Um ano após as eleições autárquicas, Faro continua à espera de ver concretizadas muitas das promessas que marcaram a campanha eleitoral. Enquanto as freguesias procuram desenvolver o seu trabalho, o atual executivo da Câmara Municipal parece mais preocupado em justificar dificuldades do que em apresentar resultados.
A 12 de outubro de 2025, os farenses foram chamados às urnas para escolher os seus representantes autárquicos. Um ano depois, é essencial fazer um balanço das mudanças políticas ocorridas no concelho e, sobretudo, avaliar o trabalho desenvolvido por quem assumiu a responsabilidade de decidir os seus rumos.
Comecemos pela Câmara Municipal. Após 16 anos de executivos associados a diferentes forças políticas (PSD, CDS, IL, MPT e PPM) e liderados por Rogério Bacalhau, António Miguel Pina conquistou a liderança da autarquia com o lema «Saber Fazer».
A campanha foi marcada por promessas que abrangiam diferentes áreas, desde a criação de gabinetes de apoio aos empresários, à cidadania e aos migrantes até projetos como a Alameda XXI.
Mas, passado um ano, impõe-se uma pergunta que muitos farenses já fazem: onde estão os resultados?
É compreensível que governar no âmbito do poder local exija tempo, planeamento e capacidade de negociação. Mas também é legítimo exigir que as promessas eleitorais comecem a sair do papel e a concretizar-se no terreno. Até agora, a perceção que fica é a de uma cidade que continua à espera de respostas, numa espécie de stand-by, enquanto o executivo parece revelar dificuldades em transformar as suas propostas em resultados visíveis.
As freguesias: mudanças políticas e realidades diferentes
Nas cinco freguesias do concelho de Faro, o cenário eleitoral também sofreu alterações. O Partido Socialista perdeu a Conceição de Faro para o Chega, recuperou Estoi, com a vitória de Luís Barriga, e conquistou a União das Freguesias de Faro, com Paula Matias. O PSD perdeu a União das Freguesias de Faro, mas manteve a freguesia do Montenegro, liderada por Virgínia Alpestana. Em Santa Bárbara de Nexe, a disputa entre o PSD e a CDU terminou com a vitória da CDU porém sem maioria absoluta perdendo polos importantes como Bordeira para a candidatura do PSD liderada por Eva Mendonça.
Apesar das diferenças políticas, há sinais de atividade em várias freguesias. Na Conceição de Faro, Dário Valente tem procurado dar continuidade ao trabalho anteriormente desenvolvido no âmbito da união de freguesias. Em Estoi, aguarda-se ainda a prometida dinâmica para a freguesia.
Na freguesia do Montenegro, Virgínia Alpestana tem procurado dar continuidade ao trabalho desenvolvido nos últimos anos.
Já na União das Freguesias de Faro, a situação merece uma reflexão particular. Depois de sete anos de liderança de Bruno Lage, sob a gestão do PSD, a freguesia destacou-se a nível nacional em diversas áreas. Durante este período, foi distinguida, por três anos consecutivos, como a freguesia mais sustentável do país, afirmou-se na defesa e valorização do património e apostou na requalificação do espaço urbano e na dinamização de atividades de lazer.
Contudo, a mudança de executivo trouxe uma nova realidade, que importa analisar à luz do trabalho desenvolvido ao longo desses sete anos e das expectativas criadas para o futuro da freguesia.
Estes primeiros 365 dias do mandato de Paula Matias têm sido marcados por sinais de menor dinamismo na programação de algumas iniciativas que contribuem para a vitalidade da baixa de Faro. A Feira de Queijos, Vinhos e Enchidos, habitualmente realizada em abril, e o Mercado das Alcaçarias, em maio, são exemplos de eventos cuja ausência se fez sentir junto de comerciantes e visitantes.
Estes eventos não eram apenas momentos de convívio ou de promoção de produtos regionais. Representavam também uma oportunidade para atrair pessoas ao centro histórico, apoiar os comerciantes e dinamizar a economia local.
Embora tenham sido promovidos outros eventos, como a Festa do Caracol, importa refletir sobre a escolha dos locais onde estas iniciativas se realizaram. Quando a programação deixa de privilegiar os espaços centrais, como o Jardim Manuel Bivar, perde-se uma oportunidade de reforçar a ligação entre os eventos e o comércio tradicional da cidade. Dou o exemplo do evento “vaibes” que realizou-se ao mesmo tempo da Receção ao Caloiro da UALG que apesar de ser virado para o público mais jovem não atraiu esta faixa etária e revelou-se um fiasco.
A baixa de Faro precisa de pessoas, de atividade e de motivos para ser visitada. O comércio local não pode continuar a perder oportunidades de promoção e de negócio. Esta foi, aliás, uma preocupação expressa durante o último verão, quando se ouviu, por diversas vezes, a frase: «A baixa está mais vazia este ano».
Câmara Municipal: governar também é saber negociar
Feita a análise das cinco freguesias do concelho, importa regressar à Câmara Municipal e ao primeiro ano de mandato de António Pina.
O atual presidente chegou de Olhão com o lema «Saber Fazer». Durante a campanha, muitos farenses acreditaram que a mudança de liderança representaria um novo impulso para a cidade. Um ano depois, porém, ainda nada se fez.
Uma das principais dificuldades do executivo parece residir na ausência de uma maioria que lhe permita governar sem depender da negociação com as restantes forças políticas. No entanto, esta realidade não constitui uma surpresa. Os farenses elegeram uma oposição forte liderada por Carlos Deus Pereira, e isso faz parte do funcionamento democrático dos órgãos autárquicos.
Como todos sabemos, governar sem maioria exige diálogo, capacidade de negociação e disponibilidade para construir consensos: o famoso jogo de cintura. A falta destas competências não pode servir de justificação permanente para a ausência de resultados.
António Pina tem apontado a oposição como um obstáculo ao desenvolvimento de Faro, chegando a afirmar que esta está «para travar o desenvolvimento de Faro», num vídeo publicado a 22 de setembro de 2026. Mas será esta a explicação para as dificuldades sentidas pelo executivo?
A oposição tem responsabilidades na fiscalização da atividade municipal e na apreciação das propostas apresentadas. Pode concordar, discordar ou exigir alterações. O que importa avaliar é o comportamento concreto de cada força política, proposta a proposta, e não transformar a divergência democrática numa explicação geral para as dificuldades da governação.
Se, como tem sido defendido pela oposição, uma parte significativa das propostas do executivo tem recebido aprovação, então é legítimo questionar se as dificuldades estão também relacionadas com o planeamento, a execução e a capacidade de concretização das medidas anunciadas.
A oposição não pode ser responsabilizada por todos os atrasos na cidade. Da mesma forma, o executivo não pode ser dispensado de explicar as suas decisões e de apresentar resultados perante os cidadãos farenses.
Se existem limitações orçamentais à concretização de projetos considerados fundamentais para o desenvolvimento da cidade, é legítimo perguntar como são definidas as prioridades e quais os critérios que orientam a utilização dos recursos públicos.
Inaugurar não é o mesmo que concretizar
Ao longo deste primeiro ano, António Miguel Pina participou na inauguração de obras e equipamentos, entre os quais o Faro Youth Lab e a rotunda da Conceição de Faro. Contudo, importa distinguir as iniciativas herdadas de executivos anteriores dos projetos efetivamente concebidos, lançados e executados pelo atual executivo.
Reconhecer o trabalho realizado pelo executivo anterior não diminui o mérito de assegurar a conclusão de projetos. Pelo contrário, a continuidade administrativa é fundamental para o funcionamento de qualquer autarquia. Ainda assim, um balanço de mandato deve permitir perceber qual é o contributo específico do novo executivo e quais são as suas prioridades para os próximos anos.
Também na área cultural se levantam algumas questões. O Festival F sofreu alterações que justificam uma avaliação pública, nomeadamente quanto ao orçamento, à divulgação e ao alcance da iniciativa. Em 2025, o festival contou com a presença dos patrocinadores nos palcos e com cobertura televisiva da RTP. Na edição seguinte, apesar de a estação ter estado presente, não houve, segundo a informação disponível, a mesma transmissão dos concertos, e a presença dos patrocinadores pareceu menos evidente.
Num festival com importância para a projeção nacional da cidade de Faro, estas alterações carecem de explicação. É necessário perceber se resultaram de opções orçamentais, de alterações contratuais ou de uma estratégia de comunicação diferente.
Importa ainda recordar que, em junho, o próprio presidente ainda não sabia quem seria o promotor do festival quando foi questionado pela bancada do PSD, na sessão ordinária de 25 de junho.
A cultura não deve ser avaliada apenas pelo custo, mas também pelo público que atrai, pelo impacto económico que gera e pela capacidade de promover a cidade.
Neste primeiro ano, houve igualmente iniciativas positivas que importa reconhecer. Destaco a entrega de cadernos de atividades aos alunos do 1.º ciclo e a realização da sessão solene do Dia do Município, pela primeira vez fora do centro da cidade, no Centro Cultural e de Inovação de Bordeira, em Santa Bárbara de Nexe.
São medidas e iniciativas que merecem ser assinaladas. Contudo, um balanço autárquico não pode limitar-se à enumeração de acontecimentos positivos ou negativos. Deve avaliar o rumo estratégico do concelho, a capacidade de concretização das promessas e os resultados alcançados.
Faro precisa de obra feita
Uma das questões mais preocupantes e que mais debate tem suscitado na cidade prende-se com a possibilidade de abandonar ou adiar projetos estruturantes para o concelho, nomeadamente o Eixo Central da Baixa de Faro, com um valor anunciado de 3,30 milhões de euros; a Infraestrutura Portuária da Porta Nova, no valor de 8,50 milhões de euros; e a rotunda das Pontes de Marchil, orçada em 2,40 milhões de euros.
A gestão financeira responsável é indispensável, mas não pode transformar-se numa ausência de ambição. Se existem projetos prioritários para a mobilidade, a requalificação urbana e a atividade económica, os farenses têm todo o direito de saber quais serão os investimentos concretizados, em que prazos e com que financiamento.
A cidade não precisa apenas de novos anúncios, desenhos ou apresentações públicas. Precisa de ver os projetos avançarem, os espaços públicos melhorarem e os compromissos eleitorais serem cumpridos.
Basta olhar para os concelhos vizinhos de Loulé e Olhão para perceber que Faro não pode acomodar-se a um ritmo de desenvolvimento que não corresponda às suas necessidades e ao seu potencial enquanto capital de distrito. Cada município tem as suas especificidades, mas Faro tem de ser capaz de definir prioridades e executar uma estratégia própria.
Gostaria de citar José Manuel Trigo, personalidade conhecida na nossa cidade : «Faro precisa mesmo é de fazer». A frase traduz uma exigência simples: os farenses querem menos tempo perdido em guerrilhas políticas e mais tempo dedicado à concretização de soluções.
Um ano depois, o balanço continua em aberto
Ao fim de um ano, o balanço do concelho de Faro revela realidades distintas. Nas freguesias, há iniciativas, projetos e tentativas de responder aos problemas locais, embora persistam obstáculos que exigem maior capacidade de execução. Na Câmara Municipal, pelo contrário, a perceção de estagnação contrasta com as expectativas criadas durante a campanha eleitoral.
António Pina tem ainda tempo para demonstrar que o lema «Saber Fazer» representa mais do que uma mensagem de campanha. Para isso, terá de provar que consegue governar sem maioria absoluta, negociar com as restantes forças políticas e transformar as promessas em resultados concretos.
A oposição deve continuar a cumprir o seu papel de fiscalização, mas o executivo tem de assumir a responsabilidade de governar. Essa é a diferença fundamental entre quem apresenta propostas e quem tem a obrigação de as concretizar.
Um ano depois das eleições, verifica-se que quem ganhou não fez jus ao slogan que o elegeu. É importante que as promessas comecem a ser cumpridas, porque já se ouvem muitos farenses a dizer que foram enganados.
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