Não haverá órgão de comunicação social que no seu estatuto editorial não se apresente como independente, ainda que não isento.
Quanto a não ser-se isento, compreende-se que assim seja, já que perante um qualquer acontecimento, todos nós, seja-se jornalista ou simples cidadão, fazemos os nossos juízos de valor, juízos determinados pelos princípios em que acreditamos, pelo que temos por justo ou injusto, em suma, pela cultura de que somos possuídos. E uma vez feitos esses juízos de valor, desejamos, depois e naturalmente, que as coisas passem, no tocante a esse dito acontecimento, a correr neste ou naquele sentido. Perante, por exemplo, o eclodir duma guerra ou a apresentação de um dado candidato a presidente de uma qualquer instituição, desejamos que elas corram favoravelmente a esta ou àquela parte em conflito ou que o dito candidato venha a ter ou não sucesso eleitoral.

Jurista
A verdadeira independência deve ser buscada na capacidade de informar com honestidade,mesmo quando isso significa ir contra a corrente
Porém, desejo e realidade nem sempre coincidem, e um jornalismo digno desse nome, independente, revelar-se-á quando é capaz de separar as respetivas águas, como se costuma dizer, sob pena de se tornar, meramente, panfletário, propagandístico, enganando o público a quem com a verdade deveria servir. Ser capaz de reconhecer que a parte envolvida numa guerra e de que não se gosta, estará, contudo, a mostrar vantagem sobre a outra ou que o candidato presidencial pelo qual se nutre simpatia não está a ter sucesso na sua campanha como se desejaria que ele tivesse.
Ora, hoje em dia, quando olhamos para as dificuldades crescentes enfrentadas pela comunicação social em geral, com perda de quem a compre, interrogamo-nos até que ponto tal não resultará, entre fatores diversos, de se ter, cada vez mais, uma imprensa propagandística, ao serviço de interesses diversos, que não o do público, servindo-o com a verdade dos fatos, em vez de os escamotear e deturpá-los!
A concentração de meios de comunicação nas mãos de grandes conglomerados empresariais tem resultado numa pressão crescente para que as notícias, manipuladas, sigam uma linha editorial que favoreça interesses financeiros ou políticos.
É mais crucial do que nunca que os meios de comunicação se distanciem da propaganda e voltem a servir o público com independência. O jornalismo verdadeiro deve sempre desafiar os seus leitores a questionar, a pensar por si mesmos e, acima de tudo, a procurar a verdade, por mais desconfortável que ela seja.
Os jornalistas têm a responsabilidade de ser transparentes sobre as suas inclinações e de se esforçar para garantir que a informação que transmitem é equilibrada, precisa e fundamentada. Se não forem capazes de separar os seus próprios juízos de valor daquilo que reportam, arriscam-se a transformar a mídia em um instrumento de manipulação, em vez de um veículo de esclarecimento.
A verdadeira independência deve ser buscada na capacidade de informar com honestidade, mesmo quando isso significa ir contra a corrente. A mídia tem um papel vital na sociedade e, ao cumprir esse papel com responsabilidade, poderá recuperar a confiança do público e contribuir para um debate público mais saudável e informativo.
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