Vivemos tempos de anestesia cívica. A política, esse espaço que deveria ser de ideias, confronto honesto e serviço público, tornou-se um teatro de vaidades, onde abundam figurantes e escasseiam protagonistas. Os verdadeiros líderes — aqueles que pensam com profundidade, falam com coragem e agem com sentido de missão — parecem ter sido substituídos por personagens saídas de um romance de Eça de Queirós: Dâmasos modernos, vaidosos, ignorantes, oportunistas, que se movem não por convicções, mas por conveniências.
Estes Dâmasos não usam camélias ao peito nem gravatas azul-celeste, mas exibem selfies com eleitores, frases feitas em conferências e indignações de ocasião nas redes sociais. São mestres da encenação, mas analfabetos da substância. Falam de democracia, mas não a vivem. Invocam o povo, mas servem interesses privados. E nós, cidadãos, assistimos — muitas vezes em silêncio — a este desfile de mediocridade, como se fosse inevitável, como se não nos dissesse respeito.
Mas diz-nos respeito!

Jurista
Eça de Queirós, com a sua pena afiada, ridicularizou os vícios da sua época. Hoje, cabe-nos a nós fazer o mesmo — não com ironia literária, mas com exigência cidadã
A alienação política não nasce apenas da manipulação mediática ou da complexidade dos sistemas. Ela é também fruto da nossa desistência. Quando deixamos de exigir, de questionar, de participar, abrimos espaço para que os Dâmasos ocupem o poder. E eles ocupam-no com gosto — porque sabem que o palco está livre, que os espetadores estão distraídos, e que o aplauso fácil vale mais do que a crítica exigente.
É urgente acordar. Espicaçar os espíritos adormecidos. Rasgar o véu da indiferença. A cidadania não é um gesto ocasional, é um exercício permanente. Exige atenção, memória, coragem. Exige que saibamos distinguir entre quem nos representa e quem se representa. Entre quem serve o país e quem se serve dele.
Não basta votar. É preciso vigiar. Não basta indignar-se nas redes. É preciso agir nas ruas, nas assembleias, nas escolas, nos locais de trabalho. A democracia não se sustenta com espetadores — precisa de autores.
Eça de Queirós, com a sua pena afiada, ridicularizou os vícios da sua época. Hoje, cabe-nos a nós fazer o mesmo — não com ironia literária, mas com exigência cidadã. Porque enquanto os Dâmasos governam, o país adormece. E quando o país acordar, talvez já seja tarde.
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