O debate económico em Portugal sofre de um mal crónico: a macrocefalia. Discutimos exaustivamente o Orçamento do Estado, as cativações do Terreiro do Paço e a execução da “bazuca” europeia. No entanto, ignoramos sistematicamente o motor que mantém a verdadeira economia real a funcionar todos os dias: a gestão local e, em particular, o setor empresarial municipal.
Durante anos, permitiu-se que um estigma injusto colasse às empresas municipais. Foram frequentemente caricaturadas como estruturas pesadas ou redundantes. É um erro de miopia económica. O rigor financeiro, a transparência de contas e a eficiência não são negociáveis em nenhuma entidade pública, mas confundir a exigência de escrutínio com a demonização do modelo é deitar fora o motor por causa do barulho do escape.
A realidade, fria e mensurável, é que as Câmaras Municipais, presas nas amarras da contratação pública tradicional e da burocracia administrativa, são muitas vezes lentas demais para responder à velocidade exigida pela economia moderna. É aqui que entram as empresas municipais, operando no ponto de equilíbrio perfeito: têm a agilidade e a lógica de gestão do setor privado, mas mantêm o compromisso inabalável com o interesse público e a coesão social.
Olhemos para a regeneração urbana, a gestão do espaço público ou a dinamização dos mercados locais. Um mercado municipal gerido com visão empresarial não é apenas um edifício de abastecimento; é o coração comercial de uma cidade. É uma infraestrutura âncora que gera tráfego pedonal, atrai turismo de qualidade e cria um efeito multiplicador que sustenta o comércio tradicional, os restaurantes e os serviços de todas as ruas adjacentes. Quando uma empresa municipal revitaliza um centro urbano, está, na prática, a criar o ecossistema necessário para que as Pequenas e Médias Empresas (PME) locais possam faturar e sobreviver.
Lisboa não resolve o problema do estacionamento em Faro, tal como o Terreiro do Paço não atrai investimento para as zonas ribeirinhas do sul. A captação de riqueza e a fixação de talento fazem-se ao nível da rua, do bairro e da cidade. E isso exige equipas no terreno, gestão profissionalizada e capacidade de execução rápida que só o setor empresarial local consegue garantir.
Num país onde o Estado central está tantas vezes distante e sobrecarregado, as empresas municipais assumem o papel de “amortecedores” e de catalisadores do desenvolvimento regional. Exigir que estas estruturas apresentem contas certas, balanços sólidos e gestão de excelência é uma obrigação. Mas ignorar o seu papel vital na economia do país é um luxo a que Portugal não se pode dar. A economia nacional soma os grandes números, mas a economia real constrói-se à escala local.
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