desprezo. Gente que não leu o programa do partido, mas que sabe de cor o que é viver à margem de quem decide. Gente que não se revê nos partidos tradicionais porque deixou, há muito, de ser ouvida por eles.
A resposta das forças políticas dominantes – à esquerda, mas também em sectores da direita – tem sido tudo menos eficaz. Em vez de empatia, arrogância. Em vez de escuta, sermões. Em vez de análise, desqualificação. Como se fosse possível reverter o voto de protesto insultando quem protesta. Como se o problema fosse o eleitor – e não quem, durante anos, ignorou o que ele tinha para dizer.
A comunicação social também falhou. Preferiu o ruído à substância. A espuma ao fundo. Os diretos em horário nobre ao jornalismo de investigação. Os debates-espetáculo à procura séria de explicações. A realidade da precariedade, da insegurança, do desamparo, foi deixada de fora. Enquanto isso, multiplicaram-se as horas de antena para Ventura – como se combater populismo se fizesse oferecendo-lhe mais palco.
Confundir Ventura com o eleitorado que o escolheu é continuar a combater fantasmas. É não distinguir entre quem lança o fósforo e quem apenas sente o frio. E é, acima de tudo, desperdiçar uma oportunidade – talvez a última – de recuperar esse eleitorado antes que seja tarde.
Porque, por mais que custe a admitir, esse eleitorado não desaparece. Ou se reconquista, com humildade, trabalho e política séria – ou continuará a engrossar as fileiras do ressentimento. Não é possível responder a milhões de votos com memes e indignações digitais. Isso só reforça o que já sentem: que estão sós. E que só o grito lhes resta.
E por favor, poupem-nos à ideia de um “povo” homogéneo, manipulável, ignorante. O povo é feito de contradições, de experiências reais, de vidas precárias e esperanças adiadas. Tratá-lo com desprezo é garantir que continuará a virar-se contra quem o desrespeita. E a votar, não em quem o representa, mas em quem lhe devolve, ao menos, a sensação de existir.
Há semanas escrevi que a vitória do PS podia ser a única salvação do CHEGA, a realidade deu-me razão – mas de forma inversa.
Montenegro ganhou sem maioria. Pedro Nuno Santos saiu de cena. E agora, a decisão que poderá travar ou abrir caminho à extrema-direita está, ironicamente, nas mãos de quem perdeu: o novo líder do Partido Socialista.
O CHEGA ficou em segundo lugar (que será confirmado pelos voto da imigração) – um resultado histórico para um partido com menos de uma década de existência. Mas votos não são poder. E o que decidirá se Ventura chega a governar não é a sua votação, mas a matemática parlamentar. E o papel que o PS escolher desempenhar neste novo xadrez.
Se o novo líder socialista optar por provocar eleições, corre o risco de empurrar o PS para nova derrota e de catapultar o CHEGA ainda mais. Mas se, com pragmatismo, decidir viabilizar a governação da AD através de uma abstenção estratégica, poderá não só travar Ventura, como conquistar tempo e espaço para a regeneração da esquerda democrática.
Não seria um apoio. Seria uma pausa tática. Uma jogada de sobrevivência política – e de responsabilidade institucional.
Montenegro prometeu não negociar com o CHEGA. Se o PS garantir que essa promessa se mantém, Ventura torna-se dispensável. E partidos dispensáveis, por muito que gritem, perdem relevância. O que lhes dá força não é o número de votos – é o facto de serem necessários para governar.
Esta é a oportunidade do PS de fazer agora o que não fez em campanha: pensar estrategicamente. Não se trata de salvar Montenegro. Trata-se de salvar o país de mais uma temporada de instabilidade, barulho e corrosão democrática.
A política, muitas vezes, exige mais estômago do que ideologia. Mais cálculo do que moralismo. E menos ego do que muitos estão dispostos a admitir.
A pergunta não é se o CHEGA ganhou. A pergunta é: vai mandar?
E, estranhamente, a resposta pode estar nas mãos de quem acabou de perder.
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